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Nesse restaurante em SP, aceitei um cachê
baixíssimo porque na minha cabeça na época,
era interessante pra eu me divulgar e ganhar
experiência. Hoje, não só não faria isso como
não recomendo fazer isso nem para quem está começando. A valorização deve ocorrer desde o início da carreira. |
Depois de ler o post da
Nilza Leão sobre cachê e de passar o Festival Shimmie, fiquei pensando sobre isso. Nunca quis escrever sobre esse assunto aqui no blog e muito já se falou sobre valorização do profissional de Dança do Ventre. Me parece até um assunto razoavelmente esgotado, porque
ninguém discorda de que não é ético cobrar preços muito baixos, pois desvaloriza o trabalho das bailarinas que cobram um valor justo (ou um valor alto, dependendo do que ela representa pro mercado). Vim nesse post para discutir
o pagamento ou não de cachê.
Em qual situação você abriria mão do seu cachê, sem contar com eventos beneficentes? Nenhum? Você já pensou o quão comumente isso acontece? Vou explicar melhor:
Vemos muitos "shows de gala" por aí e as bailarinas profissionais que são convidadas, normalmente, não recebem cachê (você não sabia?). Os motivos são variados, razoáveis ou não: a produção não consegue incluir isso no orçamento sem ter prejuízo, pois sabe o quão difícil é pagar toda a produção de um show; não tem interesse em pagar, pois acha que o convite por si só já é uma honra; nunca pensaram sobre o assunto por ser simplesmente, cultural. Entre outros.
A questão é: todo mundo acha que o certo é pagar cachê e um cachê justo. Ou não? Vamos considerar que sim: todo mundo quer ganhar um cachê que considera justo. Fazemos esse discurso por acharmos que isso é o certo (e não vou discutir aqui se é ou não certo) e negamos convites para shows, caso o valor seja baixo ou não exista cachê. Maaaaaaaaaaas... se recebemos convite para dançarmos:
- num grande festival de Dança, em que sabemos que vamos aparecer, mesmo que seja fora da sua cidade e ninguém vai pagar sua estadia e passagem
- num lugar famoso
- numa feira da providência qualquer
- no Big Brother Brasil
- no Copacabana Palace
- no Faustão
sim, aceitamos dançar de graça. E ponto final.
E aí, onde entra o discurso do cachê, pois, afinal, "dançar faz parte do nosso trabalho, existem inúmeros custos e eu vivo só disso"?
O que eu quero dizer com esse post? Que eu estou defendendo que devemos sempre aceitar dançar de graça nos eventos, senão estaremos sendo arrogantes? NÃO! Mil vezes não! O que eu quero sugerir é que devemos ter mais cuidado com as opiniões que divulgamos por aí e lembrar que todas nós agimos de acordo com nossos interesses SIM e se achamos que não vale a pena dançar de graça num evento X, mas vale dançar de graça no evento Y, NÓS FAREMOS SIM. Isso é desvalorizar nosso trabalho? Não acho. Existem outras coisas muito mais fáceis de serem resolvidas para melhorar substancialmente o mercado da Dança do Ventre como, por exemplo, retirar do circuito professoras despreparadas dando aula e não valorizar bailarinas de qualidade duvidosa.
Cachê é importante? Sim, mas pagar um cachê justo às bailarinas, dentro de um evento de dança de QUALIDADE, é bem difícil. Não impossível. Todas as produtoras de evento devem tentar incluir o cachê nos seus orçamentos, mesmo que isso diminua seu lucro (heim? lucro?) ou criar maneiras alternativas de pagamento. Assim, iniciaremos uma nova "cultura". Mas, por favor, sem hipocrisia nos discursos!
Bauce kabira,
Hanna Aisha