Nessa semana que passou, algumas pessoas compartilharam esse texto, em que a autora diz que "não aguentar bellydancers brancas" (não no sentido racista de cor, mas de país) porque, resumindo, a Dança do Ventre é do Egito e bailarinas não egípcias não sabem o que dançam ou como devem se vestir, são estereotipadas. Isso causou bastante desconforto entre as profissionais não egípcias, tanto que escreveram um outro texto contestando bastante o original. Vale dar uma olhada!
Apesar de parecer um consenso de que a origem da Dança do Ventre é na África (O Egito fica no norte), ela alcançou o mundo inteiro e hoje, é basicamente impossível engolirmos esse movimento "possessivo", que tenta mantê-la como propriedade única do Egito.
"Não há nacionalidade para a arte". Tratando-se de danças étnicas, como a Dança do Ventre, essa frase pode não caber, dependendo do contexto. Mas, foi inevitável; temos muitas bailarinas não-egípcias que são conhecidas mundialmente porque elas têm talento e uma história de busca e determinação. Quem imaginou uma latina (no caso abaixo, argentina) fazendo sucesso no Egito?
Temos a Jillina, também americana, trabalhando muito pelo mundo:
Alguns documentários já relataram a dificuldade de se formar novas bailarinas egípcias por conta desse novo conservadorismo religioso. Então, como manter a tradição da Dança do Ventre no Egito, que é um importante movimentador de dinheiro no país? Uma das soluções encontradas foi importando bailarinas! A Nour, bailarina citada no podcast, é asiática (russa), casada com um sírio e morando no Cairo, há muitos anos. E eles percorrem o mundo dando show. Alguém tem dúvidas de que ela merece estar onde está?
Os brasileiros costumam considerar os europeus como um povo frio e introspectivo. E o sentimento, por que não podemos compartilhá-lo? Afinal, todos nós somos seres humanos! Amor, alegria, satisfação, tristeza, são universais! Se não fosse, por que uma holandesa como a Anusch, consegue dançar tão bonito?
Não poderíamos deixar de citar nosso orgulho brasileiro: Soraia Zaied, que arrasa lá no Egito!
Nós, não-egípcias, criamos, adaptamos, reinventamos a DV, tudo baseado na nossa cultura e história pessoal. Tem problema isso? Sim, pode ser perigoso, por conta da apropriação cultural (que merece um post só dele). Reconhecer as egípcias como a fonte primária dessa dança é o primeiro passo para diminuirmos esse problema. Além disso, precisamos dessas referências para nos colocar "de volta no chão" e nos fazer refletir sobre o que é Dança do Ventre e por que a escolhemos.
Tem mais gente falando sobre isso, dá uma olhada: Amar El Binnaz, Dança do Ventre Brasil, Dunya. Também sugiro esse post da Nadja el Balady.
Bauce kabira,
Hanna Aisha
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Olá Hanna...
ResponderExcluirEntão, confesso que se me perguntassem sobre qual a nacionalidade atual da dança do ventre eu não teria essa reflexão, acho até que agora, de imediato após ler a tua publicação, eu não teria ainda uma opinião formada sobre essa questão.
Mas posso me arriscar a dizer que em qualquer coisa que estudamos nós temos alguns pontos de partida. Seriam eles: A história (me referindo ao passado, com a questão da origem e evolução), a cultura (modo de vida, organização social, política, música, moda, folclore, etc), a contextualização (me referindo à história recente, ao presente e seus desdobramentos), especificidades da categoria (no caso da dança, o que diferencia a dança das outras artes? qual é a posição dela no cenário artístico? o que diferencia a dança do ventre das outras modalidades?)
São pontos que dão os "estudos de anos" que nós tentamos alcançar, e acredito que a nacionalidade atual tem a ver com a cultura e contextualização.
Como você mesma disse a cultura se disseminou e recentemente ela está espalhada pelo mundo.
Sabemos que ela tem uma história vasta, sabemos que o folclore dela (que faz parte de toda a história, inclusive atual) deve ser respeitada no sentido mais amplo, mas não podemos fingir que ela não saiu da África (literalmente) e viajou tantos lugares se apropriando de outras culturas e se deixando ser apropriada.
É mais ou menos por aí... Só me soa (particularmente) muito contemporâneo/progressivo dizer que ela não tem nacionalidade, sabendo que ela tem uma origem e que sempre precisamos beber da fonte. (Origem x Nacionalidade??? Pensemos como se a dança fosse uma pessoa, onde ela nasceu? onde ela vive? será??? rs)
Talvez eu questione isso por uma questão de estar numa sociedade arraigada de tradicionalismo, e isso seja uma questão de costume.
Mas foi realmente ótimo ler o seu texto e refletir tanto sobre isso, fazendo um questionamento sobre o meu próprio modo de pensar.
Parabéns mais uma vez pela sua contribuição.
Adorei a postagem Hanna Aisha. Particularmente sempre friso que a Dança do Ventre, como a conhecemos, foi uma criação de PALCO, numa visão empresarial de Badia Massabny, que era SÍRIA e já dançava profissionalmente antes de fazer alguns filmes e montar seu Cassino no Egito. Foi uma grande "sacada" de uma mulher de visão. Ela se utilizou de elementos egípcios, claro, posto que suas bailarinas eram do Egito a princípio, mas levou a dança para PALCO, conferindo às pupilas uma boa formação, inclusive com balé clássico e jazz. Isto não tira o valor das danças populares e folclóricas, antes, ao se levar para o palco - e um nome de que não podemos nos esquecer seria REDA - a dança se fortaleceu e venceu tempos e preconceitos. Dois visionários MASSABNI e REDA. Eu me pergunto se a DV existiria hoje sem aquela grande mulher e sem este grande homem...
ResponderExcluirExcelente texto. Excelente reflexão! Arte não possui nacionalidade, pode ser executada por todo aquele que teve o seu coração tocado por determinada forma de expressão!
ResponderExcluirEsta é mais uma problemática causada pela tentativa neurótica humana de enquadrar tudo em caixas pré definidas e organizadas. Conheçamos as raízes, até onde se pode conhecer e onde há registros fiáveis, mas não neguemos que toda arte é VIVA e mudará a cada geração!
Arrasou nesse post e assino embaixo!
ResponderExcluirA dança não é propriedade de ninguém e o fato de eu dançar uma dança de outro país não significa retirar dele seu berço no que se refere ao gestual e movimentação. Independente de aceitarmos o fato da dança ter o Egito como berço influenciando dessa maneira o mundo todo, não dá o direito de uma egípcia agir com preconceito em relação a globalização na dança. Esse araque de egípcios e egípcias às bailarinas não egípcias só reforçam uma coisa: extrema insegurança por partes delas por verem tantas bailarinas de outros países se destacarem e elas quererem monopolizar o poder apenas com eles. Vamos mudar um pouco o foco de quem não é de lá e pensar o quanto esses discurso como esse não passa de pano quente em cima de uma realidade ( comprovada por quem foi e dança lá e relatado em publico!) que não aceita a dança do ventre como arte?? Tirando os festivais, lá o campo é restrito em relação a dança, cada vez menos existe oportunidade para elas mesmas. Eu acredito que isso seja um bom argumento pra tanta revolta por parte deles. Medo de perder a soberania. Mas soberania sobre o que?? Uma dança que não teve sequer um registro histórico, que é na verdade uma construção através do tempo de diversas influências e que teve sim forte influência a partir deles mas que ganhou muito mais notoriedade depois que se disseminou, depois que ela recebeu o brilho de outras pessoas e sem necessariamente perder sua essência.
ficam várias questões no ar:
ResponderExcluirnão precisa ser europeia para dançar balé, como não precisa ser brasileiro para jogar e manter a tradição (e bem) da capoeira, não preciso ser chinesa para praticar ensinar o Tai Chi Chuan...
além disso, o que nós dançamos é na minha opinião (concordando com a Hanna e outras pessoas) uma dança de palco, como o balé.
Não somos árabes, mas nos interessamos por alguns aspectos ( e não todos) da cultura árabe (que já inclui diversos países, não só o Egito), e por isso gostamos de nos "mexer" com a dança vinda de lá, e daí? isso soa mais como um "elogio" do que um "roubo", é uma exaltação de um aspecto cultural de outro país... ou não?
mas dá para entender um pouco da revolta da moça, pois muitas mulheres se "caracterizam" demais, por assim dizer, e talvez careçam de um pouco de profundidade... além da exposição/exploração excessiva do corpo (sexual) que algumas fazem, de lá do Egito e de cá...
o que sentimos quando vemos um "branco gringo" jogando capoeira? a mesma indignação ou desprezo? ou ficamos felizes porque nossa cultura é também valorizada por algumas pessoas de fora dela?
ficam as questões.