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domingo, 9 de março de 2014

Nacionalidade na Dança do Ventre

Olá!
Já ouviu esse podcast? Ouve antes de ler o post!

Nessa semana que passou, algumas pessoas compartilharam esse texto, em que a autora diz que "não aguentar bellydancers brancas" (não no sentido racista de cor, mas de país) porque, resumindo, a Dança do Ventre é do Egito e bailarinas não egípcias não sabem o que dançam ou como devem se vestir, são estereotipadas. Isso causou bastante desconforto entre as profissionais não egípcias, tanto que escreveram um outro texto contestando bastante o original. Vale dar uma olhada!

Apesar de parecer um consenso de que a origem da Dança do Ventre é na África (O Egito fica no norte), ela alcançou o mundo inteiro e hoje, é basicamente impossível engolirmos esse movimento "possessivo", que tenta mantê-la como propriedade única do Egito:


"Não há nacionalidade para a arte". Hoje, temos muitas bailarinas não-egípcias que são conhecidas mundialmente; por quê? Porque elas têm talento e uma história de busca e determinação. Quem imaginou uma latina (no caso abaixo, argentina) fazendo sucesso no Egito?



Temos a Jillina, também americana, trabalhando muito pelo mundo:



Alguns documentários já relataram a dificuldade de se formar novas bailarinas egípcias por conta desse novo conservadorismo religioso. Então, como manter a tradição da Dança do Ventre no Egito, que é um importante movimentador de dinheiro no país? Exportando bailarinas! A Nour, bailarina citada no podcast, é asiática (russa), casada com um sírio e morando no Cairo, há muitos anos. E eles percorrem o mundo dando show. Alguém tem dúvidas de que ela merece estar onde está?



Consideramos os europeus como um povo frio e introspectivo. E o sentimento, por que não podemos compartilhá-lo? Afinal, todos nós somos seres humanos! E não estamos falando de expressão folclórica, porque essa, eu acho que deve ser trabalhada de uma forma especial. Mas sentimento de amor, alegria, satisfação, tristeza, são universais! Se não fosse, por que uma holandesa como a Anusch, consegue dançar tão bonito?



Importante não confundir Dança do Ventre com Dança Oriental (Raqs Sharqi), como a autora do primeiro texto não conseguiu distinguir pro leitor (e talvez pra ela mesma). Dá uma olhada nesse post aqui.

A Dança do Ventre atravessou muitas águas e agora divide espaço com cangurus e surf na Austrália! Por que não?



Não poderíamos deixar de citar nosso orgulho brasileiro: Soraia Zaied, que arrasa lá no Egito!



Nós, não-egípcias, criamos, adaptamos, reinventamos a DV, tudo baseado na nossa cultura e história pessoal [Pensando alto: ainda bem que podemos fazer isso, não?]. Ah, então, não precisamos mais das egípcias? Claro que não! Sempre esperaremos por novos talentos de lá, nós precisamos delas, afinal, a raiz da nossa arte se encontra lá. Precisamos dessas referências para nos colocar "de volta no chão" e nos fazer refletir sobre o que é Dança do Ventre e por que a escolhemos.

Mas, admitamos: o que seria da Dança do Ventre mundial sem a Lulu, Orit Maftsir, Saida, Daria Mitskevich?

Tem mais gente falando sobre isso, dá uma olhada: Amar El Binnaz, Dança do Ventre Brasil, Dunya. Também sugiro esse post da Nadja el Balady.

Bauce kabir,
Hanna Aisha

5 comentários:

  1. Olá Hanna...
    Então, confesso que se me perguntassem sobre qual a nacionalidade atual da dança do ventre eu não teria essa reflexão, acho até que agora, de imediato após ler a tua publicação, eu não teria ainda uma opinião formada sobre essa questão.
    Mas posso me arriscar a dizer que em qualquer coisa que estudamos nós temos alguns pontos de partida. Seriam eles: A história (me referindo ao passado, com a questão da origem e evolução), a cultura (modo de vida, organização social, política, música, moda, folclore, etc), a contextualização (me referindo à história recente, ao presente e seus desdobramentos), especificidades da categoria (no caso da dança, o que diferencia a dança das outras artes? qual é a posição dela no cenário artístico? o que diferencia a dança do ventre das outras modalidades?)
    São pontos que dão os "estudos de anos" que nós tentamos alcançar, e acredito que a nacionalidade atual tem a ver com a cultura e contextualização.
    Como você mesma disse a cultura se disseminou e recentemente ela está espalhada pelo mundo.
    Sabemos que ela tem uma história vasta, sabemos que o folclore dela (que faz parte de toda a história, inclusive atual) deve ser respeitada no sentido mais amplo, mas não podemos fingir que ela não saiu da África (literalmente) e viajou tantos lugares se apropriando de outras culturas e se deixando ser apropriada.
    É mais ou menos por aí... Só me soa (particularmente) muito contemporâneo/progressivo dizer que ela não tem nacionalidade, sabendo que ela tem uma origem e que sempre precisamos beber da fonte. (Origem x Nacionalidade??? Pensemos como se a dança fosse uma pessoa, onde ela nasceu? onde ela vive? será??? rs)
    Talvez eu questione isso por uma questão de estar numa sociedade arraigada de tradicionalismo, e isso seja uma questão de costume.
    Mas foi realmente ótimo ler o seu texto e refletir tanto sobre isso, fazendo um questionamento sobre o meu próprio modo de pensar.
    Parabéns mais uma vez pela sua contribuição.

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  2. Adorei a postagem Hanna Aisha. Particularmente sempre friso que a Dança do Ventre, como a conhecemos, foi uma criação de PALCO, numa visão empresarial de Badia Massabny, que era SÍRIA e já dançava profissionalmente antes de fazer alguns filmes e montar seu Cassino no Egito. Foi uma grande "sacada" de uma mulher de visão. Ela se utilizou de elementos egípcios, claro, posto que suas bailarinas eram do Egito a princípio, mas levou a dança para PALCO, conferindo às pupilas uma boa formação, inclusive com balé clássico e jazz. Isto não tira o valor das danças populares e folclóricas, antes, ao se levar para o palco - e um nome de que não podemos nos esquecer seria REDA - a dança se fortaleceu e venceu tempos e preconceitos. Dois visionários MASSABNI e REDA. Eu me pergunto se a DV existiria hoje sem aquela grande mulher e sem este grande homem...

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  3. Excelente texto. Excelente reflexão! Arte não possui nacionalidade, pode ser executada por todo aquele que teve o seu coração tocado por determinada forma de expressão!
    Esta é mais uma problemática causada pela tentativa neurótica humana de enquadrar tudo em caixas pré definidas e organizadas. Conheçamos as raízes, até onde se pode conhecer e onde há registros fiáveis, mas não neguemos que toda arte é VIVA e mudará a cada geração!

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  4. Arrasou nesse post e assino embaixo!
    A dança não é propriedade de ninguém e o fato de eu dançar uma dança de outro país não significa retirar dele seu berço no que se refere ao gestual e movimentação. Independente de aceitarmos o fato da dança ter o Egito como berço influenciando dessa maneira o mundo todo, não dá o direito de uma egípcia agir com preconceito em relação a globalização na dança. Esse araque de egípcios e egípcias às bailarinas não egípcias só reforçam uma coisa: extrema insegurança por partes delas por verem tantas bailarinas de outros países se destacarem e elas quererem monopolizar o poder apenas com eles. Vamos mudar um pouco o foco de quem não é de lá e pensar o quanto esses discurso como esse não passa de pano quente em cima de uma realidade ( comprovada por quem foi e dança lá e relatado em publico!) que não aceita a dança do ventre como arte?? Tirando os festivais, lá o campo é restrito em relação a dança, cada vez menos existe oportunidade para elas mesmas. Eu acredito que isso seja um bom argumento pra tanta revolta por parte deles. Medo de perder a soberania. Mas soberania sobre o que?? Uma dança que não teve sequer um registro histórico, que é na verdade uma construção através do tempo de diversas influências e que teve sim forte influência a partir deles mas que ganhou muito mais notoriedade depois que se disseminou, depois que ela recebeu o brilho de outras pessoas e sem necessariamente perder sua essência.

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  5. ficam várias questões no ar:
    não precisa ser europeia para dançar balé, como não precisa ser brasileiro para jogar e manter a tradição (e bem) da capoeira, não preciso ser chinesa para praticar ensinar o Tai Chi Chuan...
    além disso, o que nós dançamos é na minha opinião (concordando com a Hanna e outras pessoas) uma dança de palco, como o balé.
    Não somos árabes, mas nos interessamos por alguns aspectos ( e não todos) da cultura árabe (que já inclui diversos países, não só o Egito), e por isso gostamos de nos "mexer" com a dança vinda de lá, e daí? isso soa mais como um "elogio" do que um "roubo", é uma exaltação de um aspecto cultural de outro país... ou não?
    mas dá para entender um pouco da revolta da moça, pois muitas mulheres se "caracterizam" demais, por assim dizer, e talvez careçam de um pouco de profundidade... além da exposição/exploração excessiva do corpo (sexual) que algumas fazem, de lá do Egito e de cá...
    o que sentimos quando vemos um "branco gringo" jogando capoeira? a mesma indignação ou desprezo? ou ficamos felizes porque nossa cultura é também valorizada por algumas pessoas de fora dela?
    ficam as questões.

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