Felizmente, graças a um esforço coletivo internacional, um ano após a
declaração da pandemia, já tínhamos vacinas sendo distribuídas globalmente -
tomei minhas duas doses em abril/maio de 2021 e o reforço em novembro de 2021 (o qual eu tomei grávida de 5 meses!).
Infelizmente, completamos dois anos nesse pesadelo. Porém, diferente de 2020,
minha relação com a dança mudou por questões de prioridade pessoal em 2021. Eu
produzi muito menos com a dança:
- Segui com meu projeto de lives mensais com
convidados no Instagram e o terminei em outubro de 2021. Entendi que ninguém
aguentava mais as lives e já estavam voltando com suas vidas
"normais"
- Dancei em um festival online apenas, onde produzi o vídeo abaixo:
Eu não sei o que você fez, provavelmente mais que 2020. Porém, reforço que,
caso você não tenha feito metade do que planejou, está tudo bem ainda.
Claro que quem depende da dança para pagar as contas, a dinâmica é outra. Mas,
se você a pratica como uma atividade paralela, ela deveria ser um suporte, um
escape da realidade. Mesmo para você, que está profissionalizando, espere um
pouquinho para você começar num cenário melhor.
Eu entendi que o cenário estava bem desfavorável (galera sem dinheiro,
desanimada, tentando sobreviver de alguma maneira) para eu trabalhar como
bailarina aqui e decidi focar em outras coisas e ficar um pouco em stand by.
Continuei entendendo que não podia manter a lógica e a coerência de produção se
a lógica e a coerência do consumo AINDA estavam alterados.
Repito que a dança não vai desaparecer de você ou da sua vida.
Respeitem o isolamento social quando positivos, usem máscara apropriadamente, se vacinem e não
façam tratamento precoce (porque não existe, até então).
Fazer/trabalhar com DV parece ter validade; pelo menos, no Brasil. A não ser que eu esteja vendo esse quadro de um ponto de vista muito estreito.
Desde que acompanho a DV no Brasil desde 2000, acho que identifiquei um padrão; depois de certa idade (40?), você começa a ser deixada de lado pelo próprio mercado, principalmente pelas próprias bailarinas-alunas.
Como toda profissão, leva-se anos e anos de estudo e experiência para se atingir um estágio em que sua opinião é solicitada, sua experiência consultada. Mas, é nesse ponto do texto em que o título entra: antiguidade é posto?
Pessoalmente, eu detesto essa frase e não a reproduzo nunca porque não é verdade. Receber esse posto (que na dança costuma ser de "mestra", "madame", etc) deveria vir acompanhado de sabedoria, lucidez, experiência, conexão com a realidade, certa humildade em reconhecer que seus pupilos podem te superar. E sabemos que não é óbvio. Infelizmente, muitas bailarinas pararam no tempo em termos de estudo e reproduzem o mesmo discurso de 20, 30 anos atrás. Ao mesmo tempo, quantas bailarinas com uma bagagem incrível (mesmo que ainda não tenham atingido a categoria de mestra) são colocadas precocemente de lado em prol de bailarinas mais jovens, bonitas e acrobáticas, claramente sem experiência e estudo suficientes para estarem lado a lado dessas bailarinas "velhas"?
Tenho dificuldade em aceitar que bailarinas tão jovens ocupem o mesmo posto de bailarinas incríveis que ainda têm muito a oferecer (óbvio que existem exceções). Número de seguidores, títulos, estéticas grandiosas (corpo, roupa, fotos, vídeos) e virtuosidade técnica são mais valorizadas que conteúdo e experiência. Não estou falando do que você acha: estou falando do que vemos que traz público ou não.
Esse fenômeno não é exclusivo da DV, claro: essas mesmas discussões acontecem dentro das danças urbanas, por exemplo, que também são danças de origem popular (sugestão: Podcast Pé na Orelha). E é exatamente isso que me intriga: a DV, uma dança de origem popular, riquíssima em cultura (musical, geográfica, social, política) não ter esses aspectos mais explorados pelos praticantes.
Não sou cientista social para dar uma avaliação precisa sobre o quadro atual da nossa sociedade imediatista e consumista de superficialidades. E sei que soo meio rabugenta; alguns, dirão com dor de cotovelo. Porém, é só um desabafo no meu blog mesmo.
Eu parei para pensar muito mais nisso quando percebi que, aqui nos EUA, as pessoas ainda consomem o que bailarinas de 50-60 anos ainda oferecem. Por que deveria ser diferente? Você não costuma confiar mais em profissionais dessa idade do que os de 20 anos ou recém formados? Por que na DV você faz o contrário?
No fim, quase toda discussão que eu tenho/trago chega à mesma pergunta: por que você faz DV? Pra quê? Por que você consome o que você consome dentro dela?
Gostaria da opinião de vocês, mesmo baseado nesse texto reducionista - porque sei que a realidade não é tão simplista como coloquei.
Não quero passar por ingrata, depois de tantos anos sendo lida por vocês, mas acho que vale a pena esclarecer uma coisa, que pode ser do desconhecimento de muitos. Começando pelo título/fim, meu blog não é referência bibliográfica! Isso não significa que blogs não podem ser referências e é sobre isso que vou explicar nesse post.
Ao longo desses anos todos, desde 2009, tenho recebido mensagens de como meu blog ajudou as pessoas, sendo na preparação dos seus TCCs ou das suas aulas. Ou mesmo ajudou a esclarecer ou introduzir temas sobre a dança que fazemos. E eu sempre fiquei muito lisonjeada e o público sempre foi um combustível para eu continuar esse trabalho (a partir do momento que esse retorno diminuiu, os posts também diminuíram).
Porém, por que ele não pode ser usado como referência bibliográfica? Porque os artigos produzidos aqui não são resultado de pesquisa acadêmica; são compilados de informações que fui juntando ao longo dos anos, com a intenção de serem compartilhadas.
É muito importante entender o contexto do surgimento e manutenção desse blog: por mais estranho que pareça, em 2009, apesar de já termos tido acesso à internet e YouTube, as informações sobre Danças Árabes ainda eram compartilhadas no boca-a-boca, ou seja, através de workshops, aulas, blogs, sites. E o problema disso é que, sem referências baseadas em pesquisa e revisão por pares, tudo acabava sendo anedotico, ou seja, "foi o que a fulana disse", "foi o que a fulana disse que viu", "foi o que a fulana ouviu falar"... e isso, foi (e ainda é) um problema, pois muita desinformação é espalhada por conta disso.
Produzir conhecimento através da pesquisa é um processo longo, trabalhoso e que demanda interação entre pares para troca de informações. É muito bom ouvirmos o que queremos ouvir, junto de um "comprovado cientificamente". Na verdade, quando se trata de assuntos das ciências humanas, nem existe muito essa ideia de "comprovado cientificamente". Porém, o resultado de pesquisa nessa área, como, por exemplo, a história da dança ou qualquer outra análise sociológica, antropológica, pedagógica, etc surge a partir de uma hipótese, demanda coleta de dados para testar essa hipótese, muita leitura e estudo para analisar os dados, busca de fontes confiáveis e conclusão a partir de toda essa vivência, sob a orientação de alguém mais experiente na área.
E meu blog não cabe nisso. Não que eu não tenha estudado, filtrado informações, buscado fontes de confiança e não tenha pensado por mim mesma. Eu sempre fiz isso. Mas eu nunca tive a orientação de alguém, não tive formação básica em determinadas disciplinas que poderiam me ajudar a pensar sobre os assuntos estudados, nunca parti de nenhum lugar. O que sempre fiz foi recolher as informações que eu coletava sobre o tema (as fontes estão no final de cada post), pensava por mim mesma, ou seja, filtrava o que eu recebia e postava. Ainda me pego revisando um post ou outro porque aquilo ali não faz mais sentido.
Mas, existem blogs que eu usaria como fonte bibliográfica por abarcarem muitas fontes primárias de informação ou por publicarem artigos resultantes de pesquisas acadêmicas:
E livros. Os que eu leio, eu faço um post comentado aqui (nem todos, exatamente, seriam fontes bibliográficas também, dependendo do assunto de interesse).
Mas se você ainda busca blogs no meu estilo, vê os que eu sigo no fim da página - alguns que eu seguia, infelizmente, fecharam. Talvez o meu blog ainda caiba como referência dependendo do tema - mas escreva seu TCC procurando fontes mais sólidas; o meu virá como fonte complementar!
Olha a loucura; no meu último post, eu digo que acabei produzindo à beça, apesar da pandemia. Ontem, publico no meu Instagram que tenho tentado "passar alguma normalidade constante diante do genocídio no Brasil e de ver meu país sendo destruído, diariamente, por dentro, desde 2016". E estou numa posição privilegiada, pois estou vacinada e com a vida voltando "ao normal" (não deveríamos, mas vou deixar as questões políticas estadunidenses de lado, nesse momento).
Como eu escrevi lá, o que me renova as energias são boas notícias eventuais, bons momentos, consumo de boa arte. Mas, tenho tropeçado na produção de conteúdo de dança, seja escrever no blog, gravar vídeos, postar textos, etc. Mas esse post é para trazer a pergunta: por que você produz conteúdos de dança? Para quem? O que você ganha com isso?
Quando eu comecei meu blog em 2009, eu criei com o intuito de juntar as informações que eu conseguia e disponibiliza-las porque o acesso a conteúdo de DV era esparso, mais difícil, sem fontes, baseado em muito achismo. Com o tempo, as coisas foram se organizando cada vez mais e hoje, vejo o quanto tudo na DV brasileira melhorou. Hoje, temos diversas profissionais qualificadas, especializadas, fontes acadêmicas ou organizadas em artigos e livros, maior clareza e crítica por parte das praticantes, maior consciência social. Apesar de ainda vermos mitos e preconceitos sendo proliferados, também vejo que existe um movimento constante, prezando por conteúdo de qualidade e desmistificação.
A produção de conteúdo é uma preocupação constante para quem quer "estar presente" na internet, só que criar conteúdo de qualidade e com uma frequência alta não é nada fácil, pois é preciso planejamento, estratégia, metodologias. Não importa se é foto, texto, vídeo, live, podcast. O ideal é que esse conteúdo esteja alinhado com seus propósitos e também com as expectativas e necessidades do seu público-alvo. Esse papo todo aí é de marketing digital, existe um número infinito de "coaches" oferecendo orientação para isso e o post não é sobre isso.
O post é para trazer a reflexão sobre a pressão que profissionais autônomos, como os profissionais de dança, sofrem para isso. Temos que postar todas as aulas particulares que damos, ensaios que fazemos, trabalhos que participamos, roupas que compramos, livros que lemos, aliados a frases de impacto, ditas por personalidades importantes, fora a lacração com as hashtags do momento. E a ideia de que só porque você não está vendo, não significa que não esteja acontecendo não cabe mais nesse mundo colorido, feliz, produtivo, imediato, de delivery de conhecimento.
Não é nova a discussão de que nós mesmos somos produtos que geram lucros bilionários para essas empresas que gerenciam redes sociais como Facebook e Google, incluindo esse blog que vocês estão visitando (Blogspot é do Google). E não estou propondo que todos nós abandonemos essas redes de contato, que oferecem muitas vantagens. Minha preocupação aparece quando nós começamos a ficar extremamente preocupados em produzir sem parar porque desse jeito, "meu-número-de-seguidoras-vai-aumentar-e-com-isso-vou-conseguir-mais-alunas".
Essa mentalidade "empreendedora" e de positividade tóxica que o sistema atual nos vende diariamente nos faz acreditar em meritocracia, no american dream de que o estagiário vira o presidente da empresa, de que é só esforçar que você vai conseguir, de que é só manter o pensamento positivo que as coisas irão acontecer, ignorando que machismo, racismo, gordofobia, desigualdade social existem e continuam firmes, obrigada.
Não compreender o conceito de orientalismo; o que significa ser árabe no mundo; a origem da dança do ventre e suas implicações; o neoliberalismo; o quanto seu país é machista, racista, gordofobico e elitista; o que significa ser profissional de danças árabes no mundo e no país que você mora vai dificultar sua compreensão do seu papel nas redes sociais e o que ele irá te trazer de retorno real, apesar de TODO SEU ESFORÇO EM AUMENTAR SEU NÚMERO DE SEGUIDORES E, COM ISSO, AUMENTAR SUA RENDA, de alguma forma.
Não basta pagar rios de dinheiro com coach que promete que vai te trazer dinheiro, curso de marketing digital ou até mesmo, coaching artístico. Ferramenta só funciona se usada da forma correta.
A maioria de nós está no meio do oceano em um barco com remos apenas e, não num transatlântico, como 0.25% da população mundial.
Dia 18 de março de 2020, eu iniciei o isolamento social porque meu trabalho mandou fazer home office. A pandemia tinha acabado de ser declarada pela OMS.
Dia 8 de abril de 2021 tomei minha segunda dose de vacina contra SARS-COV 2 da Pfizer.
Como todo mundo, achei que o pesadelo duraria pouquíssimos meses. E confesso que gostei de ter ficado em casa por dois meses, pois coloquei em dia diversos compromissos pessoais. Um deles era a dança.
Criei uma rotina incrível de exercícios físicos e aulas de dança. Enquanto algumas pessoas engordavam, eu estava emagrecendo. Mas, junho chegou e voltei a trabalhar presencialmente e minha cabeça parou de seguir uma ordem coerente, lógica. Ficou tudo bagunçado porque o combo ""pressão para recuperar o "tempo perdido" em casa + preocupação com a família e amigos no Brasil + falta de perspectiva disso acabar"" veio com tudo. Foram muitos meses para retomar as rédeas, mas acho que consegui produzir coisas, mesmo que atrapalhada:
- No Instagram, fiz uma live com aula para iniciantes e iniciei um projeto de lives mensais com convidados, em maio de 2020 (e que segue, vamos ver até quando).
- Dancei em algumas haflas e festivais online. Nesse meu primeiro vídeo produzido para ser passado online durante um evento, eu resolvi fazer algo diferente e dancei uma música pop libanesa:
- Até consegui vender dois figurinos através do Facebook!
Eu não sei o que você fez. Mas, queria te dizer que, caso você não tenha feito metade do que fiz, está tudo bem. Acho esse papo de coach de "no pain no gain" muito tóxico e humilhante. Especialmente, se você é uma chefe de família e com dependentes e encontra na dança uma maneira de estar sozinha, pensando em você.
A dança não deveria ser vista como um peso, nem pelas profissionais. Ela existe para nos fazer bem, como qualquer atividade extra ou mesmo como profissão. Se passamos a estar infelizes com ela, está na hora de dar um tempo dela ou, até, abandona-la. A pergunta que te faço é como você a enxerga na sua vida, qual o papel que ela tem. Uma vez isso esclarecido, você se cobrará menos (ou mais) e passará a ter uma relação mais saudável com ela.
Nessa confusão, eu não só deixei de emagrecer, como engordei muito mesmo, nunca estive tão acima do peso na minha vida. Perdi minha rotina de exercícios e dança e, ainda estou tentando reorganizar minha rotina. Me via no espelho e me odiava. Mesmo. Me achava feia, desinteressante e achei que minha carreira na dança não só tinha acabado porque engordei mas, também porque diminuí bastante a produção de conteúdos de dança, seja no YouTube, no Instagram, na FanPage, aqui no blog.
Decidi me perdoar porque os tempos são extraordinários (apesar desse ranço ainda existir em mim). Entendi que não posso manter a lógica e a coerência de produção se a lógica e a coerência do consumo estão alterados. Que diferença vai fazer se você postava todo dia nas redes sociais e passou a postar uma vez por semana? Para quem você faz isso? Para quem você trabalha?
Essas respostas são individuais porque as realidades são individuais. Logo, não se sinta mal se você não está fazendo o que os outros estão. E se você acha que deveria fazer o que estão fazendo, tudo bem também. Nos dois casos, só gostaria que você se preservasse porque a dança não vai desaparecer de você. Ela estará lá, linda e complexa, esperando por todas nós.
Respeitem o isolamento social, usem máscara apropriadamente, se vacinem quando puderem e não façam tratamento precoce (porque não existe, até então).
O livro da Heather Ward (2015) deveria ser leitura obrigatória para toda profissional de danças árabes; ela foca a pesquisa dela nos acontecimentos que influenciaram toda a transição das danças ghawazee até a dança do ventre que estava surgindo nos cabarés do Cairo. Ela desenvolve bastante os temas como figurinos, cabarés e entretenimento egípcio em geral. Até poucos anos atrás, eu acreditava no mito de que a DV egípcia da Era de Ouro foi uma adaptação, basicamente passiva, feita pelos egípcios para agradar os europeus que frequentavam os cabarés no Cairo. Uma coisa que me marcou bastante foi ter lido que as mudanças que ocorreram desde o final do século 19 até o início da Era de Ouro foram feitas a partir de influências externas, mas muitas mudanças internas, mobilizadas, inclusive, por motivações políticas. E o que dá legitimidade ao seu livro é que essa pesquisa foi baseada em documentos e não em mitos ou achismos. Ela é antropóloga, o que justifica parte da qualidade do trabalho dela. A pesquisa é bem referenciada e aberta a possibilidades de novas interpretações, baseadas em novos dados, que possam vir a surgir. Infelizmente, só existe a versão em inglês.
A segunda indicação não é um livro, mas a tese de doutorado da Roberta Salgueiro (2012), outra referência que deveria ser leitura obrigatória. Foi a primeira tese de doutorado sobre DV no Brasil e muito do que a Roberta discute, cruza com muitos assuntos abordados pela Heather, como orientalismo e origem da DV no Egito. Mas a novidade é a proposta de entender a DV como transnacionalizada, passando, brevemente, pela história da DV no Brasil e sobre o conceito de feminino.
Em uma entrevista para o jornal "Nexo", Paola Carosella, que é chef de cozinha, disse que toda escolha é um ato político. De quem e o que compramos são discursos mudos e que o verdadeiro valor da escolha é quando você sabe o que você tá escolhendo e quando você tem a possibilidade de escolha.
Cada vez mais se fala e se discute o reaparecimento de autocracias e da extrema direita no mundo e a fragilidade e falhas da democracia moderna. E a história já nos mostrou que uma das classes mais rapidamente afetadas em um quadro desse, é a artística porque é uma classe que costuma tratar de qualquer tema e da forma que lhe achar mais interessante - e é aí que quero criar o link com a Dança do Ventre.
Quando as bailarinas falam sobre identidade e estilo em DV, elas se referem à identidade que você quer construir e ao produto que você quer vender junto disso. Ou seja, você precisa definir que público você quer atender, que imagem você quer passar e o que você pode oferecer. A bailarina que construímos não necessariamente somos nós mesmas, aquelas do CPF. As qualidades e defeitos que temos enquanto pessoas físicas não precisam ser repassadas para a pessoa jurídica (artística).
Quando vamos para o palco ou para a sala de aula, sempre assumimos uma posição política - mesmo que você ache que não. Neutralidade é uma posição política e as pessoas tendem a achar que política diz respeito só ao que se passa no âmbito legislativo, executivo e judiciário. Nós fazemos política o tempo inteiro. Existe uma palavra em inglês - policy, a qual podemos traduzir para diretriz: diretrizes do prédio em que moramos, da empresa que trabalhamos, da faculdade que estudamos são decisões políticas também. Política diz respeito a como as sociedades humanas de organizam.
Nessa construção da definição da bailarina, uma das ideias é definir e construir uma mensagem que iremos passar. Pouca gente discute isso, mas o maior exemplo disso é a bailarina egípcia Dina, que com sua roupas ousadas, revolucionou os figurinos na Dança do Ventre como uma forma de protesto à moralidade religiosa do povo egípcio e da sua profissão como bailarina de Dança do Ventre - que não é levada a sério até hoje no Egito.
Na parte 1, eu dividi minha experiência como bailarina aqui nos EUA. Vocês já foram lá ver?
Nessa segunda parte, vou dividir as impressões que eu tenho da prática da Dança do Ventre aqui na região de Baltimore/DC, onde moro, atualmente. Logo, não sei se posso estender isso para outras regiões dos EUA.
1) É impressionante o quanto o Estilo Tribal Fusion e o ATS estão presentes na dança delas. Vi muitas apresentações só de Tribal Fusion e muitas bellydancers (as bailarinas que dançam Dança do Ventre) dão um "tempero" em suas danças com as posturas e/ou trejeitos ATS. Aliás, fusão com Dança do Ventre é bem comum. Vi fusões com cigana, tribal, japonesa, flamenco, burlesco, música ocidental...
2) Elas também fazem muita edição nas músicas, misturando-as. Por exemplo, começar com uma zaffe e terminar numa percussão ou começar com "Aziza" editada e fechar com percussão. Aliás, elas adoram percussão (e a influência da Sadie sobre a forma como elas dançam percussão é bastante forte) e músicas para Tribal Fusion (música New Age também). Elas não costumam dançar músicas que chamaríamos aqui de "tradicionais".
3) Os figurinos me soam um pouco anos 2000. Não lembro de ter visto figurino egípcio atual ou um vestido ou com strass. Isso significa que vejo muitas franjas, faixas de cabelo, braceletes, moedas, flores. Eu diria que também é influência do ATS.
4) Enquanto gastamos muito tempo nos maquiando, eu não vejo investimento delas em maquiagens elaboradas; elas fazem maquiagens beeeeeeeeem básicas, comparadas às nossas.
5) O público costuma ser muito receptivo e simpático, quando não, generoso, dando gorjeta.
6) A leitura musical é muito diferente; tenho a sensação de que elas se preocupam muito em ler a música de uma forma geral, com pouca ênfase nos instrumentos solistas e com mais atenção à melodia como um todo.
7) Elas AMAM acessórios! Véu de seda, wings, fanveil, espada, bastão, snujs, candelabro ou bandeja com velas são os mais usados.
8) Não é incomum uma bailarina profissional também realizar outras danças como indiana, ATS, Tribal, danças latinas ou persa.
9) Já disse que elas adoram fazer fusões temáticas? Então, adoram: Halloween, unicórnio, gótico, terror, sereia, burlesco. Elas não parecem se preocupar muito com o que dirão sobre a criação delas...
10) Eu diria que aqui, onde estou, a Dança do Ventre é mais democrática: vejo mais mulheres mais velhas, bem acima do peso e/ou negras dançando em eventos e haflas ou profissionalmente. Pode ter a ver com a região, apenas, eu não sei [sabemos que, no fundo, os contratantes e as pessoas querem ver bailarinas jovens, brancas e com corpo bonito, não importando sua qualidade técnica e/ou experiência].
11) Elas oferecem workshops com nomes divertidos para temas já conhecidos: "Saucy said" (said atrevido), "Badass baladi" (baladi foda), "Liquid Silver" (líquido prateado). Eu fiz dois workshops sobre Teoria musical e posso dizer que, elas arrasam! Imagino que seja por conta da escola, que oferece artes em geral, muitas delas têm base musical forte e os dois cursos foram excelentes, como nunca vi nada próximo no Brasil.
12) Sobre aulas regulares: elas vendem as aulas em combos temáticos, ou seja, você comprar 2 ou 3 meses de aula, em que você estudará uma coreografia de alguma modalidade. Não é comum ter turmas regulares, com as mesmas alunas e tal... ainda não sei como ocorre o processo de profissionalização de uma bailarina, mas eu chutaria que ela ocorre de forma totalmente autônoma e sem fiscalização (ou seja, não rola sindicato - apesar de já ter ouvido mais de uma vez que existem as bailarinas "polícia").
13) Aqui, esse lance de você tirar foto ou filmar alguém para publicar nas redes sociais, principalmente, pode dar problema se você não tiver o consentimento da pessoa. O uso da imagem sem licença é sério e aqui é o país dos processos judiciais, se processa por qualquer coisa. Logo, sugiro que, antes de filmar e colocar no Instagram, pergunte às bailarinas filmadas se pode fazer isso.
Aqui, outro vídeo meu, dançando na hafla "All Seasons", organizada pela bailarina da região Mariza Matel:
Você já dançou nos EUA? Ou outro país? Não quer dividir sua experiência conosco aqui no blog?
Espero que tenham gostado!
Vamos falar hoje de um cantor e músico libanês, filho de pais egípcio e norte-americano, chamado George Abdo (1937-2002). Acredito que eu, por ter estudado Dança do Ventre um pouco antes das BellyDance SuperStars estourarem no Brasil, pude ter mais contato com as músicas desse cara incrível. A geração anos 90 pode dizer, muito mais do que eu, como suas músicas foram importantes para sua formação.
Eu, desde aluna, sempre AMEI AMEI AMEI as músicas dele. Sempre me soaram muito mágicas, mas sempre tive dificuldade de "classificá-las". Hoje eu entendo o porquê.
Na verdade, um dos motivos dele ter sido um sucesso foi ter criado um repertório para performances bellydance, misturando sonoridades orientais com ocidentais (pop e jazz). O resultado final é uma sonoridade mediterrânea, ou seja, é uma influência de músicas turcas, gregas, armênias, sírio-libanesas e egípcias. Na maioria das músicas, ele canta em árabe, mas ele tem algumas músicas cantadas em grego. Um dos exemplos mais famosos dessa sonoridade misturada é a música grega "Misirlou" que ele gravou em maqam árabe:
Ele fez muito sucesso nos anos 70, gravou cinco álbuns e tocou muito na cidade de Boston, MA, EUA. Ele ficou conhecido como "Rei da música bellydance" e seu álbum "Flames of Araby Orchestra" apresenta uma rotina bellydance completa. Por ter vivido nos EUA, ele trouxe para a platéia norte americana, um pouco da música oriental, em que misturou violino, oboé, alaúde, qanun, derbacke, bouzoki, guitarra, piano, baixo e bateria.
Algumas pessoas acreditam que ele estabeleceu um trabalho de base para os artistas de música oriental nos EUA. Ele também acabou ajudando a "elevar" a profissão de bellydancer (até, então, marginalizada) pois, criou músicas que deixavam as bailarinas como um peça importante dentro do quadro completo do show e, não deixando-as, apenas, como meros ornamentos decorativos. A música se comunicava e se movia com a bailarina como uma parceira.
Hoje, eu diria que muita gente acharia sua música brega, mas eu não consigo achar isso, de verdade. Ela possui essa magia orientalista, que consegue manter a plateia envolvida, talvez hipnotizada, dependendo da bailarina que estiver dançando. Sua música pode ser considerada uma fusão (e não tradicional como, normalmente, se considera), mas que não está muito longe das raízes musicais, rítmicas e estruturas nativas. Por isso, minha dificuldade em classificá-la por tanto tempo.
Tive dificuldade de achar vídeos interessantes de profissionais dançando George Abdo; creio que por ele estar fora de moda há um bom tempo. Mas, ficam aqui, para apreciação, um vídeo da Cristina Antoniadis (de origem grega) e um meu:
Fontes: Geocities, informações trocadas com Cristina Antoniadis, Marcia Dib e Pedro Rebello.
"Quaisquer verdades transmitidas pela linguagem estão incorporadas na linguagem e sua verdade é um exército móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos (Nietzche). O Oriente recebeu um amplo campo de significados, associações e conotações que não se referiam necessariamente ao Oriente real, mas ao campo que circundava a palavra".Edward Said - Orientalismo
Você já participou de algum tipo de avaliação e ali, foi mencionado que sua musicalidade ou leitura musical precisava ser trabalhada? Eu já publiquei um artigo no CDV que tratou sobre o tema, mas aqui eu queria trabalhá-lo com um pouco mais de detalhe. Improviso e leitura musical são temas recorrentes no nosso meio e os dois conversam porque abrangem alguns aspectos em comum que precisam ser trabalhados separadamente.
Para mim, para que sua técnica de improviso desenvolva, você precisa estudar leitura musical antes. Tentar improvisar sem ter o conhecimento básico disso (claro que a prática está incluída nesse treinamento) e deixar apenas o seu corpo se deixar levar pela música, torna o caminho mais difícil, se você pretende melhorar seu improviso tecnicamente.
A partir de quando eu posso começar a estudar leitura musical?
Com um vocabulário mínimo de passos, já é possível começar a estudar leitura musical. “com 100 palavras em inglês, é possível comunicar-se. É apenas questão de saber utilizá-las”, já dizia o método do curso de inglês que eu fiz. Quem já viajou para fora do país sem saber muito bem a língua nativa, sabe que isso é verdade.
Quando falamos em começar a estudar leitura musical, estamos falando justamente de três coisas, como já abordei aqui no blog: estudo dos ritmos, leitura dos instrumentos e diferenciar os tipos de músicas. Vamos ver cada um deles agora:
- Aprender o mínimo sobre ritmos
Já tratei com mais detalhe sobre o estudo dos ritmos aqui no blog. É preciso aprender o mínimo mesmo, para começar. Aprender sobre os diferentes ritmos te ajuda a identificar o número de tempos da música, por exemplo. Essa informação ajuda muito a compor sua leitura musical, pois sugere movimentos que devem ser feitos. Uma coisa é se deslocar em 2 tempos e outra coisa é se deslocar em 4 tempos. É isso que vai te deixar “dentro do ritmo, pisando no dum” e, com isso, dançando de forma harmoniosa, sem parecer que está “dançando com fone de ouvido”, ou seja, em que parece que você está ouvindo uma música enquanto está tocando outra. Até leigos são capazes de perceber que há algo estranho naquela dança, pois, intuitivamente, ele não conecta o que vê com o que está ouvindo, mesmo sem ter ideia de técnicas de dança ou sobre a música em si. Nesse vídeo, a música que a Marta dança começa com fallahi (chamado por alguns de maqsoum acelerado, com 2 tempos), que vai emendar em um masmoudi, que tem 4 tempos (2:20), voltando rapidamente ao fallahi em 3:07. O clima e até os movimentos da dança "mudam" por conta da troca dos ritmos:
- Entender os diferentes tipos de música
Não basta ouvir apenas música egípcia ou libanesa, que são as músicas que estamos mais acostumadas a trabalhar. Também precisamos distingui-las das músicas gregas, turcas ou marroquinas porque elas estão presentes nas nossas playlists e, normalmente, nem sabemos. Mas percebemos que não é uma música "normal" porque elas soam diferentes e, ainda assim, as usamos sem saber. Esse conhecimento não interfere diretamente na sua leitura musical, absolutamente. Mas pode ser importante você ter a consciência de que elas vieram de culturas diferentes e, assim, talvez, isso influencie na escolha dos seus passos, expressão corporal e até contextos para dançá-las.
Além disso, qual é a modalidade? É um folclore, rotina oriental, erudita, pop, moderna? Qual é a "roupagem" da música? Mais moderna ou "analógica"? Você acha que a leitura do shaabi abaixo deveria ser a mesma a de um pop?
- Identificar os instrumentos
Não é uma delícia assistir uma bailarina realizando um taqsim de violino bem executado, daqueles que você nem se mexe de tanta admiração? Pois é, alguns discordam, mas, hoje em dia, eu acho que esse tipo de leitura não necessariamente precisa ser feito com extremo rigor para que você demonstre o quanto você é habilidosa com seu corpo. Uma boa leitura musical também pode ser feita sem precisar marcar todos os acentos dos instrumentos. Aqui no blog, fiz 5 posts diferentes, falando sobre cada um deles - procura no blog "Instrumentos mais comuns na DV para Taqsim". Abaixo, um lindo exemplo de leitura de instrumentos:
A influência e as referências que recebemos na nossa vida também irão afetar nossa maneira de ouvir e dançar; não há como dissociar nosso histórico corporal e o ambiente que vivemos da nossa expressão corporal em geral, inclusive da nossa dança (como já diria Klauss Vianna). Mas espero que, com essas orientações, eu tenha ajudado você a organizar os pensamentos (quem sabe até ajudar com um planejamento) na sua busca eterna por aprimoramento e satisfação com a dança e com você mesma! Depois, dá uma olhada na coluna do blog Desconstruindo Leituras para ver várias danças que fugiram da leitura "tradicional e previsível" que temos da DV. Aproveita e repensa também a escolha das suas músicas, lendo esses dois artigos:
Ao sermos apresentados ao mundo paralelo da Dança do Ventre e do Folclore Árabe (vai me dizer que não é paralelo à realidade?), corremos o enorme risco de nos deslumbrarmos diante de tanta música, brilho, maquiagem, figurino e belas bailarinas e belas danças. Eu já fui aluna e sei muito bem o que estou dizendo! Queria poder comprar milhões de brincos, maquiagens, CDs, DVDs, figurinos, acessórios... não aconteceu o mesmo com vocês?
Se você está sendo orientado por uma profissional séria e honesta e se você permitir que ela emita opinião, ela te orientará sobre o que você precisa investir no momento: aulas, DVDs, figurinos... Caso ela te repreenda carinhosamente, dizendo que você não precisa comprar tal coisa mas outra (ou nada!), não fique triste: tudo tem seu tempo! E sim, quem vos fala é uma pessoa muito ansiosa, eu te entendo! Não adianta querer fazer o workshop com a Kahina se você não consegue se sustentar por 15 segundos em uma meia ponta ou fazer o workshop com a Nur se você nem acertou seu básico egípcio! Muito menos gastar R$ 1.000,00 em um figurino, se você nem tem perspectiva de dançar.
Não, não quero arruinar o mercado da DV. Pelo contrário. Mas, acho que vale a pena tentar redirecionar a clientela e ajudar as meninas que estão meio perdidas a não perderem dinheiro à toa. Porque tem cliente e vendedor para tudo, eles só precisam se encontrar!
Particularmente, para meninas iniciantes, eu acredito que existam temas na DV que precisam ser ensinados assim que elas adquirirem aquele mínimo de dissociação corporal para que se comece um trabalho mais direcionado. E nunca, nunca mesmo subestime-as. Eu nunca fiz isso, acredite nelas! Por exemplo, folclore, meia ponta e ritmos não são temas de nível intermediário para cima. Acho, inclusive, que são trabalho de base, assim como os oitos e shimmie. Vou explicar.
Ninguém precisa colocar as meninas que estão começando agora para deslocarem como bailarinas clássicas, dançarem Zar ou discutir quais os ritmos presentes na Dabke. Não! Mas não há motivo para não ensinar sustentação aliado a trabalho de core, a apresentar a Dança Balady ou "a pisar no dum" durante o maqsoum (que costuma ser o primeiro ritmo dado e que você nem precisa fazê-las gravar esse nome inicialmente).
Aprender a usar o abdômen ajuda a dar equilíbrio, entender a Dança Balady é entender uma parte da origem da Dança do Ventre (e a dançá-la!) e "pisar no dum" ajuda a ganhar ritmo e coordenação motora. O que vem depois disso, é apenas uma questão de aprofundamento.
Eu acredito que certas etapas deveriam ser dadas o mais rápido possível (quase obrigatoriamente) para que a base delas se estabeleça e se desenvolva com qualidade. Porque o resto que virá depois será apenas a cereja do bolo!
Quanto tempo que não escrevo um artigo sobre livros de dança! O motivo é simples; eu estava sem livros de dança para ler!
Bom, o primeiro que li foi o livro "Círculo Mulher" da Shalimar Mattar (SP), que comprei pessoalmente com ela em um evento no RJ e que ela autografou. Ele me pareceu um livro introdutório à Dança do Ventre pois, através de uma linguagem bem leve, fala sobre aspectos diversos que a Dança possui e pode proporcionar às suas praticantes, passando por um pouco de história até espiritualidade. No fim do livro, existem diversos relatos positivos de pessoas envolvidas com arte, em especial, com a Dança do Ventre. Eu acho que esse livro é um instrumento bastante interessante, pois pode ser lido tranquilamente por não-praticantes da Dança do Ventre e, com isso, talvez, atrair possíveis novos interessados.
O segundo livro é "Música Árabe" da Marcia Dib (SP). Ao contrário do livro da Shalimar, esse é extremamente técnico e denso e não é sobre dança em si. É um livro para interessados em música árabe, mas as praticantes de Dança do Ventre também podem lê-lo e aproveitá-lo de alguma maneira. A temática me interessava bastante, mas teve trechos que eu simplesmente não entendi porque não tenho nenhuma formação nem experiência com música de nenhuma cultura (só sei tocar um pouco de snujs!). Ele é um grande repositório de informações que você pode consultar sempre que tiver uma dúvida pois é extremamente organizado e cheio de referências (aspecto que toda pessoa que fez pós-graduação carrega em si). Porém, apesar de ser de difícil entendimento, eu não deixo de recomendá-lo, pois contém informações preciosas que me ajudou a ligar os pontos com relação ao tema e à própria dança.
Após assistir a essa palestra (grande, eu sei, vê aos poucos) do historiador Leandro Karnal, me inspirei para escrever esse post sobre referências:
Logo no início da palestra, ele diz que o estudante de História deve ler e saber determinadas obras clássicas, gostando ou não das suas ideias porque elas foram revolucionárias e mudaram o rumo da história.
O raciocínio se aplica exatamente à nossa profissão de bailarina de Dança do Ventre. Não importa se você só gosta de dançar derbacke e com espada, wings e rotina, baladi e pop. Se você quer ser uma boa professora e bailarina, você deve estudar, pelo menos, uma vez, todos os temas que circundam a Dança do Ventre, INCLUSIVE, os folclores árabes.
Assim, você ganha um olhar maior sobre sua profissão e te permite ESCOLHER que caminhos seguir com mais consciência, segurança e clareza.
Hoje, eu adoro dançar Fallahi e Mambouty porque me permiti estudar e EXPERIMENTAR NO MEU CORPO esses temas, que, a princípio, eu não estudaria. E o contrário também acontece! Você pode querer estudar determinada coisa e sair DETESTANDO dançá-la.
Outro ponto de vista que podemos tirar da palestra dele é sobre a história da sua profissão. De onde veio, quem foram as pioneiras, como se dão as modas de roupa, qual é a estrutura da música, como a dança evoluiu?
Por fim, quais são suas referências de professoras, bailarinas e músicos? Quem te inspira artisticamente e quem é sua referência técnica? Qual seu objetivo como professora ou bailarina, amadora ou profissional? A gente não consegue ter isso claro se não temos senso crítico embasado em muito estudo, observação e disciplina, incluindo aprender a ouvir a pessoas de confiança.
Enfim. É uma dança que nasceu em um contexto de entretenimento no Oriente Médio e hoje, continua movimentando muito dinheiro, sustentando muitas famílias mundo afora.
Poderíamos falar horas e horas sobre isso. Mas, antes, sugiro que você veja a palestra e, depois, procure uma boa profissional para te orientar, não fazendo você perder seu tempo (e dinheiro), que são preciosos!
Costumo escutar de muitas bailarinas profissionais as
seguintes frases: “Caramba, eu dançava 5 minutos de said tranquilamente, agora
danço 2 minutos e morro!” ou “Girar sem ficar tonta ou sem me desequilibrar nunca
foi tão difícil” ou “Quando acabo de dançar sinto dor nas costas, joelho...” ou "Não
tenho mas folego para dançar em restaurante”.
Se a dança do ventre já é uma atividade física, por que é
importante fazer mais uma atividade?
Se formos pensar pelo lado de que precisamos fazer uma
atividade física por conta da nossa saúde, fazer aula de dança duas vezes na
semana seria suficiente para manutenção e qualidade de vida, certo?!
Minha resposta é não!
O nosso maior público de alunos são mulheres, que, ao longo dos
anos vão perdendo cálcio, massa óssea, massa muscular, assim como, vamos
perdendo, gradualmente, alongamento. Nosso metabolismo também desacelera, facilitando o
aumento de peso. Será que só a dança do ventre ajudaria na perda de peso, na
manutenção ou no ganho de massa muscular? E o alongamento? E o cálcio e
colágeno que perdemos? A dança do ventre consegue repor o que estamos perdendo?
Pergunto a vocês, uma atividade física paralela à dança não
ajudaria?
Vou começar a falar da academia que eu sei que a maioria não
suportaaaaa! Sinto informar que ela faz bem e seu corpo agradece (rs)! Se
fortalecermos nossas pernas (todos os músculos do MMII), estabilizamos os
joelhos e isso nos ajudaria no equilíbrio, nos agachamentos que fazemos nos
folclores árabes, sem contar (agora é a fisioterapeuta falando - rs) que, fortalecendo
as pernas, diminui o atrito articular, ou seja, diminui o desgaste articular que
acontece normalmente ao longo da vida. Se a dor no joelho era algo frequente
na sua vida, tenha certeza que a dor vai diminuir ou acabar. O treinamento de
força máxima na musculação pode melhorar a densidade mineral óssea e desempenho
neuromuscular, além de prevenir osteoporose.
Pilates... Ah o pilates! Quem faz se apaixona (sou suspeita pra
falar). No pilates, trabalhamos alongamento e força e possui os mesmos benefícios
da academia, porém não hipertrofia e essa é a grande diferença entre pilates e
academia. Se seu objetivo é ganhar volume, ficar com aquela coxa bem grossinha
não é o pilates que você deve fazer. Porém, se seu objetivo é ficar com aquela
perna fortinha e definida, vem pro pilates que você vai se dar bem!
Só estou falando de perna né?! Quem não suporta ver o braço
mexendo naquele momento master do solo de percussão, levanta a mão! Então, bora
fortalecer os braços também, minha gente!
“Ah, mas eu não tenho força no braço,
não consigo levantar 3 kg no halter”. Querida, força se ganha praticando, você
não teve que treinar seu shimmie pra consegui soltá-lo? Com o seu braço, vai
ser a mesma coisa, tem que treinar.
E o alongamento, Adrielli? Já se perguntaram o por quê de não
conseguirem fazer aquele redondo grandão, descendo o tronco, quase encostando a
cabeça no chão? Você pode estar com os seus músculos posteriores da perna
encurtados e um bom alongamento ajudaria e muito nas suas performances. E o
cambrê? Aaaaah, o cambrê! Pra se executar um bom cambrê, é importantíssimo
fortalecer os músculos paravertebrais, porque se não estiverem fortalecidos, além da
dificuldade de executar o cambrê, tenha certeza que você vai sentir dor nas
costas.
Acreditem, fazer uma atividade física em paralelo à dança do
ventre só irá trazer benefício a você, além de melhorar ainda mais sua
qualidade de vida. A dança do ventre é uma dança incrível, pois nela trabalhamos
nossa frequência cardíaca por ser uma dança aeróbica e fortalecemos muito nosso
assoalho pélvico, porém ela não é uma atividade “completa”.
Então essa é minha
dica para vocês meninas: pratiquem outro tipo de atividade física paralela à dança do ventre e torne a sua dança ainda mais linda!
Adrielli Brites
adriellibrites@gmail.com
Comecei minha vida na dança aos
9 anos de idade. Aos 16 anos, me sindicalizei e comecei a dar aulas. Tenho
formação de jazz, ballet clássico e dança do ventre. Minha paixão pela dança fez com que eu sempre tivesse vontade de aprender mais e,
em 2012, comecei minha graduação em dança na Univercidade da Cidade. Só a
graduação em dança não foi o suficiente e descobri o quanto sou apaixonada pelo
corpo humano e suas inúmeras formas de se movimentar. Hoje estou cursando
fisioterapia na Universidade Unisuam.
Atualmente, dou aula de pilates, Neo pilates, Bellyflex e Dança do Ventre.
Olá, pessoas estudiosas de Dança do Ventre e Folclore Árabe desse Brasil e do mundo!
Eu já escrevi um post semelhante sobre aulas à distância. Sim, eu ainda acho que vale a pena estudar através de vídeos e DVDs. Mais recentemente, muitas profissionais estão oferecendo aulas práticas online no YouTube, principalmente, direcionadas para iniciantes. Ou seja, ter aulas à distância (DVDs ou Youtube) não envolvem um profissional de forma presencial. Esses recursos áudio-visuais são ótimos para introdução a certos temas, assim como para conhecer o trabalho de um profissional; mas sim, eles têm limite. A orientação do trabalho do corpo do estudante, em algum momento, precisa de alguém para corrigir de forma presencial.
Outra questão de ter aulas à distância é como você vai encaixar e aplicar isso na sua rotina. Lembre-se que, mesmo você tendo aulas regulares presenciais com alguém, sem você ensaiar ou estudar, você continua sem poder desenvolver muito.
Não sou a primeira a oferecer aulas à distância. Como eu já disse, já existem muitas profissionais que disponibilizam aulas práticas no YouTube para serem compradas, outras que dão aulas prontas online ou que dão avaliações a partir de vídeos.
Eu mesma faço aulas à distância e já recebi avaliação de vídeos meus. E sim, funciona! Por isso, resolvi também abrir esse canal para atender às pessoas que me escrevem, dizendo que querem ter aula comigo, mas que não moram na mesma cidade que eu.Se você é uma dessas pessoas, vem comigo e tire suas dúvidas!
É um curso à distância?
NÃO, NÃO é curso/workshop pronto à distância.
São AULAS PARTICULARES, DIRECIONADAS e PLANEJADAS para os interessados em ir além das aulas práticas. Ou seja, são EXCLUSIVAS. Os temas podem perpassar aulas teóricas diversas (como folclores, músicas e ritmos, por exemplo), momentos para tirar dúvidas de teoria/planejamento de aula/montagem de coreografia e avaliação de dança/vídeo/coreografias/aulas.
Qual é o diferencial dessas aulas?
Exatamente por não serem cursos prontos. Você precisa me trazer quais são suas maiores dúvidas e/ou interesses em qualquer tema. Daí, vou bolar uma aula em cima disso para que marquemos nosso encontro online. Ou seja, não existe certificação. Essas aulas são para você que:
- Quer aprimorar sua técnica
- Quer suas coreografias/aulas analisadas
- Quer saber mais sobre determinado assunto que você não consegue entender muito bem e não sabe onde procurar ajuda
- Quer saber sobre determinado assunto que você não sabe NADA
- O que vier!
Nem sempre todas as informações sua professora ou a internet irão prover. É claro que eu também não domino tudo que diz respeito à nossa dança! Inclusive, se eu não me sentir confortável em te ajudar com determinado tema, vou te encaminhar para alguma profissional da minha confiança!
Como as aulas serão ministradas?
As aulas serão, a princípio, por Skype e sempre marcadas com antecedência. Mas se você não tem como instalar o Skype, podemos conversar sobre o melhor canal para você (Aqui, um link para você baixá-lo gratuitamente.). Mas se você tem Gmail, o Hangout (já faz parte do Gmail) também pode funcionar bem, assim como WhatsApp. Mas, se você tem outro veículo que permita videochamada gratuita boa, me diga. Se sua cidade tem problema de conexão, converse comigo e vamos arranjar uma solução!
Sou iniciante, posso fazer?
Sim, esse canal serve para qualquer nível de dança, inclusive para não-praticantes.
Quanto custa?
Envie um email que te dou todos os detalhes!
Tenho outras dúvidas, como resolvo?
Quaisquer outras dúvidas, não hesite em perguntar! Me escreve!
hannaaisha00@gmail.com
Além disso, visite meu canal no Youtube e conheça meu trabalho como bailarina! Espero te ver conectada comigo em breve!
Iremos tratar aqui de um post, mais ou menos, polêmico: DV na mídia.
Qual bailarina profissional de DV não quer uma chance, que seja de segundos, de aparecer na telinha, em uma novela ou programa famoso? Uma legião de bailarinas tiveram a oportunidade de dançar na novela "O Clone", da Rede Globo, no ano de 2001. Aliás, é INEGÁVEL que a DV tem o nível e o mercado que tem hoje por conta dessa novela. Eu era aluna há um ano e fiquei impressionada com o furor que a novela causou na profissão, de forma irreversível.
Depois disso, outras inúmeras aparições de bailarinas profissionais foram realizadas, em diversos canais diferentes de TV, com ou sem entrevista (aqui nesse link do Central da DV, tem uma série de programas em que a DV foi destaque em programas de TV no Brasil. Vale dar uma olhada!). Eu mesma, tive a oportunidade de aparecer em dois programas: o primeiro em 2008, no "Fantástico" da Rede Globo, onde falamos sobre barriga em DV (!):
A outra aparição foi em 2012, na Rede Record, com a nadadora Daynara de Paula, classificada para as Olimpíadas de Londres e que já tinha feito DV:
Há alguns anos atrás, rolou uma polêmica sobre a aparição de bailarinas de DV em uma despedida de solteiro na novela "Avenida Brasil" da Rede Globo e foi fofoca no Facebook por alguns dias, gerando posts em blogs:
Eu tenho que concordar com esse trecho que a Amar El Binnaz escreveu no post dela:
"O fato é que o estereótipo vende. O jogador de futebol ingênuo e burro, a personal trainer que sobe a calcinha até o cérebro antes de dar aulas, a mulher que pratica dança do ventre pra "pegar homem", a enfermeira particular que mata o patrão pra ficar com o dinheiro, o policial corrupto, o professor pegador, enfim... o estoque de atrocidades que a TV pode praticar com as mais diversas profissões é infinito"
Infelizmente, todas nós já nos submetemos em situações ruins, justamente por conta desse estereótipo. A recém-extinta "Sala de Dança" fez um podcast sobre isso chamado "Micos na Dança".
Então, onde ficamos nessa história? Apesar de, ainda, os contratantes/produtores insistirem em nos colocar em papéis um pouco fora da realidade, hoje em dia, ainda existe uma parcela deles que procura olhar nosso trabalho com valor. O ideal é, tentarmos saber, por antecipação, qual será a situação exata de trabalho, para decidir se você aceitará participar ou não.
Em 2012, fui contactada pela Rede Globo, para coordenar a Dança do Ventre na novela "Salve Jorge" por conta do meu post "Dança do Ventre Turca", mas a carioca Clara Sussekind, que dança na Turquia há muitos anos, acabou coordenando-a com maestria.
Recentemente, duas aparições na TV foram interessantes: a coordenação da cultura árabe da minissérie "Dois Irmãos" da Rede Globo por Cristina Antoniadis (SP) e Tufic Nabak (MG), com ajuda da Elaine Rollemberg (RJ) e a participação, com prêmio, das bailarinas cariocas Zahra Li e Priscila Samah no programa "Legendários" da Rede Record:
Parabéns a todas nós, profissionais da DV no Brasil, que ganhamos com a popularização dessa dança que tanto amamos! Vamos ajudar a construir uma imagem dela cada vez melhor!
Vocês já pensaram nisso? Eu já, mas, infelizmente, os registros são muito raros e a maioria dos relatos são orientalistas, ou seja, pouco confiáveis. Além disso, é muito difícil definir quando a DV contemporânea começou de fato (talvez dentro dos cabarés cairotas?). Essa dança sofreu muitas transformações entre as Ghawazee e a Golden Era, juntamente com a organização das Feiras Mundiais e a importância das Ouled Nail.
Talvez, nunca saberemos quem foi a primeira bailarina de Dança do Ventre, mas sabemos sim, quem foram bailarinas muito famosas no século 19. Importante lembrar que "La danse du ventre" foi um nome cunhado pelos franceses após sua ocupação no Egito e que os americanos traduziram para "bellydance", ganhando o mundo.
Shafiqah El Copta nasceu em 1851, no subúrbio de Shobra, no Cairo. Sua família era respeitável, conservadora e modesta e ficou escandalizada quando ela começou a pensar em dançar. Aos 19 anos de idade, foi descoberta por Shooq e fugiu para aprender a dançar, enquanto sua família pensava que ela estava na igreja. Depois que se casou, ela viveu sob circunstâncias pobres e tentando melhorar, dançando nos clubes. Com a morte de Shooq, Shafiqa tornou-se a maior bailarina do Egito.
Kuchuk Hanem (1850-1870) já foi mencionada em dois relatos não relacionados de dois orientalistas, Gustave Flambert e George Curtis.
Extremamente importante mencionar que as bailarinas argelinas Ouled Nail foram as principais bailarinas que trabalharam nas Feiras Mundiais européias. Elas possuem uma dança muito diferente da que estamos acostumadas, apesar de reconhecermos nelas alguns movimentos. Elas foram grandes inspirações para a imagem que os norte-americanos criaram em cima da bailarina árabe:
Fatima Djemille ou Little Lady (1890-1921) dançou na famosa Feira Mundial de Chicago em 1893. Dizem que ela é a bailarina de dois filmes do século 19:
Na verdade, existiram diversas "Little Egypts" nos EUA, não sendo, inclusive, necessariamente, árabes. Ashea Wabe foi mais uma dessas bailarinas que viajaram no mundo através das Feiras Mundiais, assim como a Maria Chiquita: