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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Livros sobre dança - parte 7

Olá, bellynerds!

Resultado de imagem para livro folclore arabe melinda
Infelizmente, temos poucos livros sobre Dança do Ventre/Folclore Árabe em português. Um dos mais recentes lançamentos foi o "Livro Folclore Árabe - Cultura, Arte e Dança - Volume 1" das cariocas Luciana Midlej e Melinda James. Além disso, contém alguns relatos pessoais das autoras (que viajam frequentemente para lá, em busca de informação in loco). O que mais me chamou a atenção foram os desenhos dos figurinos, feitos por Adriana Almeida. Eles foram bastante ilustrativos e inspiradores, também baseados em suas pesquisas locais, já que também viaja frequentemente com as autoras. Se você não sabe nada ou quase nada sobre folclore árabe, sugiro esse livro como ótimo material introdutório - focado no Egito e em regiões próximas. Pode funcionar como uma fonte de consulta, caso tenha esquecido de alguma informação. Mas, se você quer se aprofundar em algum deles, é preciso buscar um pouco mais de informação para complementar, principalmente, em outras fontes/professores confiáveis. Também sugiro a busca de vídeos para ajudar a entender o que elas explicam no livro.

Resultado de imagem para Stories of a Traveling BellydancerComprei o livro "Stories of a Traveling Bellydancer", seguindo a dica da Laura, mas confesso que curti menos que ela. Laura descreveu bem o livro: é uma adaptação dos emails que ela escreveu para os amigos sobre as viagens que a autora Zaina Brown, uma bailarina finlandesa, fez pelo Oriente Médio e África. Talvez porque eu não curta tanto narrativas de blog pessoal ou por causa de alguns comentários que ela, como europeia/moradora dos EUA, fez sobre a vida ou as pessoas. Ela se surpreendia com algumas questões básicas sobre países em desenvolvimento, como se vivesse em uma bolha. Bom, ela vivia em uma bolha (hoje, ela mora na Tailândia). Então, eu me irritava, de vez em quando. Ok, eu preciso ter um pouco de solidariedade para entender que ela vivia em uma bolha, mas ela não se deixava "vencer" por conta disso e, realmente, encarou aventuras que eu não encararia. Ela narrou a vida de cidades e situações que eu nunca visitarei/passarei. Eu daria nota 6 (Laura deu 8), mas porque seja uma questão de gosto mesmo. O preço na Amazon é realmente bom, então, se sua curiosidade é maior para esse tipo de leitura, vá em frente!

Boa leitura!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Raks al seniyya

Fazer e servir chá de menta são parte da hospitalidade marroquina. A Dança da Bandeja (Raks Al Seniyya) é tradicional, em vez de folclórica. Não se baseia em uma cerimônia ou ritual histórico, nem é uma conseqüência natural do dia-a-dia do povo. Foi criado por um animador para acrescentar emoção à performance. À medida que a popularidade foi aumentando, tornou-se uma dança tradicional.

Conhecer mais sobre a história por trás da Dança da Bandeja é importante, assim como a compreensão da diferença entre o folclore e a tradição, que é uma distinção importante a fazer quando se pensa em Raqs al-Seniyya.

De acordo com Scarlet Lux - a dança folclórica é algo que representa o tecido social da cultura de que provém, seja uma representação da religião (embora as danças rituais sejam consideradas religiosas, em vez de folclore), casamento, moralidade, comunidade ou sobrevivência. Os encontros marroquinos de Ahwach para a comunidade, o namoro e, eventualmente, o noivado, são um excelente exemplo disso. A tradição, por outro lado, é simplesmente associada ou mesmo esperada em certas ocasiões ou em certas danças, mas essa tradição pode não ter o mesmo significado, história ou peso cultural das danças folclóricas.

Outras fontes dizem que sua origem se deu origem nos cafés no Marrocos no século 19, onde os garçons além de servirem, dançavam e faziam estripulias com a bandeja na cabeça. A dança é executada por homens e mulheres, mas é mais comum por homens. 

Os marroquinos usam velas, copos de chá e um bule de prata no centro. O piso está envolvido - praticamente todos os movimentos que você pode fazer com a bandeja são no chão. A dança começa, com o dançarino demonstrando firmeza, equilíbrio e habilidade usando movimentos de quadril, torso e braços. A dança pode ser lenta ou rápida.

A chave para equilibrar uma bandeja é manter a cabeça imóvel e nivelada.

Se você viajar para Marrocos e tiver a sorte de encontrar um restaurante ou hotel com shows de dança, ou participar de um encontro onde haja performance, você tem uma ótima possibilidade de ver Raqs Al Seniyya.

Dicas práticas para a bandeja de velas:

- Pratique o equilíbrio.

- Pratique na frente de um espelho para que você possa ver a bandeja na sua cabeça, enquanto seu corpo memoriza o sentimento. Mais tarde, é importante praticar longe de um espelho!

- Certifique-se de que você pode fazer cada movimento pelo menos 10 vezes no espelho e sem deixar cair ou inclinar a bandeja antes de tentar em frente ao público.

- Pratique até sentir-se realmente confortável, não temendo que a bandeja caia. 

É melhor estar preparado e coreografar, ao invés de improvisar, uma vez que a adrenalina pode fazer com que você arrisque e experimente movimentos que você não esteja preparado para fazer.






Fontes: 
Moroccan Tea Tray Dance: Raqs Al Seniyya
Tray Dancing
Candle Tray Dance Tips
Bandeja de chá / Raks al Seniyya
Raqs al seniyya – tray dance

Iniciou seus estudos com Dança do Ventre em 2004. Começou a dançar profissionalmente no ano de 2011 no restaurante Kib's Cozinha Árabe em Joiville e Bagdad Café em Curitiba. Atualmente, faz parte da equipe artística Oriente Árabe. Obteve o selo da Khan el Khalili em 2014 e faz parte do quadro de Novos Talentos. Em 2016, obteve seu SATED-PR (DRT 0030950-PR). Ministra workshops e shows em várias cidades do Brasil.

dayannaoeiras@gmail.com

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Espaço da pupila (3) - por Ingrid Lemos

Peço licença a todas as mulheres Ghawazee, a estas ciganas egípcias, que ao decorrer dos últimos dois séculos, tiveram sua vivência e danças marginalizadas e subjugadas. E que mesmo assim, a sua arte e a dança resistiram através do tempo e se enraizou no que hoje conhecemos como dança do ventre. 

A mulher Ghawazee: ela nunca falou de si mesma, nunca representou suas emoções, presença ou história. É importante considerar que toda a informação que temos sobre a cultura árabe e egípcia, majoritariamente advém do olhar do homem ocidental. São relações históricas de dominação sobre a história de todo o Oriente que refletem até os dias de hoje. 

Por ter um enorme fascínio sobre a história das Ghawazee, fiz desta inquietação o meu trabalho final na faculdade dentro da disciplina e núcleo de Arte e Alteridade. Trago aqui bem resumidamente o que pesquisei. No final da leitura deixarei meu email para quem quiser me contatar e ler este meu trabalho.

Considerando que esta pesquisa, para mim, será algo sempre em construção. E isto só pôde se iniciar graças e através do contato e da troca somente teórica, que tenho com diversas bailarinas brasileiras, mas propriamente do Rio de Janeiro (citadas abaixo), sobre a dança Ghawazzee e sua cultura. E também através de diversos sites e blogs, alguns destas mesmas bailarinas (como o próprio blog da Hanna Aisha ♥). É sobre valorizar as trocas de saberes. 

Meus sinceros agradecimentos às bailarinas: Ana Lucia Mouta, Dária Lorena, Didi Aurora, Hanna Aisha, Nadja El Balady e Thereza de Oliveira.

ESTUDO GHAWAZEE

- Dados sociais e históricos

O povo cigano e suas manifestações culturais se espalharam e refletiram pela Europa, norte da África e pelo Oriente Médio durante séculos através da migração, tendo se iniciado entre os anos de 500 e 1000 depois de Cristo. Os ciganos, conhecidos como povo Roma, provêm da região de Gurajati, estado do norte da Índia. 

Mapa da migração cigana

Denota-se que, os ciganos que desceram pelo Oriente Médio transitaram por muitos séculos a partir, até atingir o Norte da África e por ali ainda se dividiram por diferentes regiões, como Egito, Argélia, Tunísia e Marrocos. Estes que imigraram para o Egito se estabeleceram em algumas regiões do território egípcio, mais propriamente na região norte do Egito.

Considerando que cada família cigana possuía seus costumes e também sua forma de dançar, e justamente levavam como tradição as vivências dentro da música e dança, eis que surgem as Ghawazee ou Ghawazy, que é um plural de “Ghazya” que significa bailarina. A dança Ghawazee é reconhecida como o estilo originário da dança do ventre. O termo Ghawazze referia-se antes especificamente a este povo nômade, mas passou a designar as bailarinas de rua das famílias cigano-egípcias. 

Durante a expedição africana de Napoleão em 1798, embora não se encontre registros oficiais sobre esta informação, conta-se que muitos soldados se dirigiam àquelas manifestações de dança com o termo “Danse Du Ventre”, e foi com este termo que as danças orientais se popularizaram na Europa e até os dias de hoje. Tais manifestações eram realizadas em praças públicas e não raro, as dançarinas Ghawazee se prostituíam também. 

Em contrapartida às Ghawazee, surgem as Awalim (ou já tinham surgido, e só se tornaram populares nesta mesma época. Não encontrei informação oficial datando essa questão), que se diferenciavam por serem cultas, contidas, por cantarem e recitarem poesia a fim de entreter a elite. 

No início do século XX, as Ghawazee da região Delta do Nilo, ao norte do Cairo, se misturaram às Awalin, pois dizer que era Ghawazee era inadequado. Muitos movimentos da dança baladi, vieram desta mistura Awalin e Ghawazzee do Delta do Nilo. 

No entanto, as Ghawazee, por serem consideradas indecentes e impuras, em 1834 proíbem suas performances no Cairo, por pressões religiosas. Então, foram deportadas, junto com famílias, para o sul do Egito. 

A maioria que imigrou para o sul, se estabeleceu na região Said, assim como o povo Nawari. Como expoentes desse povo, nos anos 60 se tornaram muito conhecidas as filhas de Youssef Mazin, por suas apresentações de música e dança típicas Ghawazee da região Said. Nos dias de hoje, são as mais famosas e com quem as bailarinas estrangeiras conseguem maior contato. 

- Irmãs Mazin e estilo Sambouti

Entende-se Ghawazee atualmente, como termo genérico voltado para bailarinas egípcias que dançavam nas praças públicas. De acordo com a bailarina Nadja El Balady, em um DVD da bailarina Aisha Ali. ela comenta que existiam 6 tipos diferentes de Ghawazee em regiões diferentes do Eito. Aos poucos, estes clãs foram se extinguindo e abandonando seus costumes. Atualmente apontam-se dois estilos que foram foi trazidos para o Ocidente, onde podemos ter um estudo teórico mais aprofundado: estilo Mazin e estilo Sombouti. 

Na dança Ghawazee não tem refinamento técnico. Entretanto, pensando a dança para o palco, sem perder sua essência, a principal característica do estilo é a improvisação. Podem ser improvisações solo, em dupla, em roda e em grupos. A dança é marcada por uma expressão alegre e festiva. 

Irmãs Mazin

- Figurino

No figurino é usado uma galabia de qualquer cor, com pastilhas ou lantejoulas bordadas, de assuit (principalmente pelas Ghawazee do estilo Sombouti), ou moedas, e lenços bordados cobrindo os cabelos. 

Detalhe de tecido Assuit

- Ritmos 

Os ritmos mais comuns são os ritmos Said, Laff, Maqsoum e Fallahi. 

- Movimentos da dança 

O estilo Mazin, que veio das irmãs Mazin, indentifica-se com movimentos bem marcados pelos cadenciados, como exemplo, os twists/torsos de quadril e muitos shimmies/tremidos de quadril e de peito, todos bem largos. Já os movimentos sinuosos são pouco usados, utilizam redondos grandes e oitos de quadril. Rababah, Mizmar, Tabla e Sagat, não podem faltar nenhum destes instrumentos. Por terem ligação com a dança e cultura Said, do sul do Egito, e podem incorporar alguns movimentos do Tahtib (dança com bastão). É muito comum usarem como acessórios bengalas ou bastão, girando-os, equilibrando na cabeça etc. 

Kharriya Mazin (foto) é a bailarina mais conhecida deste estilo, por ser uma das irmãs Mazin e por ainda estar viva. 

Já o estilo Sambouti, que provém da região Delta do Nilo, no norte do Egito, sabe-se que é muito difícil conseguir registros musicais autênticos, bem como conseguir assistir a esta dança, pois as Ghawazee desta região não existem mais. O que existem são professores e bailarinos, que não são de origem Ghawazee, onde ensinam e dizem como souberam que eram. Não existe uma fonte genuína. O estilo Sambouti é totalmente construído através da oralidade. Sabe que ao contrário do estilo Mazin, no Sambouti, percebe movimentos de mais mais impacto. Existe uma forte influência beduína, muito provavelmente pela proximidade geográfica. 

- O aprendizado da dança 

O ensino é bem restrito. Poucas professoram dominam de fato e um número ainda menor transmite em aula regular. Geralmente, a melhor maneira para quem deseja aprender a dança Ghawazee é em cursos voltados para a dança folclore. Muitas professoram optam esse método, pois pela “simplicidade” do requinte técnico da dança, no qual os movimentos já são basicamente incorporados na dança do ventre clássica e no baladi. E também pela falta de grande procura, já que é uma dança muito étnica e aqui no Brasil o estilo de dança do ventre clássica ainda é mais popular. 

- Referências

Blog Hanna Aisha: Dança Ghawazee. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017

Blog Me Khelav: Ghawazee. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017 

Blog Nadja El Balady – Opinião Alternativa: Apostila de Folclore Árabe. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017 

Dança do Ventre - Sua História. Disponível em: 
http://www.mundodadanca.art.br/2010/03/danca-do-ventre-sua- historia.html?m=1 
Acessado em: 10/07/2017 

GATLIF, Tony. LatchoDrom. (documentário - 1993). Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017

Povo cigano: o direito em suas mãos. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017. 

SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. tradução Tomás Rosa Bueno. São Paulo. Companhia das Letras, 1990. 

WEB. Khaled Emam: Ghawazee e sua origem. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017

Ingrid Lemos, 21 anos, carioca e estudante de Artes Visuais. Começou a se aventurar dentro da dança do ventre em 2014, e continua a estudar até hoje. Vem participando de mostras, concursos e eventos como integrante da Cia. Thereza de Oliveira, no Rio de Janeiro. Há um ano se iniciou no aprendizado da dança ATS® e Tribal Fusion com o grupo Loko Kamel Tribal Dance. Contato: ddlemos.art@gmail.com





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Dança Fallahi

Olá, queridos leitores!
Estava devendo um post sobre Dança Fallahi!

Fallahim = "camponeses" em árabe. A maioria do povo baladi das cidades são fallahim. Eles estão localizados no Delta do rio Nilo, acima do Cairo.

A dança Fallahi tem variações regionais, mas a mais comum é a que se refere à colheita, pois foi difundida pela Trupe Reda. Nos shows folclóricos egípcios, eles costumam aparecer na parte cômica do show, pois eles são vistos como uma "família Buscapé". Uma analogia conosco, seriam os caipiras.


Dentro dessa dança, utiliza-se um vestido bem rodado até o pé com mangas compridas ou não de estampa lisa, listrada ou com motivos geométricos ou florais e com babados. Pode colocar flores na cabeça, véu, pompom.


O ritmo costuma ser o fallahi, que é um maksoum modificado, mais acelerado (ritmo árabe dos camponeses egípcios - dum kaka dum ka - pode ter variações) e binário e os gestos representando o cotidiano como arar a terra, pegar água, cuidar de animais, etc. O Jarro é apenas um elemento cênico, como poderiam ser as flores, o cesto, etc.


Se possível, ao escolher sua música, procure saber a letra, caso seja cantada. Use aquelas em que exaltam seu país ou falam de seu cotidiano, pois são contagiantes e representam a alegria de um povo. É preciso habilidade, equilíbrio e boa expressão facial, pois é uma dança teatral.

Fontes: Anotações pessoais de aulas com Maira Magno, Melinda James.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Quem disse que não posso ensinar folclore?

"Se alguém lê um livro sobre leões ferozes e encontra um leão feroz, o leitor passará a ler mais livros do autor. E se o autor ainda ensina como domar o leão feroz e o leitor consegue, o autor passará a ser digno de confiança. Daí, os autores passam a escrever sobre temas um tanto definidos com o sucesso do seu primeiro livro e será impelido a começar a escrever sobre temas que circundam "leão feroz". Estudar um objeto isolado não traz conhecimento amplo. Estudá-lo no seu próprio contexto permite entendê-lo melhor".

Esse trecho é do livro "Orientalismo" do Edward Said, o qual já comentei aqui no blog, e ele resume bem o que é o Orientalismo. 

Também dizem que você só aprende uma língua de verdade quando você passa um tempo no país de origem.

Sabe o que é pior? Concordo com tudo isso. Mas, então, por que eu defendo que o folclore árabe pode ser ensinado por pessoas que nunca foram nos países de origem?

Porque acho que o conhecimento deve ser partilhado e as pessoas podem, pelo menos, serem apresentadas ao assunto.

Eu sou um pessoa muito estudiosa e se eu decido começar a estudar um tema por quaisquer motivos, em algum momento, eu vou parar para me aprofundar, seja lendo ou fazendo aula com alguém que me pareça referência no assunto. E com conteúdo, experimentação e crítica, eu crio e desenvolvo minha percepção sobre o mesmo. Ainda que eu não tenha ido, infelizmente, a nenhum país árabe, me sinto apta a falar sobre o assunto por conta do processo que eu acabei de descrever acima.

Quem já fez aula de folclore comigo sabe que eu não vendo nada como verdade, mas que repasso algumas visões de pessoas que já vivenciaram a dança de mais perto e minha conclusão do momento (do momento sim, porque eventualmente, a visão sobre determinado folclore muda). Sempre digo que aquela aula que estou dando é uma introdução/apresentação do assunto e que, se elas desenvolveram empatia por ele, eu as estimulo a procurarem saber mais, indicando, inclusive, minhas referências no assunto.

Se a gente usar o mesmo raciocínio, quase ninguém poderia dar aula de Dança do Ventre, pois a dança veio "de lá", não é?

Aliás, outra questão para reflexão: só porque você foi para Alexandria e fez aula com o próprio Mohamed El Hosseny, não te torna boa professora ou boa bailarina em Mambouty, certo?

Fiz uma live falando sobre isso:


Logo, quem disse que não posso ensinar folclore?

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 8 de janeiro de 2017

Feliz 2017, já com novidades!

Olá, povo estudioso!

Venho aqui, no primeiro post de 2017, divulgar dois cursos MARAVILHOSOS, os quais estou organizando.

[JÁ ADIANTO] Os dois cursos podem ser feitos por alunos iniciantes.

O primeiro, será em parceria com o Espaço Mosaico, onde teremos um dia INTEIRO de estudo em cima do tema DABKE. Os profissionais envolvidos são estudiosos, preparados e com vivência no tema. Começaremos do começo, passando por Dabke de roda, Zaffe Libanesa e terminaremos com orientações para dança solo.

Será dia 05 de fevereiro de 2017, domingo, de 10 às 17h no Espaço Mosaico, no bairro das Laranjeiras na cidade do Rio de Janeiro - RJ.

Informações no próprio local ou comigo, no email: hannaaisha00@gmail.com

PARA HOMENS E MULHERES DE QUALQUER NÍVEL.

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O segundo curso será realizado em março. Bruna Milani ministrou o módulo I em maio de 2016 e voltará para o RJ em março de 2017 para ministrar o segundo módulo do seu curso Intensivo de véu.

Se você não fez o primeiro módulo (uma pena!), tudo bem. Você pode fazer o segundo módulo! É aberto a todos.

Sobre o curso:
- O curso tem duração de 4 horas com intervalo de 30 minutos
- Inclui certificado e coffee-break

Sobre o local:
- Será realizado dia 12 de março de 2017 (domingo) no Centro de Dança Lóbinoos (Rua Real Grandeza, 313 em Botafogo) de 10 às 14:30h

Sobre pagamento:
- O investimento é de R$ 250,00 (o mesmo preço de 2016)
- Pode ser parcelado em 2x até o mês de março
- Pagamento realizado através de depósito bancário ou pessoalmente comigo (Hanna Aisha), somente

Resumo do segundo módulo
Módulo II: Explorando a espacialidade, agilidade e velocidade com o véu.

1. Transições, giros e deslocamentos: Explorando as transições de um movimento para outro de forma dinâmica; eixo e equilíbrio nos giros e deslocamentos adaptados aos movimentos de véu explorando a espacialidade;

2. Expansão, intensidade, velocidade e variações: movimentos elaborados e criativos; Desenvolvimento de movimentos mais elaborados, rebuscados e expansivos explorando intensidades, velocidades e variações diferentes; aplicação de sequências coreográficas, trabalho criativo e improvisação.

Sobre Bruna Milani
Bruna Milani é dançarina formada em Comunicação das Artes do Corpo, com habilitação em Dança pela PUC/SP (2010), tendo se especializado em dança oriental nos últimos 14 anos por identificação e paixão pela riqueza de possibilidades técnicas e peculiaridades na relação com a música. Ministra aulas de dança do ventre há 11 anos e, nesse período, vem desenvolvendo uma metodologia detalhada de estratégias criativas para ampliar o processo de ensino e aprendizagem. A dança como expressão de ser, estar e se relacionar com o mundo tem sido sua maior motivação. Visando ampliar sua linguagem, aprimora-se constantemente em cursos variados de dança e específicos de dança oriental. Atualmente ministra aulas particulares, workshops e cursos. Faz shows com o Zikir Trio, Yaqin Ensemble, Orkestra Bandida e projetos de pesquisa entre música e movimento ao lado do músico Mario Aphonso III.


Quaisquer dúvidas, pode perguntar!
Vejo você lá!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dança Meleah-laff

Afinal, que dança é essa?

Comentei sobre essa dança lá no post de Dança Balady porque ela é, de certa forma, uma dança balady. Existe esse mito, de que é uma dança surgida no início do século XX, em que as mulheres realizavam para atrair os marinheiros do porto. Se você for lá no post sobre Semsemeya, essa frase vai fazer mais sentido. Claramente, ocorreu uma má interpretação ao longo dos anos.

Foi uma dança que, durante muito tempo, foi "vendida" como um folclore típico do Egito. Hoje, o que se diz é que foi uma performance criada pelo bailarino e coreógrafo Mahmoud Reda, inspirada na mulher balady que é feminina, cômica e sensual:


O figurino dessa dança foi inspirado em um traje tradicional muito usado pelas mulheres no Egito, no início do século 20, nos grandes centros urbanos do Egito, como Cairo e Alexandria. O véu era preto, feito com tecido grosso, escuro e pesado, enrolado ao corpo, da cabeça aos pés, como sinal de respeito e dignidade. Um acompanhamento usual desse traje era o chador.

Cairo e Alexandria foram grandes cidades em termos de difusão cultural e temos 2 tipos de meleah, que representam essas cidades. No meleah do Cairo, o vestido é mais ousado e a dança é mais alegre, solta, extrovertida. Geralmente falam de amor ou cotidiano:


O Meleah do litoral é conhecido como Dança da Alexandria (iskandarani) e a bailarina utiliza vestidos mais curtos e músicas que falam muito do mar, da vida dos pescadores. Na década de 40, Alexandria era a principal cidade de veraneio do Egito. Os turistas eram atraídos pelas praias e pelos balneários elegantes. O meleah estava na moda e compunha o vestuário das mulheres, mas o clima quente obrigavam-nas a usar vestidos leves e o lenço deveria protegê-las de olhares maliciosos. Você pode identificar esse tipo de meleah ouvindo as palavras iskandarani, buró, meleah, galabia e a dança é mais discreta e "calma" do que a meleah do Cairo:


Música para Meleah-laff não é nada fácil, caso você ache que colocar qualquer música do Hakim será o suficiente. Por ser uma dança inventada, o ideal é você escolher músicas criadas para dança Meleah-Laff e não qualquer shaabi ou pop egípcio. Um ritmo que é encontrado comumente nas músicas para meleah é o ritmo malfuf acelerado (fallahi).

E aí, o que você acha agora: é um folclore ou não?

Fontes: Webartigos, Munira Magharib, Anotações pessoais de aulas com Luciana Midlej.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 16 de maio de 2016

E o tal do "said libanês"?

Afinal, existe ou não?

Não.

Quando eu escrevi o post sobre Dança Said, pela primeira vez, acabei comentando um pouco sobre o tal "said libanês", mas aqui, vamos falar um pouco mais sobre ele.

Por que não existe said libanês?
Porque começa com um erro conceitual: Said é uma parte da cultura egípcia, localizada na região sul, cheia de tradições. Logo, nunca poderá ser libanesa. Segundo Tufic Nabak, o bastão estilo libanês teve origem no norte do país e trata-se de uma dança alegre, executada com a bengala ou com o bastão, utilizando passos e músicas de Dabke. Ele diz em seu livro que "Enquanto os homens subiam aos telhados das casas cobertas com lama para compactar as rachaduras causadas pelas chuvas do inverno, os idosos subiam também para acompanhar de perto este trabalho e ficavam sentados segurando as suas bengalas. Ao som do Mejuez (flauta em árabe), os homens se distraiam e ficavam dançando durante o trabalho, enquanto alguns pegavam a bengala do pai ou do avó para girar durante os movimentos realizados com os pés. Assim, o bastão ou a bengala passaram a ser adereços importantes a serem utilizados durante as músicas de Dabke".

Então, de onde vem a confusão?
O que existe são os dabkes modernos libaneses (como Fares Karam e Nagwa Karam) que também podem ser dançados com o bastão.


As bailarinas que dançam nos Emirados Árabes aprendem esse estilo e levam para o Brasil, o qual eu mesma, tive a oportunidade de aprender com uma delas. O sapato aparece, o quadril pode ser mais utilizado e não é necessário usar galabya nem faixa na cabeça. Aqui, um vestido mais moderno cai muito bem:



O que comumente acontece é alguém ensinar sobre o ritmo said, que pode aparecer em diversas músicas como dabke, pop, shaabi. Porém, isso não significa que você pode dançar o Raks Assaya com qualquer música, só porque tem o ritmo said ao fundo! ERRO MEGA COMUM!

Também é possível utilizar esse estilo de dança como Dança de Casal, onde a mulher mistura passos de Dança do Ventre e Dabke e o homem dança o dabke, com ou sem o bastão:


Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 15 de agosto de 2015

Folclore tem que ter moeda?

NÃO.

Se você achava que sim, você precisa URGENTEMENTE estudar folclore árabe.

Algumas bailarinas famosas optaram por não trabalhar com folclore por diversas razões. Eu, particularmente, acho a estratégia conveniente, pois assim, fica mais difícil de você cometer gafes.

Porém, assim como eu, várias outras bailarinas trabalham com folclore e acham isso importante para que sua Dança do Ventre tenha mais embasamento. Mas, dentro desse universo, existem bailarinas que, ainda assim, cometem muitas gafes e não parecem estar muito preocupadas porque, quando recebem a crítica, a vaidade as ensurdece. Uma pena.

Como a Melinda James já escreveu em um blog, "o traje de cada povo, a forma de usá-lo e as ocasiões demonstram influências culturais importantes. Os acessórios e trajes preparam a pessoa para o clima, vegetação e solo local, além de demonstrar os padrões de beleza e a forma como cada povo reage a isso". [adaptado do texto original]

Voltando às moedas (as pastilhas podem representar as moedas, ok?)

O material das moedas vai variar de acordo com a região. Exemplo: Na Dança Siwa, os adornos são de prata e na Dança Ghawazee, elas são de ouro. Logo, combinar as "moedinhas" deve seguir uma lógica dentro do seu figurino.

Aliás, vamos usar, como exemplo, os árabes da região do Alto Egito (sul), ou seja, em direção ao continente. São os povos que representamos através da Dança Said e Ghawazee. As Ghawazee costumam ser representadas com moedas pelo corpo porque elas eram pagas com moedas de ouro pelos transeúntes e quanto mais moedas elas penduravam em si mesmas, mas elas demonstravam o quanto eram admiradas. Aliás, é muito fácil confundir algumas músicas ghawazee com músicas said pois uma parte delas mora na região Said.


Já Dança Fallahi quase nunca é representada com moedas ou pastilhas. Nem teria porque, afinal, é uma parte pobre do Egito, onde haveria tantas moedas de ouro/prata para exibir?


E o palco?
Sim, ele continua nos dando licença poética logo, os figurinos podem ser modificados, contanto que não descaracterize a dança que você propôs representar. Um exemplo super comum: vou dançar Dabke! Mas como não quero investir numa roupa de Dabke, vou pegar aquela galabia de said e colocar um lenço de moedas, meu sapatinho de flamenco e... pronto, #arrasei, ninguém vai notar.

Vai notar sim. Bom, vai notar quem estudou, minimamente, a diferença entre said e dabke. Vamos de Dabke primeiro:


Aqui a Lucy está representando uma ghawazee dentro do contexto said.

Todos nós já erramos dançando folclore, principalmente, pra lá de 15 anos atrás, em que não tínhamos tanta facilidade para viajar, ver vídeos e fazer workshops. Hoje em dia, você continua tendo o direito de não saber sobre determinada coisa (afinal, a gente dá aula de Dança do Ventre e continua aprendendo, certo?). Mas esse direito já começa a ser questionado caso você queira fazer uma performance "diferente" e não a estuda direito.

Conclusão
- Nem todo folclore tem moeda
- Nem todo acessório é moeda dourada
- Nem todo folclore tem faixa de cabelo

Com quem vou estudar? Você pode continuar estudando com quem você quiser; a grande diferença é: PENSE. O que a pessoa disse tem sentido, o que isso significa? Pense se o que o professor disse conecta com outras coisas que você aprendeu ou viu, tenha senso crítico. Não é só porque a pessoa é famosa (ou não) que ela sabe o que está dizendo ou fazendo.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 1 de novembro de 2014

O que é folclore árabe?

Querida bellydancer,

É impossível resistir; em algum momento, você vai esbarrar com o folclore árabe. Estudar Folclore Árabe é uma das coisas mais difíceis dentro da nossa dança pois a nossa principal referência é o trabalho de Mahmoud Reda, grande bailarino e coreógrafo responsável, durante décadas, pelo Reda Troupe, uma companhia de balé egípcio que existe até hoje. Como o próprio nome diz, é uma companhia de balé e, por conta disso, tem licença poética para levar aos palcos vários tipos de folclore que o próprio Reda pesquisou em campo, no Egito. Então, fica a pergunta: o que é folclore árabe? Apenas o que o Reda desenvolveu? Como aprofundar? Não há como saber/estudar outras nuances?


Existem alguns tipos de folclores que podem ser levados aos palcos com mais autenticidade pois são ainda muito vivos e presentes no cotidiano de povos que temos acesso mais fácil, como o Dabke Libanês:


Quais seriam as modalidades que se encaixariam no quesito "Folclore Árabe"? É, existem algumas polêmicas com relação a isso pois algumas são consideradas "dança popular" por algumas bailarinas enquanto outras, categorizam como folclore, como o balady. E outras não existem como manifestação folclórica e sim teatral, como o meleah-laff:


Já a Dança Said é um exemplo de folclore em que as mulheres se apropriaram e levaram para os palcos, apesar da inspiração vir de uma dança masculina, o tahtib:


Munira Magharib diz em seu DVD de Balady que para você dançar bem uma dança, é preciso entender a fundo o seu povo, senão você acaba fazendo apenas uma encenação, uma representação. E até aí, tudo bem, não há problema nisso. A Dança Fallahi é um exemplo claro de representação/encenação e a minha, não seria muito diferente, principalmente, se ela está sendo executada em um palco:


Qual seria o problema que algumas bailarinas com quem conversei já detectaram? Temos visto um excesso de licença poética que estão dando aos folclores, principalmente em concursos. E também é muita responsabilidade dizer que sua performance folclórica é tradicional. Isso tudo que disse antes não deveria te impedir de dançar folclore árabe, contanto que seja bem estudado e embasado. Você também pode colocar um excesso de licença poética no seu folclore, contanto que isso fique bem explícito na sua proposta. O trabalho da Nagla Yacoub é um exemplo muito claro do que acabei de explicar:


O que está errado é dizer que você pode fazer o que quiser e colocar suas impressões/sentimentos/gostos pessoais na sua performance folclórica. Por exemplo, existe código de figurino folclórico sim, assim como de estrutura musical! E quem diz que não existe código de figurino para funk ou samba não sabe o que está falando. Como a Nilza Leão mesma diz, o que nos parece fantasia de palco, para os árabes não é!

Voltando à pergunta inicial: o que é folclore árabe? Apenas o que o Reda desenvolveu? Não há como saber/estudar outras nuances? Na minha opinião:

- Folclores árabes são as manifestações específicas de regiões que pertencem aos países do Oriente Médio, que exigem determinados figurinos e músicas e que representam uma tradição/cultura local ou carregam algum simbolismo. Exemplos: Said, Fallahi, Núbia, Hagalla, ZaffeGhawazee etc. Para nós, que vemos de fora, tudo parece "exótico, étnico". As danças populares seriam uma expressão cotidiana como, por exemplo, Shaabi, Balady, KhalijiDabkeMambouti/Semsemeya. Mas isso não é consensual, ok? Acho extremamente difícil fazer essa classificação, do ponto de vista ocidental mesmo. Eu uso essa por questões didáticas. O próprio  termo "folclore" é bastante ocidental.

- Não, o Reda não pode ser sua única referência de folclore porque o que ele desenvolveu é bastante ocidentalizado perto do que é "real". Mas é um ponto de vista que apareceu a partir de suas pesquisas de campo.

- Sim, há como saber/estudar outros "pontos de vista" sobre folclore, já que alguns são bem difíceis de acessar. Cada vez mais existem profissionais qualificados em folclore; alguns conseguem ir nos países de origem para estudar e isso pode facilitar bastante entender/captar esse "espírito" que, comumente é difícil de entender, pois não é nossa realidade. Pesquise/procure por esses profissionais, não se prenda ao senso comum pois você pode (irá) se surpreender!

Por mais ousadia e menos medo porém, por mais estudo!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 16 de agosto de 2014

Importância do Folclore na DV

Já divulguei publicamente minha opinião de que para saber dançar Dança do Ventre (não estou falando de ensinar), não era exatamente necessário saber Folclore Árabe. Hoje, depois de mais experiência e observação, mudei de opinião. Sim, é preciso saber Folclore para saber dançar e, claro, dar aulas de Dança do Ventre.

- Mas eu não quero dançar folclore!
Mas quem disse que você precisa dançar folclore? Você pode dançar somente o bellydance! Bellydance não inclui o baladi, tá? Agora, voltando à questão do folclore. Como você quer representar uma dança que tem como maior origem os países do Oriente Médio sem estudar minimamente seus folclores e sua expressão popular? Como você vai reconhecer ritmos e representá-los de uma forma harmoniosa se você não sabe o que é khaliji ou zaar? Você, pelo menos, sabe que turco não é árabe e que, talvez, seu amigo libanês não entenda bem a música egípcia que você entregou pra ele traduzir?

- Mas eu só quero dar aulas de Dança do Ventre!
E quem disse que o folclore não será importante? Ou você acha que suas alunas não irão às aulas com perguntas sobre folclore para você? Claro, você pode ser sincera e encaminhá-las para outras profissionais, mas a questão aqui é outra: você está satisfeita com o que sabe? Se sim, ótimo! Encaminha suas alunas pra gente! ;-)

- Mas só quero dançar e não dar aulas!
Releia a primeira pergunta e respectiva resposta.

- Mas só quero trabalhar dançando em restaurantes!
Bom, aí vai depender de que restaurante você quer dançar... caso você vá dançar em um restaurante cujo dono é árabe, eu sugiro fortemente que você vá correndo estudar, pelo menos, said, dabke e khaliji porque existe a chance de você passar vergonha.

- Mas quero dançar igual a Shakira!
Ok, então vai aprender Stilleto e não Dança do Ventre.

- Mas quero apenas dançar pro meu marido!
Ah sim... beleza, você não precisa do folclore.

Queria colocar um vídeo meu como exemplo do que quero dizer com esse post. Eu não costumo representar os folclores dentro das músicas bellydance de forma muito forte, mas representá-los de forma mais sutil. E foi o que fiz na parte que entra o mizmar (1:04) e eu não fiz imediatamente os movimentos de said. O que poderia acontecer se eu não soubesse que quando o mizmar entra, a música passa a ter um tom mais folclórico? Na verdade, nada. Mas eu perderia uma grande chance de mostrar para o público (que nesse caso, sabia o que era um said) que percebo essas mudanças de tom e que sei representá-las de forma mais adequada.


- Mas, então, eu preciso conhecer TODOS os folclores árabes?
Olha, nem eles devem conhecer... assim como não conhecemos os nossos. Mas existem folclores fundamentais para você se garantir minimamente nas suas performances. Hoje em dia, felizmente, existem muitas profissionais de qualidade oferecendo aulas que poderão te orientar com mais embasamento téorico e prático. E se algo te soa estranho na música que você quer dançar, simplesmente não a utilize agora e escolha outra!

Fiz uma live sobre isso, dá uma olhada!
Abre a cabeça, pessoa! E vai estudar!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Mambouty – a dança dos pescadores e a Semsemeya

Eu vi alguns vídeos sobre semsemeya e como nunca aprendi "formalmente", não me senti à vontade para escrever um post sobre esse tema. Logo, pedi ajuda a uma bailarina que, até onde sei, sabe bastante sobre o assunto: Bianca Gama. Espero que gostem! [O texto e vídeos são de responsabilidade da autora]
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Pessoas como nós foram enfeitiçadas. Não podemos ignorar o chamado da sereia. A 
semsemeya enfeitiça todos aqueles que cantam e tocam e todos aqueles que dançam. Até a plateia que os assiste.
El Wazery, no documentário “The Siren”(El Mastaba Center for Egyptian Folk Music)

Tanbura
O Mambouty, conhecido como a dança dos pescadores, é um folclore egípcio originário da região no entorno do Canal de Suez – canal que liga o Mar Vermelho ao Mediterrâneo; mais especificamente às cidades de Ismaileya, Port Said, El Qantara e Suez, no baixo Egito. Sua música se caracteriza principalmente pela presença marcante de palmas e uma ou mais espécies de “liras antigas”, tal como as liras gregas, chamadas Semsemeya e Tanbura.
Tradicionalmente, a Semsemeya é uma pequena lira de cinco cordas que pode ser encontrada em inúmeros retratos de tumbas egípcias, ilustrando músicos da antiguidade que entretinham os faraós e outros dignitários da corte. É importante ressaltar que apesar do seu caráter remoto, a utilização deste instrumento ainda é muito comum na sociedade egípcia contemporânea.
Em contraste, a Tanbura é uma lira maior com seis cordas que era habitualmente usada nas cerimônias de cura Zaar. Pensa-se que este instrumento tenha sido trazido para o Egito durante o século 19, após a conquista de parte do território do Sudão. Quanto à procedência da Semsemeya, não se sabe exatamente qual seria a sua origem, mas se acredita que ela seja uma variante da Tanbura. Uma lenda egípcia conta que o primeiro destes instrumentos foi criado a partir da casca de uma tartaruga que nadou muito longe ao longo do Nilo e acabou se tornando o jantar para um músico com fome. Outra lenda afirma que a Semsemeya já existe há séculos no Golfo Pérsico e que a sua música teria a capacidade de acalmar as águas do Mar Vermelho...
Semsemeya
Atualmente, para acompanhar o canto há versões modernas e até mesmo variantes destes instrumentos, que possuem de 12 a 14 cordas metálicas, com saída eletroacústica, podendo chegar a ter até 25 cordas, que são afinadas para atender aos diferentes maqams/escalas da música oriental, além daqueles mais utilizados como o Rast e Bayati. Nos dias de hoje, também podemos encontrar a Semsemeya em músicas da Jordânia, Iêmen, na península do Sinai (inclusive em canções beduínas) e pelos arredores do Mar Vermelho.
Confira algumas imagens do Canal de Suez, os relatos dos músicos, a distribuição destes instrumentos pelo Egito e um pouco de dança nos diferentes estilos de música compostos com a Tanbura, a Semsemeya e outros instrumentos aqui:

Parte 1 do documentário “The Siren”:


Parte 2 do documentário “The Siren”:


 A palavra Semsemeya, assim como Simsimiyya, Bambouti, Bambouteya, Bambutiyya e Mambouty, também é utilizada como sinônimo do gênero musical desta região (que inclui a música e a dança). Também é encontrada a distinção no uso das palavras; Semsemeya se referindo ao instrumento e à música, assim como Bambouteya se referindo unicamente à dança e aos passos de dança. A etimologia da palavra Mambouty aproxima-se da expressão inglesa “Men Boat”, fazendo uma clara alusão aos trabalhadores do Canal.
Ao longo dos tempos, o Canal de Suez tem sido uma passagem de importância crucial entre a África e a Ásia. Há muito tempo, peregrinos muçulmanos já viajavam através de Suez a caminho para Meca. Desta forma, é natural compreender que esta região tenha sido afetada por diferentes influências culturais. A conclusão do Canal de Suez, em 1869, foi um evento estrategica, politica e economicamente muito importante para o Egito, e isso também afetou o desenvolvimento da música popular do distrito. 
Durante a sua construção, os trabalhadores provenientes de todas as partes do Egito trouxeram com eles as suas próprias tradições musicais, tal como fizeram os engenheiros ocidentais e todo o pessoal administrativo com suas famílias. Port Said foi dividida em duas partes, uma ocidental e outra egípcia. Os egípcios se reuniam semanalmente em bailes denominados “dammas” para tocar a sua música e cantar. Nestas ocasiões, se utilizavam a tabla, colheres, palmas e às vezes um pandeiro para acompanhar as canções. A Semsemeya só foi incorporada à música local depois. De acordo com algumas fontes, o instrumento chegou ao canal apenas em 1938, e posteriormente se adaptou à tradição musical do local, por intervenção de um músico chamado Zakaria Ibrahim, criador da proeminente banda El Tanbura.

El Tanbura band:


A música Semsemeya ganhou uma importância política peculiar por volta de 1950 quando as canções passaram a falar sobre o movimento de libertação contra a ocupação britânica do Canal de Suez. Várias de suas músicas versavam sobre o crescente movimento de nacionalização do canal, assim como o espírito de luta de Suez. Uma das personalidades mais conhecidas na formação da música Semsemeya é Mohamed Mahmoud Ghazali, conhecido como capitão Ghazali, que foi um líder do movimento de resistência, o qual formou uma banda que era levada para a linha de frente nas batalhas, para tocar as suas músicas e encorajar os combatentes.
A dança Mambouty é uma parte essencial do repertório das trupes de folclore do Canal. Essencialmente, é uma dança masculina alegre e vigorosa que se caracteriza por passos rápidos, saltos bem altos, passos do tipo “charleston” (ao que tudo indica, que foram absorvidos dos marinheiros ingleses), sapateado, palmas (“kaff”) e alusões ao cotidiano rotineiro do mar como “avistar, puxar e jogar a corda, remar”, motivo principal para ser chamada também de dança dos pescadores. Também podemos encontrar a utilização de um par de colheres de metal e bastão nesta dança.
Os vídeos abaixo representam o estilo de dança Mambouty, realizado pelo bailarino e professor egípcio Mohamed El Hosseny, ex-integrante da Trupe Reda, atualmente radicado na Finlândia, porém nativo de Suez e especialista neste tipo de folclore:


Os “Man Boat” eram pescadores, guardas-marinha, comerciantes barqueiros e também trabalhadores do porto, que, como mencionado anteriormente, ao se reunirem nos dammas utilizavam palmas, colheres, assim como panelas e daffs para acompanhar e dançar as canções que eram tocadas naquela região. Esta dança não possui um traje específico e a roupa utilizada no palco reflete a origem da classe trabalhadora deste folclore. Deste modo, é comum vermos apresentações com roupas que fazem alusão à Marinha, ao mar e roupas no estilo “Popeye”.
Ressalte-se que a participação feminina neste folclore suscita muitas dúvidas quanto a sua inserção. Até o momento, não está claro pelas minhas pesquisas se mulheres costumavam mesmo dançar originalmente nos dammas ou se a inserção de mulheres na dança Mambouty se deu pela adaptação para o palco e a teatralização deste folclore; visto que existe a possibilidade de mulheres dançaram vestidas de homens ou utilizando a roupa típica no estilo “Baharey” (relativo ao mar, relativo também a esta região), que é o vestido curto utilizado em apresentações de Melea-Laff.




Fato é que uma performance mista de homens e mulheres pode ser realizada com homens dançando os passos masculinos do Mambouty e mulheres trajadas com o vestido Baharey, utilizando ora alguns passos de Mambouty, assim como o próprio repertório da dança oriental. Confira aqui uma coreografia das professoras do Oriental Studio de Dança:


É muito importante ressaltar que a Semsemeya ou Mambouty ainda é uma tradição viva no Egito. Casamentos são organizados em Suez com bandas de Semsemeya para entreter os convidados e as músicas atuais refletem os temas contemporâneos do Egito. Como exemplo, no início de 2011, a banda El Tanbura participou da revolução egípcia, fazendo campanha para a reforma social, política e cultural no Egito e tocando para os manifestantes na Praça Tahrir, no Cairo.
Finalmente, gostaria de ressalvar que este artigo é fruto de pesquisas combinadas de algumas fontes, e não representam uma verdade absoluta e inequívoca. Novas fontes de referências podem alterar parte do texto acima, à medida que outras informações vão sendo adicionadas e comparadas entre si. 

Referências básicas:
Bailarino e professor egípcio Mohamed El Hosseny, especialista neste tipo de folclore

Bianca Gama
biancaegama@hotmail.com

Embora Bianca sentisse desde criança uma forte atração pelo sons do oriente, foi somente em 2000 que ela seguiu seu impulso para adentrar no mundo da dança do ventre. Foi então na primeira aula, realizada na data de seu aniversário, que ela foi completamente conquistada por uma professora iraquiana, Sandra Chitayat. Desse momento em diante seguiram-se muitas aulas, ensaios, coreografias e apresentações. No ano de 2005, Bianca deu início ao ensino dessa modalidade de dança, ministrando aulas nas quais desenvolveu um método próprio de desenvolvimento corporal, relaxamento e conscientização rítmica. Sua técnica e expressão foram aprimoradas com renomadas professoras brasileiras, como Lulu, Carlla Sillveira, Clara Sussekind, Melinda James e Luciana Midlej, assim como de professores egípcios como Raqia Hassan e Gamal Seif. Já viajou para países como a Turquia e Egito para ampliar os seus conhecimentos. Atualmente, Bianca é professora do quadro do Oriental Studio de Dança, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro.