Translate this blog!

Mostrando postagens com marcador improvisação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador improvisação. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Leitura Musical

"Quaisquer verdades transmitidas pela linguagem estão incorporadas na linguagem e sua verdade é um exército móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos (Nietzche). O Oriente recebeu um amplo campo de significados, associações e conotações que não se referiam necessariamente ao Oriente real, mas ao campo que circundava a palavra". Edward Said - Orientalismo

Você já participou de algum tipo de avaliação e ali, foi mencionado que sua musicalidade ou leitura musical precisava ser trabalhada? Eu já publiquei um artigo no CDV que tratou sobre o tema, mas aqui eu queria trabalhá-lo com um pouco mais de detalhe. Improviso e leitura musical são temas recorrentes no nosso meio e os dois conversam porque abrangem alguns aspectos em comum que precisam ser trabalhados separadamente.

Para mim, para que sua técnica de improviso desenvolva, você precisa estudar leitura musical antes. Tentar improvisar sem ter o conhecimento básico disso (claro que a prática está incluída nesse treinamento) e deixar apenas o seu corpo se deixar levar pela música, torna o caminho mais difícil, se você pretende melhorar seu improviso tecnicamente.

A partir de quando eu posso começar a estudar leitura musical?
Com um vocabulário mínimo de passos, já é possível começar a estudar leitura musical. “com 100 palavras em inglês, é possível comunicar-se. É apenas questão de saber utilizá-las”, já dizia o método do curso de inglês que eu fiz. Quem já viajou para fora do país sem saber muito bem a língua nativa, sabe que isso é verdade.

Quando falamos em começar a estudar leitura musical, estamos falando justamente de três coisas, como já abordei aqui no blog: estudo dos ritmos, leitura dos instrumentos e diferenciar os tipos de músicas. Vamos ver cada um deles agora:

- Aprender o mínimo sobre ritmos
Já tratei com mais detalhe sobre o estudo dos ritmos aqui no blog. É preciso aprender o mínimo mesmo, para começar. Aprender sobre os diferentes ritmos te ajuda a identificar o número de tempos da música, por exemplo. Essa informação ajuda muito a compor sua leitura musical, pois sugere movimentos que devem ser feitos. Uma coisa é se deslocar em 2 tempos e outra coisa é se deslocar em 4 tempos. É isso que vai te deixar “dentro do ritmo, pisando no dum” e, com isso, dançando de forma harmoniosa, sem parecer que está “dançando com fone de ouvido”, ou seja, em que parece que você está ouvindo uma música enquanto está tocando outra. Até leigos são capazes de perceber que há algo estranho naquela dança, pois, intuitivamente, ele não conecta o que vê com o que está ouvindo, mesmo sem ter ideia de técnicas de dança ou sobre a música em si. Nesse vídeo, a música que a Marta dança começa com fallahi (chamado por alguns de maqsoum acelerado, com 2 tempos), que vai emendar em um masmoudi, que tem 4 tempos (2:20), voltando rapidamente ao fallahi em 3:07. O clima e até os movimentos da dança "mudam" por conta da troca dos ritmos:


- Entender os diferentes tipos de música
Não basta ouvir apenas música egípcia ou libanesa, que são as músicas que estamos mais acostumadas a trabalhar. Também precisamos distingui-las das músicas gregas, turcas ou marroquinas porque elas estão presentes nas nossas playlists e, normalmente, nem sabemos. Mas percebemos que não é uma música "normal" porque elas soam diferentes e, ainda assim, as usamos sem saber. Esse conhecimento não interfere diretamente na sua leitura musical, absolutamente. Mas pode ser importante você ter a consciência de que elas vieram de culturas diferentes e, assim, talvez, isso influencie na escolha dos seus passos, expressão corporal e até contextos para dançá-las.

Além disso, qual é a modalidade? É um folclore, rotina oriental, erudita, pop, moderna? Qual é a "roupagem" da música? Mais moderna ou "analógica"? Você acha que a leitura do shaabi abaixo deveria ser a mesma a de um pop?



- Identificar os instrumentos
Não é uma delícia assistir uma bailarina realizando um taqsim de violino bem executado, daqueles que você nem se mexe de tanta admiração? Pois é, alguns discordam, mas, hoje em dia, eu acho que esse tipo de leitura não necessariamente precisa ser feito com extremo rigor para que você demonstre o quanto você é habilidosa com seu corpo. Uma boa leitura musical também pode ser feita sem precisar marcar todos os acentos dos instrumentos. Aqui no blog, fiz 5 posts diferentes, falando sobre cada um deles  - procura no blog "Instrumentos mais comuns na DV para Taqsim". Abaixo, um lindo exemplo de leitura de instrumentos:


A influência  e as referências que recebemos na nossa vida também irão afetar nossa maneira de ouvir e dançar; não há como dissociar nosso histórico corporal e o ambiente que vivemos da nossa expressão corporal em geral, inclusive da nossa dança (como já diria Klauss Vianna). Mas espero que, com essas orientações, eu tenha ajudado você a organizar os pensamentos (quem sabe até ajudar com um planejamento) na sua busca eterna por aprimoramento e satisfação com a dança e com você mesma! Depois, dá uma olhada na coluna do blog Desconstruindo Leituras para ver várias danças que fugiram da leitura "tradicional e previsível" que temos da DV. Aproveita e repensa também a escolha das suas músicas, lendo esses dois artigos:


Aqui eu dancei uma música turca e por ser relativamente monótona, me preocupei bastante com a leitura musical para que não ficasse chata:


Aqui, a aula online que eu dei, falando sobre o que eu escrevi hoje:


Quer aprender a dançar em casa? Segue essas dicas aqui!
Quer fazer aulas online? Dá uma olhada aqui.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Segurança no palco

Vamos combinar que enfrentar um palco não é para qualquer um? O palco engole a gente mesmo e é preciso coragem para enfrentá-lo sem perder a cara linda e ainda dançar bem! Se você está aprendendo alguma dança, a chance de enfrentá-lo algum dia é enorme! E como fazer isso sem muito traumas?

Segurança é um dos quesitos que irão garantir uma boa performance. A bailarina pode nem estar dançando grandes coisas, mas se ela passa segurança e passa a sensação de que sabe o que está fazendo, isso faz com que ela ganhe atenção e até, respeito do público. Segurança inclui muitas coisas como experiência, calma, clima do lugar, um pouco de cara de pau e, principalmente, treino! Treinar significa coreografar? NÃO! Você pode treinar sim sua coreografia e mesmo que você esqueça na hora, o treino te ajuda a improvisar. Ou treinar limpeza de movimentos te garante movimentos mais automáticos e limpos, fazendo com que você se preocupe com outra coisa na hora de dançar. Nesse vídeo, a bailarina está em um concurso e realiza movimentos com muita rapidez e leveza e notoriamente, a segurança impera:



A velha experiência: essa daí, você tem que ter paciência pois vem com o tempo e com as oportunidades. A experiência de palco, de público, de som, de luz... essa sempre te faz crescer! Improvisar bem também é resultado de sua segurança e experiência! Dica: não deixe de improvisar em sala de aula e não negue dançar porque você acha que é muito iniciante! Se a professora disse para você dançar, DANCE! Aqui, Lulu resolve tirar os braceletes (6:53) e o véu fica no rosto (2:05):



Música ao vivo? É, uma dose a mais de nervoso entra em ação porque nunca sabemos como os músicos irão tocar a música que você escolheu. Mas ok, você, pelo menos, conhece a música e provavelmente, você perderá uma parte ou outra... não será motivo para perder a segurança! Dica: está ficando nervosa durante sua performance ao vivo? Interaja com o cantor/músico e respira. Aqui, Michele Trentin fez tudo de dificil: dançar com banda ao vivo, cantor e snujs ao mesmo tempo:



"Ai, a música falhou!" Ok, se ela não voltar ou ficar muito ruim, agradeça e saia do palco. Não é motivo para ficar nervosa, pois todo mundo está vendo que a falha é do som e não sua! E se ela falhar um pouquinho? Daí, entra um pouco da sua cara de pau: interaja com o público!



Bons treinos e boa sorte!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 10 de março de 2013

Estudo dos ritmos em DV

Post a pedido de Simone Mattioda

Bailocas,

Eu e Raqia! Amei o work dela!
de acordo com Raqia Hasan, "quem deve se preocupar com o ritmo que está sendo tocado numa música, é o músico. Ela (Raqia) revela que em nenhum momento se preocupa com o ritmo, demonstrando não valorizar esse tipo de conhecimento na formação de uma boa bailarina de Dança do Ventre". Concordo com a Nilza, quem escreveu esse trecho em seu blog; para ela, é muito fácil perceber sotaques na música árabe e dançar da forma mais autêntica, ela é de lá! Nós, ocidentais que não falamos árabe e estamos acostumadas com outra escala musical, penamos para tentar entrar em harmonia com a música, quanto mais expressá-la!

A Esmeralda (SP) escreveu um artigo na edição no. 09 da revista Shimmie falando algo parecido com o que a Raqia disse e quase enlouqueci com isso. Pensei: "Gente, o que as alunas vão pensar?" Daí, pensei com calma e acabei entendendo o que ela quis dizer! Mas daí o Pedro Françolin vem, na edição seguinte da Shimmie e fala o contrário, de que saber ritmo é fundamental para uma bailarina.

Concordo com o Pedro também. O estudo dos ritmos árabes básicos (em torno de 25 - parece muito, mas nem é tanto) ajuda e muito uma bailarina a ter harmonia em sua performance e criar coreografias, além de identificar folclores. E nem estou falando de khaliji! Assim como a identificação dos instrumentos também dá um plus na leitura.

"Ah, então, existem regras para se dançar?" NÃO! Não é isso! Esse é o ponto. E eu preferi interpretar, da maneira que irei explicar agora, o que a Esmeralda escreveu na revista. Não existem regras de leitura de um ritmo ou outro; mas o entendimento de tempos e contratempos, por exemplo, ajuda você a tornar sua dança menos aleatória e mais organizada. Quando essa movimentação básica em cima de um ritmo se torna mais estruturada, você poderá tornar sua dança mais variada e dinâmica. Mas isso é apenas questão de escolha. Sempre. O Gamal Seif prefere trabalhar mais em cima da melodia, é outra visão de leitura. Acho que o ideal é misturar os dois! Não negligenciar nem um nem outro.

No mesmo artigo que referi acima, a Esme fala que as bailarinas precisam "ouvir com os olhos", ou seja, ter "visão de espaço, de harmonia, de interpretação, de estética, de linha corporal". Sim, pois como ainda ela completa, "é isso que faz uma dança ser diferente da outra". Mas continuo achando que o estudo dos ritmos não deve ser negligenciado para que se siga apenas a melodia.

Aqui, um exemplo de bailarina muito didática, que equilibra bem a leitura dos ritmos assim como da melodia, resultando numa linda leitura musical:


Logo, queridas, nunca fiquem desesperadas ou relaxadas demais com o estudo, seja de ritmos ou melodia. A Dança do Ventre, acima de tudo, é sempre um momento de felicidade e satisfação. Se você ainda se sente insegura quanto ao ritmos, vá com calma e não tente aprender tudo de uma vez. Se você nunca ouviu falar disso, tá na hora de você perguntar à sua professora! Bons estudos!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A arte do improviso

Alguns blogs já escreveram sobre o improviso em DV. Eu, particularmente, decidi que esse ano de 2012 seria o ano do improviso para minhas alunas e não há uma aula sequer que eu não feche com improvisação. Fora todas as avaliações que já estão programadas esse ano. "Eu sou carrasca, apenas isso?" Não, de maneira alguma. Faço isso porque sei que elas possuem um repertório de movimentos razoável, o que falta é colocá-los em prática. Isso me lembra minhas aulas de inglês cujo método se baseava em uma coisa parecida: "com 100 palavras em inglês é possível comunicar-se. É apenas questão de saber utilizá-las". Eu não só concordo, como faço isso, sem estresse. O vocabulário vai crescendo à medida que a segurança aumenta porque o "básico" está dominado e automático. 

Não sou contra coreografias, de maneira alguma! Mas acho que trabalhar o improviso ajuda sim no raciocínio rápido, na leitura musical e na expressão.

Algumas dicas gerais para improvisar

- Ouvir música árabe. Muito. Para entender um pouco (porque entender MESMO, acho que algumas poucas bailarinas entendem) de música árabe, sua estrutura, suas nuances, seus sotaques.

- Ensaiar regularmente os temas trabalhados. Não adianta achar que 1 hora e meia por semana de aula vai te tornar uma bailarina cada vez melhor. Doce ilusão que eu testei e não funcionou. Só sai se colocar em prática, não adianta. Já diria Shaide Halim: "Mas... sem técnica a coisa se complica um pouco mais. Porque a emoção só aparece verdadeiramente quando estamos tranquilas com o que faremos com nosso corpo, quando dominamos os passos, quando sabemos a sequência da coreografia ou, mesmo numa apresentação de improviso, quando conhecemos a música e sabemos o que fazer com ela. Ou seja, quando lidamos bem com nosso repertório de movimentos já estudados, já enraizados, já habilmente sabidos por nosso corpo".

- Nunca fiz isso de me filmar ensaiando, mas dizem que funciona. Só me vejo mesmo quando me filmam dançando, coisa que peço para fazerem sempre que dá, mesmo que eu não tenha a intenção de colocar no youtube.

- Trabalhar a timidez. Aproveitar os momentos em aula para improvisação ou exercício ajudam MUITO a diminuir a timidez diante do público. E isso interfere diretamente na sua segurança e consequentemente, na sua expressão.

Algumas dicas mais técnicas:

- Identificar o estilo musical que está sendo tocado. Rotina, balady, folclore, pop, moderno... No geral, isso não é um grande problema, pois sabe-se que estilo se irá improvisar, principalmente, se for um concurso.

- Identificar o tempo da música e, se puder, o ritmo. O ritmo pode dar dicas sobre movimentos e eu falarei exatamente sobre isso aqui no blog em algum momento.

- Identificar os instrumentos. Os instrumentos, como já venho falando nos posts sobre taqsim, não só dão dicas como recomenda-se, fortemente, segui-las.

- Criação de sequências para utilização nos improvisos. Eu, particularmente, não utilizo dessa dica, mas esse tipo de dica é comum.

Dicas mais elaboradas:

- Se os movimentos estão dominados, assim como a leitura dos ritmos, o que falta mesmo é trabalhar a expressão e a espontaneidade. E para isso, é preciso perceber qual o "humor" da música: alegre, triste, introspectiva, etc. para que você o sinta e traduza com o corpo, mexendo principalmente com a intensidade dos movimentos.

- Colocar em prática assim que tiver oportunidade! Não importa se é em sala, festa de família, festa da escola ou restaurante.

- Claro que é importante trabalhar bem as emendas e as finalizações dos passos, mas isso já faz parte de técnica em si, não só de improviso.

Você não precisa fazer 50 passos em um minuto, esquece isso! O bonito não é ver pernas, giros, cabelos e arabesques em 30 segundos, mas tocar profundamente quem te assiste e fazer da sua performance, uma na lista das inesquecíveis! Além, claro, de fazer você se sentir bem consigo mesma.

Fazer simples porém, com segurança, é certeza de sucesso!

E aqui, meu vídeo participando do concurso E-ventre 2012 na Categoria Solo Profissional, em que se improvisava uma música sorteada de uma lista de 12, reveladas anteriormente, pela organização:


Para saber mais:
- Luana Mello, para mim, que será sempre uma grande referência em DV: http://www.centraldancadoventre.com.br/artigos/175-encarando-o-improviso (ela tirou o blog do ar, ok, gente? Sad, but true.)
- Nesse artigo, uma visão parecida com a minha: http://www.centraldancadoventre.com.br/artigos/93-improvisando

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 11 de setembro de 2011

A diferença entre interpretação e expressão - por Cássia Pires

Quando estávamos perto de um concurso que minha aluna participaria, ela me enviou o link desse artigo maravilhoso por email... porque eu dizia a ela que deveria relaxar mais a expressão e "sentir mais a música", se preocupando um pouco menos com a técnica, até porque estava boa. Ela estava com dificuldade em entender o tal "sentir".

"É comum ouvirmos que determinada bailarina interpretou muito bem tal personagem. Na verdade, ela simplesmente soube expressar as características de tal protagonista. São coisas bem diferentes, nem sempre perceptíveis para quem desconhece como cada arte funciona.

Não existe o “entrar no personagem”. Isso é bonito, romântico e poético, mas interpretação é técnica. Estuda-se muito para isso. “Ah, então, por que nem todos que estudam teatro são bons atores?” Pelo mesmo motivo que nem todos que estudam ballet são bons bailarinos.

Há diversos teóricos sobre o assunto (por exemplo, Brecht, Artaud, Grotowski, Boal), mas um dos mais importantes e estudados é Stanislavski. A base do seu método consta em três livros: A preparação do ator, A construção da personagem e A criação de um papel.

Bailarinos precisam conhecê-lo? Não. Mas precisam saber que não são atores. Não vou me aprofundar no assunto, porque os livros existem para isso. Passarei brevemente por uma parte do processo de composição de personagem, para vocês entenderem a diferença citada no título.

Quando um ator recebe um personagem, a primeira parte de seu trabalho é compô-lo. Ele terá de transformar uma ideia em praticamente uma pessoa, para que os espectadores assistam e acreditem que aquele ser existe. Sim, sabemos que é tudo ficção, mas se não nos envolvêssemos, ninguém se emocionaria em uma peça, filme ou novela.

Como construir alguém que não existe? O ator tem apenas o básico: a história do personagem inserida em uma história maior. Pensemos em Marguerite, personagem de A dama das camélias, romance de Alexandre Dumas Filho, que virou peça, vários filmes, a ópera La Traviata e o ballet de John Neumeier. Prostituta de luxo, sustentada por seus amantes, ela se apaixona por um rapaz mais jovem, Armand. O pai do rapaz faz de tudo para separá-los, chegando praticamente a chantageá-la. Além disso, ela está morrendo por conta da tuberculose. O que ela faz? Renuncia esse amor, sem dizer a ele o verdadeiro motivo do abandono. O final? Não vou estragar a graça de ninguém.

Com isso em mãos, uma atriz só sabe coisas básicas: Marguerite é prostituta, sustentada pela burguesia, é refinada, está doente, é mais velha que seu amante, conhece bem os meandros da sociedade da época, guarda o real motivo de sua separação. Ou seja, não é ingênua, é sagaz, experiente e sabe onde está pisando.

Agora, é hora de dar vida a essa mulher. Há várias maneiras, mas uma delas é se abastecer de referências. A atriz lerá romances de mulheres que tiveram de renunciar ao amor, assistirá a filmes de cortesãs do século XIX, pesquisará sobre os sintomas que caracterizam uma tuberculose, lerá poemas sobre amores trágicos, ouvirá canções que remeterão à renúncia e infortúnio, estudará sobre os modos burgueses da época em que se passa a história, pesquisará imagens de mulheres refinadas daquele período, enfim, ela mergulhará nesse mundo. Além disso, poderá reconstruir as lacunas dessa personagem: Ela se apaixonou antes? Por que começou a se prostituir? Ela tem família? O que aconteceu em sua vida até o momento em que conhece Armand?

O espectador precisa saber disso? Não. Isso é importante para a atriz em questão. Antes que os outros acreditem, ela precisa enxergar essa personagem como um ser verossímil.

O próximo passo do trabalho é o processo de montagem, específico demais para quem não é da área.

Uma bailarina não precisa fazer a mesma coisa, não precisa construir a Marguerite. Mesmo assim, ela tem de entender essa mulher. Entender o que está acontecendo: uma mulher apaixonada que terá de renunciar ao seu amor por conta das pressões sociais da época.

No momento do espetáculo que corresponde à separação dos dois, a bailarina não poderá entrar sorridente no palco, mas nem por isso deverá fazer caras e bocas para demonstrar o sofrimento de Marguerite. Aliás, erro básico que, por favor, jamais cometam. Nada de retorcer seu rosto para demonstrar sentimento; ele começa do lado de dentro. Simplesmente, sinta. Emocione-se com a dança, com a história, com a música. Dance com o corpo e com o coração. No pas de deux negro, entre Marguerite e Armand, sinta a angústia desse casal que se ama e não poderá ficar junto. Naturalmente, o rosto e o corpo expressarão tristeza e resignação.

Expressar tristeza e resignação. Só isso que a bailarina precisa. Entendendo essa questão, fica fácil perceber a vivacidade de Kitri, a angústia de Odette, a ingenuidade de Giselle, a doçura de Lise… O próprio ballet traz a emoção à tona. Esse é o limite. Quem quer ir além, exagera e fica falso, e ninguém é tocado pela falsidade.

Deu para entender? Por isso, se expressem da melhor maneira possível e deixem a interpretação para o teatro. Cada coisa lindamente no seu lugar".

Para ler o artigo completo, ir aqui.
Quer saber mais sobre expressão? Vá aqui e aqui!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 17 de julho de 2011

Trecho Folclórico na rotina oriental

Então, a rotina oriental sempre será tópico de qualquer blog e deve ser tópico de estudo para qualquer bailarina que queira sempre melhorar e se profissionalizar. As rotinas são perfeitas para isso, pois oferecem uma maior variedade de ritmos e movimentos para se trabalhar em uma só música.

Neste post, falaremos sobre a parte folclórica das rotinas. Ela costuma aparecer, geralmente, após o taqsim, mas pode ser que apareça antes.

O ritmo said é o mais comum de aparecer nesse trecho, mas outros ritmos podem entrar e assim como o said, os passos correspondentes costumam ser lembrados. Porque, na verdade, você não precisa representar a dança folclórica em si, mas dançar no ritmo tocado. Aqui, Natalia Trigo (para mim, uma das poucas bailarinas que dançam de forma belíssima qualquer rotina) fez o said de forma bem discreta, a ponto de quase não se percebê-lo (a partir de 8:06). Mas acho que o said em "Joumana" não é um dos said mais fortes:


Fallahi e soudi, por exemplo, são os outros ritmos que podem aparecer. Se você escolher dançá-los, acho que sua dança ficará mais rica comparado se os ritmos fossem apenas obedecidos. O soudi, da Dança Khaliji, é um ritmo bem característico que pode ser confundido com o ayub e com o laff, mas se prestar atenção, principalmente no contexto da rotina, dá para ser pescado rapidamente. E o que fazer quando o soudi aparece? Ué, você soltar alguns dos passinhos do khaliji mesmo (que eu não acho fáceis de fazer não), porém de forma não tão marcada e mais suave, afinal, você está dançando uma rotina! Mas se quiser fazer mais forte, beleza; ficando bonito, estamos aí para bater palmas!

Aqui, eu, Elaine Rollemberg e Nilza Leão, dançamos a mesma música acima e também marcamos o said, o soudi e o fallahi nessa rotina:


E o baladi e o fallahi? Geralmente, é o maqsoum acelerado quem entrará na rotina e dará um tom mais sapeca à performance nesse trecho que chamamos de folclórico. Nesse vídeo, Mayara Al Jamila dança lindamente a famosa rotina "Nelly" que, a partir de 3:58, começa com um fallahi, emenda em um soudi (5:02) e em um said (6:15):


Bons estudos e bons treinos!
Bauce kabira,
Hanna Aisha

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Tarab

Post reescrito em 10/01/17

Muita gente ainda confunde o Tarab com rotina clássica oriental. As rotinas clássicas tem uma estrutura bem clara: introdução, entrada, cadenciamento, taqsim, folclore, percussão e finalização; e quase nunca é cantado. Tá cheeeeio de blogs e workshops ensinando como dançar. O que algumas pessoas chamam de Tarab é a música erudita árabe, aquela que foi feita para ouvir, inicialmente!

Quando se aprende o que é Tarab, se percebe claramente essas diferenças. Oum Khoulsoum é a cantora mais conhecida por cantar tarab. Podem ser músicas muito maiores que as rotinas clássicas, com introduções de 10 até 30 minutos! Claro que nós, bellydancers, não faremos isso com nosso público, mas ao cortar as músicas, é importante saber como cortar. Por isso, a importância de se conhecer a estrutura e a letra da música. Dizem que a primeira bailarina a dançar Oum Khousoum foi Zouhair Zaki:


O Tarab começou com cantores sírios e ao contrário do que dizem (inclusive, eu achava isso) e ele não é exclusivo dos músicos egípcios; "Baatereflek"é um tarab libanês, por exemplo:


No geral, Tarab não sugere grandes deslocamentos; sugere muito shimmie, redondos e ondulatórios, braços menos enérgicos, mais emoção e interpretação da letra. O taqsim é bastante presente, principalmente como a voz do cantor. Pode cantar a música à vontade! Aqui temos Lucy dançando "Lissa Faker":


Aqui, Dina dança "Hayart albi maak":



Você não precisa usar seu estilo "50 passos em um minuto". No tarab, a tranquilidade e o sentimento prevalecem. Algumas dicas pra se inspirar são ver o videoclipe da música (se houver), imaginar a cara do cantor, procurar palavras, perceber as sensações, refletir os sentimentos nos braços. Não conseguiu a letra inteira? Tudo bem, com a orientação de alguém que saiba um pouquinho de árabe, aprenda a pescar algumas palavras, para interpretações pontuais. Dá uma olhadinha nesse link para você saber como uma atriz trabalha sentimento no palco.

Existe a discussão de que Tarab não é um estilo de música ou dança, mas um conjunto de sensações que levam alguém a um certo êxtase, provocada por uma música ouvida ou dança assistida. Eu, particularmente, não me incomodo com esse rótulo que estou descrevendo neste post, apesar de acreditar que qualquer performance ou música podem emocionar de forma intensa. O que talvez aconteça é apenas questão de probabilidade: Qual a chance maior de você sentir êxtase: vendo alguém dançar muito bem Oum Kholsoum ou Saad el Soghayer cantando "que gosta de manga"? Aqui embaixo, a visão sobre Tarab da bailarina Cris Antoniadis (SP):


Para fechar, Aida Bogomolova com a famosa "Ana Bastanak", uma das músicas mais dançadas, atualmente, dentro do estilo:


Fontes: Blog da Yasmine Amar, Arabic music blog, Blog da Lu Ain-Zaila, Anotações pessoais de aulas com Jade el Jabel, Marcia Dib, Nilza Leão

Bauce kabira,
Hanna Aisha

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Dançando ao vivo

Quem já foi em algum show de Dança do Ventre com música ao vivo já reparou que quem faz as músicas são justamente aqueles caras atrás no palco? Pois é, tem bailarina que, quando dança ao vivo, parece que não enxerga isso. Uma banda ao vivo custa muito caro para serem utilizados como enfeites, em substituição ao CD.

Para quem nunca dançou ao vivo, pense nisso. Deixe seu repertório de mil sequências e mil arabesques um pouco de lado, dance "mais simples" e interaja não só com o cantor, mas com os músicos ali presentes (mesmo que a música seja apenas instrumental). Ah sim, e o público faz parte de um show ao vivo, não se esqueça dele.

Deixo aqui alguns vídeos como exemplo de como fica mais bonito de ver quando a bailarina faz esse tipo de interação. A Hadara Nur (SP) já tem intimidade com o Tony, por trabalharem juntos há muito tempo, o que facilita bastante para que você fique à vontade:


As bailarinas que dançam lá nos Emirados Árabes dançam, basicamente, só ao vivo. Os músicos do lugar e a bailarina ensaiam durante o dia, passam a conhecer um ao outro (o que facilita também)... Aqui, temos a Jacqueline Braga (SP) dançando em Dubai e ela mostra que sabe fazer isso bem:


Sobre isso de afinidade com os músicos; quem dera todas termos músicos próprios, como as grandes bailarinas egípcias que estudamos têm ou tiveram... Aqui, um exemplo do nosso orgulho, Soraia Zaied:


Quando falo de respeito a quem está no palco, o video abaixo mostra isso. Nadja El Balady (RJ) sai do chão e sobe ao palco para ficar perto dos músicos do Laieli al Sharq:


Eu já tinha dançado algumas vezes com o Tony, mas essa foi a que mais gostei:


- Mas quem não interage com o músico tá errada?
Não disse isso! Só estou dando minha opinião de que sim, para mim, fica mais bonito. Todas nós podemos e devemos ter nosso "momento estrela" na música, nenhum problema...

- Mas eu só danço coreografada, como faço?
Se você der a sorte da música ser tocada de forma bem parecida que o CD, beleza! Geralmente quem só dança coreografada, costuma estudar bastante e criar sequências. Logo, tem movimentos que saem automatizados, so... no problem!

- Mas os músicos estão tocando muito estranho, não consigo acompanhar!
Pode ser que você esteja dançando com músicos ruins, só isso.

E quem não tem a oportunidade de dançar sempre ao vivo? Ou quem nunca dançou com aquele cara  específico lá do palco? Bom, é importante que você tenha um treinamento já avançado em improviso, mesmo que você saiba qual será a música a ser tocada e estudá-la bastante! Estar alerta ao que está acontecendo no palco também faz parte, pois sempre existe uma chance grande de surpresas acontecerem, como um intervalo maior, uma aceleração, uma pausa, uma interação direta com o cantor/músico... Uma outra dica é, com internet, é mais fácil procurar saber como o músico em questão toca para as bailarinas. Aqui, deixo o vídeo da Natalia Trigo (RJ) dançando com banda ao vivo no Egito, com quem não nunca havia dançado:


Dançar com música ao vivo é bom demais! Só quem já experimentou e sentiu essa emoção, sabe o quanto é bom. Portanto, tendo a oportunidade de dançar ao vivo, não a deixe passar!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 5 de junho de 2010

Taqsim

Post revisto e reescrito em 30/09/18.

Taqsim é o momento da música árabe em que um instrumento vai realizar uma improvisação melódica, podendo ter uma base percussiva por trás dela ou não. É um momento muito comum em rotinas orientais e faz parte da música balady.

O taqsim não acompanha a melodia da música em que está inserido e nem sempre o que você ouve ou reconhece como música lenta é música no "estilo taqsim". O taqsim sempre existe em um contexto de improvisação, com base na música árabe e não na ocidental. Nesse vídeo, por exemplo, eu dancei uma música lenta ocidental, inspirada em música árabe e não um taqsim propriamente dito:


Os instrumentos mais tradicionais utilizados em taqsim são a nay, alaúde, kanoon e o acordeon. O rabab também podem aparecer solando. A nay é uma flauta de bambu. O kanoon é um instrumento de corda, semelhante a uma cítara, em que fica apoiado sobre o colo do músico, que o dedilha com as duas mãos. O acordeon é um instrumento francês e não se sabe como chegou ao Egito e se tornou seu instrumento mais importante dentro da música baladi. O alaúde é considerado o primeiro instrumento de cordas do mundo:


O violino, teclado, guitarra e o saxofone também podem ser utilizados nas músicas mais contemporâneas, como nesse vídeo de 1973, com a Nadia Gamal dançando um taqsim balady:


A voz também é um instrumento que pode realizar um solo. O maual é a introdução vocal que o árabe faz e que descende de um canto religioso, segundo alguns estudiosos. São momentos em que o cantor é dominado por seus sentimentos, geralmente relatando histórias de amor ou desilusões. O maual é muito presente nas músicas balady como Tahtil Sheebak, uma das minha preferidas (0:45-1:28):


No taqsim, a bailarina precisa se deixar dominar pela música, em que os outros instrumentos, sem ser o que está solando, ficam bastante, quando não totalmente, reduzidos. Os movimentos ondulatórios e sinuosos são os mais intuitivos no taqsim (com exceção do kanoon e do alaúde que sugerem tremidos). A grande dificuldade de se realizar um belo momento taqsim é fazer as emendas parecerem fluidas, naturais e os movimentos pouco repetitivos, associados à uma expressão adequada ao humor do taqsim. E essa música que a Elis dançou: é ou não é um taqsim?


O taqsim é uma das performances mais difíceis dentro da Dança do Ventre, porém um dos mais emocionantes quando bem realizados. Hoje, eu me identifico muito com músicas com algum momento taqsim, quando não inteiros. Aqui, é uma das minhas tentativas mais recentes de se dançar uma música com essa pegada mais forte:


Fontes: Anotações pessoais de aulas com Luciana Midlej, Maira Magno, Marcia Dib; DVD Ventreoteca "Baladi" da Munira Magharib.

Bauce kabira,
Hanna Aisha