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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

É possível separar arte de política?

Olá! Primeiro, veja o video abaixo:



Em uma entrevista para o jornal "Nexo", Paola Carosella, que é chef de cozinha, disse que toda escolha é um ato político. De quem e o que compramos são discursos mudos e que o verdadeiro valor da escolha é quando você sabe o que você tá escolhendo e quando você tem a possibilidade de escolha.

Cada vez mais se fala e se discute o reaparecimento de autocracias e da extrema direita no mundo e a fragilidade e falhas da democracia moderna. E a história já nos mostrou que uma das classes mais rapidamente afetadas em um quadro desse, é a artística porque é uma classe que costuma tratar de qualquer tema e da forma que lhe achar mais interessante - e é aí que quero criar o link com a Dança do Ventre.

Quando as bailarinas falam sobre identidade e estilo em DV, elas se referem à identidade que você quer construir e ao produto que você quer vender junto disso. Ou seja, você precisa definir que público você quer atender, que imagem você quer passar e o que você pode oferecer. A bailarina que construímos não necessariamente somos nós mesmas, aquelas do CPF. As qualidades e defeitos que temos enquanto pessoas físicas não precisam ser repassadas para a pessoa jurídica (artística).

Quando vamos para o palco ou para a sala de aula, sempre assumimos uma posição política - mesmo que você ache que não. Neutralidade é uma posição política e as pessoas tendem a achar que política diz respeito só ao que se passa no âmbito legislativo, executivo e judiciário. Nós fazemos política o tempo inteiro. Existe uma palavra em inglês - policy, a qual podemos traduzir para diretriz: diretrizes do prédio em que moramos, da empresa que trabalhamos, da faculdade que estudamos são decisões políticas também. Política diz respeito a como as sociedades humanas de organizam.

Nessa construção da definição da bailarina, uma das ideias é definir e construir uma mensagem que iremos passar. Pouca gente discute isso, mas o maior exemplo disso é a bailarina egípcia Dina, que com sua roupas ousadas, revolucionou os figurinos na Dança do Ventre como uma forma de protesto à moralidade religiosa do povo egípcio e da sua profissão como bailarina de Dança do Ventre - que não é levada a sério até hoje no Egito.

Fica aqui a dica desse episódio do podcast "Trabalho de Mesa" que acho que será um ótimo exemplo para complementar essa reflexão e essa live que realizei na minha conta no Instagram.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Qual sua referência?

Olá, queridas e queridos!

Após assistir a essa palestra (grande, eu sei, vê aos poucos) do historiador Leandro Karnal, me inspirei para escrever esse post sobre referências:


Logo no início da palestra, ele diz que o estudante de História deve ler e saber determinadas obras clássicas, gostando ou não das suas ideias porque elas foram revolucionárias e mudaram o rumo da história.

O raciocínio se aplica exatamente à nossa profissão de bailarina de Dança do Ventre. Não importa se você só gosta de dançar derbacke e com espada, wings e rotina, baladi e pop. Se você quer ser uma boa professora e bailarina, você deve estudar, pelo menos, uma vez, todos os temas que circundam a Dança do Ventre, INCLUSIVE, os folclores árabes.

Assim, você ganha um olhar maior sobre sua profissão e te permite ESCOLHER que caminhos seguir com mais consciência, segurança e clareza.

Hoje, eu adoro dançar Fallahi e Mambouty porque me permiti estudar e EXPERIMENTAR NO MEU CORPO esses temas, que, a princípio, eu não estudaria. E o contrário também acontece! Você pode querer estudar determinada coisa e sair DETESTANDO dançá-la.

Outro ponto de vista que podemos tirar da palestra dele é sobre a história da sua profissão. De onde veio, quem foram as pioneiras, como se dão as modas de roupa, qual é a estrutura da música, como a dança evoluiu?

Por fim, quais são suas referências de professoras, bailarinas e músicos? Quem te inspira artisticamente e quem é sua referência técnica? Qual seu objetivo como professora ou bailarina, amadora ou profissional? A gente não consegue ter isso claro se não temos senso crítico embasado em muito estudo, observação e disciplina, incluindo aprender a ouvir a pessoas de confiança.

Enfim. É uma dança que nasceu em um contexto de entretenimento no Oriente Médio e hoje, continua movimentando muito dinheiro, sustentando muitas famílias mundo afora.

Poderíamos falar horas e horas sobre isso. Mas, antes, sugiro que você veja a palestra e, depois, procure uma boa profissional para te orientar, não fazendo você perder seu tempo (e dinheiro), que são preciosos!

Bauce kabira,
Hanna Aisha 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

The Tribal Style Belly Dance - O Estilo Tribal de Dança do Ventre

Resumindo: Tribal é um estilo de Dança do Ventre contemporânea, assim denominado na década de 80, nos Estados Unidos. Uma Dança do Ventre descomprometida com a estética cultural árabe, mas aberta a influências multiétnicas, tendo, porém, posturas e vocabulário gestual base bastante específico e determinado.

O Tribal é como uma criança índigo, superdotada. Um estilo tão recente e já tão espalhado mundo afora, multifacetado, com dezenas de ramificações e sub-estilos.

Tudo tem um início e nada surge do nada. Claro que o Tribal teve suas influências históricas que embasaram sua filosofia estética, mesmo antes de ganhar este nome.

Chegando em São Francisco, Califórnia (EUA), é bem fácil perceber por que o Tribal surgiu ali. Rapidamente, encaixamos as peças do quebra-cabeça. Respirando o ar libertário e multiétnico de São Francisco, percebendo o peso de sua história hippie, passeando pelas ruas do bairro gay, comendo em restaurantes de diferentes nacionalidades, ouvindo as mais diferentes músicas e apresentações artísticas na rua, comprando no supermercado vegetariano.... É fácil entender que ali, a arte não será facilmente rotulada, o conhecimento não será colocado em caixas para ser repassado sem se transformar, sem ser reinventado, questionado, desconstruído e acrescentado da essência de quem o utiliza. 

Para se aprofundar no tema, e entender como as coisas se desenrolaram, acho que vale a pena pensar em toda a trajetória de evolução da dança do ventre nos Estados Unidos, desde a primeira apresentação de dança do ventre na Feira Mundial de Chicago em 1893, passando pela história da imigração dos povos árabes, o surgimento dos cabarés, a glamourização do estilo por Hollywood, o movimento hippie... A capacidade que tem o povo americano em transformar qualquer coisa em produto, de explorar o aspecto comercial de cada coisa existente. A dança do ventre se encaixa e se adapta aos tempos, às circunstâncias, ao gosto de quem faz e de quem assiste e por isso ela atravessa os milênios e continua a evoluir, porque tem em si a tradição e a modernidade, o ancestral e o visionário.

O Estilo Tribal se diferencia em diversos aspectos da dança do ventre considerada tradicional ou clássica. Pensando na evolução da modalidade ao longo do século 20, a dança do ventre tradicional/clássica se desenvolveu no ambiente urbano, seja no Egito ou nos Estados Unidos, nas apresentações de cabaré ou em teatro, em ambiente fechado, sofrendo refinamento estético para a tela do cinema, correspondendo às expectativas de um público majoritariamente masculino e de classe alta. O Tribal retoma o feeling das danças em praça pública, dos mercados, do céu aberto, da dançarina cigana, selvagem, de pés descalços. Buscando uma ancestralidade e uma beleza oriental existente no imaginário coletivo das mil e uma noites. Mesmo que em teatro ou ambiente fechado, existe a evocação deste conceito através dos elementos estéticos de cena, figurino e música. Contrapomos os arquétipos da dançarina elitizada X selvagem; Refinamento X Instinto; Strass X Moedas; Urbano X Deserto; Eva X Lilith.

Carolena Nericcio, “creditada como codificadora do primeiro estilo de dança e formato a levar o nome de dança do ventre tribal” (wikipedia.org), foi aluna de Masha Archer, que foi aluna de Jamila Salimpour. Esta árvore genealógica, demonstra, através da obra de cada uma destas artistas, a evolução da dança do ventre californiana, desde a década de 70. Elementos estéticos que se mantiveram, apesar de modificados, e que acabaram por fundamentar o estilo: A concepção cênica de grupo, inspirada no contexto cênico dos povos do deserto do Norte da África e Oriente Médio (Ciganos, Beduínos e Berberes); A utilização de figurinos inspirados na estética exuberante destes povos nômades; O vocabulário gestual que, aos poucos, foi sendo codificado, revisto e ampliado em suas posturas e movimentos. A criação de uma linguagem corporal única, funcional para improvisos em grupo, apresentações impactantes, alegres, coloridas e ricas em dinâmicas e elementos cênicos. Eis o porquê de o estilo ganhar o nome de “Tribal”.

Bal Anat


SF Classic Dance Troupe


FatChance BellyDance


Num seguinte momento, Rachel Brice foi aluna de Jill Parker, que foi aluna de Carolena Nericcio. Na contra mão da dança coletiva, trazendo de volta à cena a dançarina solista, coreografada e permitindo que outras modalidades de dança permeassem suas novas criações, embasadas já nos princípios técnicos da Dança do Ventre Tribal. Experimentar e fundir novos elementos. Trazer de volta a dança cabaré, o arquétipo da encantadora de serpente, a dançarina misteriosa, exótica e tecnicamente minuciosa. Assim surgiu a “Fusão Tribal”, ou “Tribal Fusion” em inglês. Estilo que explodiu mundo afora através da imagem de Rachel Brice na internacionalmente difundida cia de dança BellyDance SuperStars. A partir daí, muitas outras grandes dançarinas se projetaram e muitas fusões foram experimentadas, desde com danças étnicas como indiana e afro, como com outros conceitos cênicos como Vintage ou Dark Fusion.

Ultra Gipsy


Rachel Brice


Ariellah


Aqui no Brasil, eu, Nadja El Balady, estudo o Estilo Tribal desde 2005. Naquela época, conseguíamos captar a essência filosófica da estética Tribal, mas não tínhamos absolutamente nenhum direcionamento técnico para isso. Ainda hoje, muita gente estuda pelo youtube e não tem acesso a uma professora com uma formação consistente no Estilo. Eu lembro que a vontade de criar e de conhecer outras pessoas no Brasil que se interessassem por isso era muito grande. Todas nós que fomos pioneiras e nos esforçamos bastante para ir aos eventos umas das outras em todo o país, nos esforçamos por compartilhar conhecimento, nos esforçamos por criar uma cena. Acho que posso considerar que este esforço tenha dado frutos. Hoje em dia, muitas de nós conseguiram uma boa formação e desenvolvemos estilo próprio, debatendo escolhas e direcionamentos estéticos, cada uma com seu núcleo e trabalho em evolução. Novos festivais, novos grupos, diferentes profissionais despontam no mercado, indicando que mais gente procura o estilo, que ainda temos muito trabalho a fazer e que não tem mais volta. 

Nadja El Balady


O Tribal é um fenômeno mundial. Por manter a essência do feminino arquetípico universal da dança do ventre. Por sua amplitude, por suas infinitas possibilidades de criação. Pela beleza estética e pela excelência técnica a que exige dedicação. Cabe à dançarina neófita buscar suas raízes, sua história. Seu embasamento técnico respeitando a evolução do seu estilo. Mergulhar de coração no estudo para dominar sua linguagem e com isso, poder melhor se expressar sua individualidade na arte, de maneira consistente e única.

Loko Kamel Tribal Dance


Nadja El Balady
nadjaelbalady@gmail.com


Nadja é professora graduada em Dança e se dedica há 19 anos a estudar danças orientais. Trabalha com Tribal desde 2005 e organizou por 4 anos, no Rio de Janeiro, o primeiro festival de Dança Tribal do Brasil: “Tribes Brasil” (2008 – 2011). Nadja é FatChance BellyDance® Sister Studio, tendo feito a formação de ATS® (American Tribal Style®) em São Franciso, Califórnia em 2012. Fez imersão completa com Rachel Brice no Shaman’s Fest em 2014. Estudou com outros grandes nomes do Tribal Fusion como Rose Harden, Zoe Jakes e Sharon Kihara. Dirigiu o primeiro grupo de ATS® do Brasil: a “Tribo Mozuna” (2009 – 2012). Dirigiu a “Cia Caballeras” (2009 – 2011) e coreografou os espetáculos “Tribal Gênese” e “Carpe Noctem”. Nadja é pioneira na fusão do Tribal com Danças Brasileiras como Maracatu, Afoxé, Coco de Roda, Jongo, Cavalo Marinho e Frevo. Hoje, dirige o Oriental Studio de Dança, mantém Cursos de Formação em Dança do Ventre tanto tradicional quanto tribal, e dirige o grupo “Loko Kamel Tribal Dance” de ATS® e Fusão no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Sobre shows de Dança do Ventre

Já me perguntei várias vezes por quê eventos que oferecem apenas o show não enchem tanto o quanto se espera e concluí que: primeiro, quase tudo vai pro YouTube e segundo, as pessoas estão mais interessadas em dançar na mostra ou no concurso do que assistir a bailarinas e grupos profissionais.

Felizmente, há exceções, ou seja, existe gente interessada em ver somente esse tipo de show, mas, como disse, são exceções. Mesmo que exista um convidado especial, muitas vezes, não é o suficiente para atrair muito público. Dessas minhas reflexões, eis algumas hipóteses que se aplicam à maioria (repetindo, há exceções), depois de ouvir e conversar com várias pessoas sobre o assunto:

- Alunas só vão em shows se forem dançar; nem sempre a presença da professora as mobilizam
- As professoras não divulgam os shows das colegas de profissão entre as alunas
- Existem shows muito mal feitos e desorganizados
- Não há dinheiro pra fazer tudo
- Tudo vai para o YouTube

Claro, surgem perguntas que nunca consegui achar resposta:

- Se você é uma aluna, sem intenções de profissionalização, por que não participar dos eventos, por puro prazer de assistir? Os ingressos são tão caros assim? [Acho que não, particularmente]
- Se você é uma aluna que quer profissionalizar, deveria participar mais dos eventos não apenas dançando, mas assistindo produções e danças diferentes. Inclusive, já soube que tem faculdade de dança, onde exige-se um número mínimo de presença em espetáculos de dança, pois faz parte da formação do bailarino.
- Se você é uma profissional de dança, por que não prestigiar o trabalho de outras profissionais e contribuir para fortalecer o próprio mercado? Depois, você fica ouvindo que o meio é desunido. Desunido, por quê e por quem?

AMO YouTube pois, através dele, conheço o trabalho de pessoas que estão longe de mim e divulgo o meu, além de rever danças que eu assisti ao vivo. Mas ele NÃO substitui e NUNCA substituirá uma dança realizada ao vivo.

Dá uma olhada nesse post aqui.

Por uma dança mais unida e forte.
Bauce kabira,
Hanna Aisha

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Charles Darwin e a Dança

Olá!

Livros sobre ciência estão sempre sendo lidos por mim, dentro do esperado. Mas minha mente não conseguiu se desvincular da dança ao ler "A expressão das emoções no homem e nos animais", de Charles Darwin (1872).

Não entendo de psicologia nem de neurobiologia, mas imagino que o conteúdo do livro deve estar bastante defasado. De qualquer maneira, consegui extrair dele algumas coisas interessantes para discutirmos aqui, em um blog de dança.

Uma das coisas que ele aborda é que "algumas ações, normalmente, associadas pelo hábito com certos estados de espírito, podem ser parcialmente reprimidas pela vontade, e nesses casos, os músculos que estão menos submetidos ao controle separado da vontade são os que mais tendem a agir, causando movimentos que reconhecemos como expressivos".

O que eu traduzi desse trecho, a partir do entendimento do livro como um todo, é de que as nossas expressões atuais resultam de muitas gerações associando um estado de espírito e uma forma de expressá-la. Por exemplo: se sentimos alegria, os músculos ao redor da boca se arqueiam para cima.

Não vim aqui discutir o certo ou o errado dessa afirmação, mas definitivamente, essa ideia me fez pensar no que acredito muito e sempre ensino às minhas alunas: para executarmos um movimento novo dentro da dança, precisamos raciocinar em cima dele, gerar uma intenção, entender a técnica e não simplesmente, copiarmos sem saber o que se está fazendo. Já tentou de, em vez de só copiar sua professora, pensar sobre o que está fazendo? Ter essa intenção ajuda a gerar memória muscular e treinando, pensando sobre ele, em breve, ele sairá de forma automática; você só dará o comando e não mais pensará durante o movimento, preocupada em como executá-lo.

"De todos os fatos que apresentei, resulta que os sentidos, a imaginação e mesmo o pensamento, por mais elevado e abstrato que o consideremos, não podem ser exercidos sem despertar um sentimento correlativo; esse sentimento se traduz diretamente, simpaticamente, simbolicamente ou metaforicamente em todas as esferas dos órgãos exteriores, que o exprimem segundo seus modos próprios de ação, como se cada um deles tivesse sido diretamente afetado". Pierre Gratiolet

Concordo com ele, mas acho que essa ideia pode ficar restrita apenas à sua vida pessoal. O mesmo raciocínio do Darwin pode ser utilizado para o treinamento da expressão no geral. Expressão também se treina e fica menos à mercê do seu sentimento no momento.

O que eu entendo de "dançar com a alma" é dançar por prazer e por escolha. Não precisamos dançar e deixar o sentimento do momento transparecer durante sua dança pois nem sempre ele será de alegria ou satisfação. Ou todo mundo aqui nunca dançou triste, nervosa ou preocupada? Se sim, conseguiu disfarçar isso? Como?

Sugestão de leitura:

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sexta-feira, 1 de maio de 2015

(De novo) Sobre profissionalismo em Dança

Oi, pessoas!

Quem me conhece ou acompanha meu blog, sabe o quanto falo sobre a necessidade de melhorarmos nosso querido mercado em Dança do Ventre e Folclore Árabe.

Não consigo entender por quê tanta dificuldade de enxergar a Dança do Ventre/Folclore Árabe como uma profissão. Veja bem, profissão. Só porque é um hobby para você, não significa que os envolvidos estão também em um hobby. E não importa se a Dança é uma segunda profissão, como é meu caso; levo tão a sério quanto à minha primeira profissão, só que divido o meu tempo de dedicação de forma desigual porque eu escolhi não viver de dança. Tudo que produzo, realizo, oriento é feito de forma profissional e cuidadosa, o qual eu tento aperfeiçoar o tempo todo, principalmente, quando me vejo frente a desafios ou críticas novos. Pensei em escrever um post grande e mais detalhado, mas decidi ser objetiva. Vamos lá.

O post não é sobre mim, mas sobre a necessidade URGENTE de diminuirmos o amadorismo que cerca (talvez, inunda) nosso mercado. Logo, vou fazer perguntas básicas e tentar dar respostas a elas em forma de outras perguntas:

- Por que você acha que deve pagar a mensalidade da aula regular que você frequenta o dia que você quiser?
- Por que você acha que não devia pagar multa se você atrasar o pagamento da mensalidade?
- Por que você acha que deve pagar workshops em quantas vezes você achar conveniente para você e/ou quando você quiser?
- Por que você acha que deve haver desconto em tudo relacionado à dança?
- Por que você acha que não deve pagar a mensalidade de janeiro da escola que você frequenta?
- Por que você acha que determinada roupa/aula está cara em relação ao da outra grife/bailarina?

Respostas em forma de pergunta:

- Por que você não pergunta pro curso de inglês que você tá fazendo se você pode pagar depois?
- Por que você não pergunta ao fornecedor de luz da sua cidade se eles podem te abater a multa, já que você preferiu viajar à pagar sua conta com eles?
- Por que você não pergunta pra aviação que uma produtora vai usar para trazer sua bailarina preferida à sua cidade se eles podem dar um desconto?
- Por que você não pergunta pro teatro que você vai dançar no fim de ano se sua professora pode pagar quando ela receber dinheiro suficiente para pagar tudo, inclusive a blusinha que você ganhou?
- Por que você não pergunta ao síndico do seu prédio por que você deve pagar condomínio se você vai ficar o mês todo fora do país?
- Por que você não pergunta para a MAC por que sua maquiagem é tão mais cara que a marca que vende na farmácia?

Ah, Hanna Aisha, você está culpando as praticantes de alguma coisa? Não. A culpa do mercado estar assim é de todos os envolvidos.

- Por que quase tudo que é produzido em Dança do Ventre é feito no boca a boca?
- Por que contratantes e contratados têm medo do contrato propriamente dito?
- Por que as bailarinas ainda se submetem a condições precárias para dançar ou dar aula?
- Por que não realizar eventos de real qualidade para público e bailarinos?
- Por que "lançar" para o mercado meninas imaturas e despreparadas emocionalmente só por que elas dançam bem?
- Por que a aluna pode pagar quando puder ou quiser?

Todos os envolvidos em Dança já cometeram erros semelhantes, inclusive eu. E, com certeza, existem vários outros que não citei aqui. Por isso, tanta gente continua reclamando que nossa profissão é amadora e a consequência mais grave que eu vejo disso é o público leigo (ou outros profissionais de dança) não respeitar a profissão. Ou vocês acham que um conjunto de erros como esse não é percebido de alguma forma?

Como de praxe, não vim aqui colocar o dedo na cara de ninguém e nem dizer que nossa profissão é lixo. Pelo contrário. Sou super otimista com relação à melhora dessa profissão porque em apenas em 15 anos praticando-a, vi melhoras substanciais. Queria tentar ajudar a sacudir as pessoas de algum jeito, até porque eu fui sacudida em momentos importantes e foi fundamental para o aperfeiçoamento do meu trabalho como bailarina, professora, aluna ou produtora. Deixo aqui duas perguntas para reflexão:

- Por que é tão difícil se colocar no lugar um do outro?
- Por que o profissionalismo não se desenvolve na mesma velocidade que a técnica/conhecimento?

Vou deixar aqui embaixo os links de alguns posts que escrevi aqui no blog sobre o mesmo assunto:


Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 1 de novembro de 2014

O que é folclore árabe?

Querida bellydancer,

É impossível resistir; em algum momento, você vai esbarrar com o folclore árabe. Estudar Folclore Árabe é uma das coisas mais difíceis dentro da nossa dança pois a nossa principal referência é o trabalho de Mahmoud Reda, grande bailarino e coreógrafo responsável, durante décadas, pelo Reda Troupe, uma companhia de balé egípcio que existe até hoje. Como o próprio nome diz, é uma companhia de balé e, por conta disso, tem licença poética para levar aos palcos vários tipos de folclore que o próprio Reda pesquisou em campo, no Egito. Então, fica a pergunta: o que é folclore árabe? Apenas o que o Reda desenvolveu? Como aprofundar? Não há como saber/estudar outras nuances?


Existem alguns tipos de folclores que podem ser levados aos palcos com mais autenticidade pois são ainda muito vivos e presentes no cotidiano de povos que temos acesso mais fácil, como o Dabke Libanês:


Quais seriam as modalidades que se encaixariam no quesito "Folclore Árabe"? É, existem algumas polêmicas com relação a isso pois algumas são consideradas "dança popular" por algumas bailarinas enquanto outras, categorizam como folclore, como o balady. E outras não existem como manifestação folclórica e sim teatral, como o meleah-laff:


Já a Dança Said é um exemplo de folclore em que as mulheres se apropriaram e levaram para os palcos, apesar da inspiração vir de uma dança masculina, o tahtib:


Munira Magharib diz em seu DVD de Balady que para você dançar bem uma dança, é preciso entender a fundo o seu povo, senão você acaba fazendo apenas uma encenação, uma representação. E até aí, tudo bem, não há problema nisso. A Dança Fallahi é um exemplo claro de representação/encenação e a minha, não seria muito diferente, principalmente, se ela está sendo executada em um palco:


Qual seria o problema que algumas bailarinas com quem conversei já detectaram? Temos visto um excesso de licença poética que estão dando aos folclores, principalmente em concursos. E também é muita responsabilidade dizer que sua performance folclórica é tradicional. Isso tudo que disse antes não deveria te impedir de dançar folclore árabe, contanto que seja bem estudado e embasado. Você também pode colocar um excesso de licença poética no seu folclore, contanto que isso fique bem explícito na sua proposta. O trabalho da Nagla Yacoub é um exemplo muito claro do que acabei de explicar:


O que está errado é dizer que você pode fazer o que quiser e colocar suas impressões/sentimentos/gostos pessoais na sua performance folclórica. Por exemplo, existe código de figurino folclórico sim, assim como de estrutura musical! E quem diz que não existe código de figurino para funk ou samba não sabe o que está falando. Como a Nilza Leão mesma diz, o que nos parece fantasia de palco, para os árabes não é!

Voltando à pergunta inicial: o que é folclore árabe? Apenas o que o Reda desenvolveu? Não há como saber/estudar outras nuances? Na minha opinião:

- Folclores árabes são as manifestações específicas de regiões que pertencem aos países do Oriente Médio, que exigem determinados figurinos e músicas e que representam uma tradição/cultura local ou carregam algum simbolismo. Exemplos: Said, Fallahi, Núbia, Hagalla, ZaffeGhawazee etc. Para nós, que vemos de fora, tudo parece "exótico, étnico". As danças populares seriam uma expressão cotidiana como, por exemplo, Shaabi, Balady, KhalijiDabkeMambouti/Semsemeya. Mas isso não é consensual, ok? Acho extremamente difícil fazer essa classificação, do ponto de vista ocidental mesmo. Eu uso essa por questões didáticas. O próprio  termo "folclore" é bastante ocidental.

- Não, o Reda não pode ser sua única referência de folclore porque o que ele desenvolveu é bastante ocidentalizado perto do que é "real". Mas é um ponto de vista que apareceu a partir de suas pesquisas de campo.

- Sim, há como saber/estudar outros "pontos de vista" sobre folclore, já que alguns são bem difíceis de acessar. Cada vez mais existem profissionais qualificados em folclore; alguns conseguem ir nos países de origem para estudar e isso pode facilitar bastante entender/captar esse "espírito" que, comumente é difícil de entender, pois não é nossa realidade. Pesquise/procure por esses profissionais, não se prenda ao senso comum pois você pode (irá) se surpreender!

Por mais ousadia e menos medo porém, por mais estudo!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Estilo brasileiro de Dança do Ventre?

Eu ouvi de uma bailarina, que o estilo brasileiro de DV estava surgindo mas nunca havia parado para pensar como e por quê, acho que não prestei muita atenção na época. Alguns anos depois, Hossam Ramzy diz que, atualmente, as melhores bailarinas de DV são brasileiras [nossos egos inflam]. Por quê será que ele disse isso? [não perguntei porque não cabia na hora, apesar de ter ouvido isso ao vivo]

Coloquei aqui uns vídeos tentando representar cada uma das cinco partes do nosso país continental para pensarmos juntas nessa história. Gente, não preciso dizer que é difícil escolher vídeos muito representativos. Nós sabemos que existem diferentes trabalhos dentro de uma mesma região, mas vou colocar vídeos que eu gostei. Sem estresse.

Representando o sudeste, escolhi a Kiania (SP) para representar a DV que a galera tem tendenciado a fazer:


Para representar o sul, coloquei um vídeo da Vanessa Castro (PR), trabalho que eu costumo gostar de ver porque sua leitura me agrada:


Para representar a região norte, escolhi a Adriana Amazonas (AM):


Para o centro-oeste, escolhi a Dunia (DF)! Adoro!


E, finalmente, para o Nordeste, escolhi a Nuriel el Nur (RN):


O que será que há em comum entre todas nós, brasileiras: beleza, carisma, quadril solto, desenvoltura? 

Como a Daiane Ribeiro escreveu em seu blog, se "a dança do ventre não é um patrimônio nosso, devemos ser realmente uma cópia fidelizada das egípcias? Há necessidade de mantermos um bom senso, de nos esforçarmos para manter essa identidade original?" Acho que podemos (não sei se devemos) criar uma identidade própria, pois nosso maior público está aqui e inevitavelmente, como a Vivi comentou lá, a DV ganha elementos culturais de acordo com o lugar onde se estabelece (você já leu a tese de doutorado da Roberta Salgueiro?). De quê adianta apresentar algo tão genuíno se o público para o qual você trabalha pode não se identificar (e, provavelmente, com isso, não ficar atraído)?

Porém, a necessidade de entendimento da cultura árabe deve se mantida, pois é nela que nos inspiramos para passar um trabalho sólido, tanto na sala de aula quanto no palco, já que o conhecimento bem estruturado nos dá segurança e liberdade de modificarmos o que nos interessa, a fim de criarmos nosso próprio estilo.

Você acha que existe um estilo brasileiro? Fique à vontade para opinar!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 3 de agosto de 2014

Transformações que a dança traz

Post a pedido de Karin Ferri

Olá!

Todas nós escolhemos fazer a Dança do Ventre por motivos variados: atividade física, dançar para o companheiro, profissionalização, curiosidade... e digo que, quase com certeza, todas nós acabou se apaixonando por ela. Por que será?

Esta dança permite que a pessoa (sim, homens também podem fazer) desenvolva feminilidade, sensualidade, auto-estima e amor-próprio por ser uma dança democrática em que idade, peso ou tipo físico não importam, apenas sua emoção e prazer em dançar. Não importa seu objetivo: é sempre alegria, entrega, união e emoção, pois o povo árabe é muito expressivo e orgulhoso de si.

Quantas de nós temos histórias positivas sobre o quanto a Dança do Ventre nos trouxe? Eu tenho inúmeras!

Novas amizades

Eu diria que é um dos primeiros e mais rápidos presentes: conhecer novas pessoas e, algumas delas, com capacidade de se tornarem amigas pessoais, para sempre.

A dança é capaz de unir pessoas de diversas personalidades, lugares e histórias porque a liberdade que ela desenvolve dentro de você acaba lhe tornando mais aberta a receber e trocar, o que acaba lhe aproximando mais das pessoas ao seu redor.

Além disso, é quase impossível não se unir dentro de uma sala de aula em que todas estão dispostas a se superar, não importa o motivo.

Superação física e/ou emocional

Devem existir inúmeras histórias de superação de todos os tipos e graus. Por quê? Porque a Dança do Ventre, sendo bem conduzida, além de nos oferecer mais coordenação motora, alongamento e flexibilidade também nos torna mais vaidosas, menos tímidas, mais seguras. Abaixo um vídeo que exemplifica uma grande superação:


Momentos emocionantes

Esses momentos emocionantes podem ir desde a percepção da superação do corpo com determinado movimento durante a aula até a conquista de um grande concurso! Tenho maravilhosas lembranças de muitos momentos incríveis, que só foram possíveis de acontecer por conta da dança. Aqui, eu compartilho, um dos primeiros grandes momentos emocionantes que eu passei com a dança, que foi ficar em terceiro lugar na categoria amador de um grande concurso nacional:


Saúde

Esse item é um pouco mais subjetivo para mim, pois a superação de um problema de saúde nem sempre pode ser alcançado sem orientação médica e medicamentos. Mas, como acredito que muitos problemas de saúde são apenas somatização de problemas psicológicos, a dança pode vir a ser um complemento em um tratamento médico.

Permita-se! Não deixe que rótulos e padrões bloqueiem sua vontade de crescer, em todos os aspectos da sua vida! Dance! Divida aqui com a gente as histórias positivas que a Dança do Ventre lhe trouxe!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 23 de março de 2014

"Ter ou não ter DRT"

Post a pedido de Izza
Revisado em 04/01/2018

"O nome dela é Flatulah Khadufa.
Faz aulas de Dança do Ventre desde tempos imemoriais, então se auto-intitula bailarina.
...
Assim, penso: será que os leigos serão enganados para sempre?
Não, a moça não pode correr esse risco! Ela vai, com certeza, buscar algum tipo de certificação - no caso, o DRT (que para quem não sabe, é um documento que "capacita" artistas a exercerem sua profissão).
Sim, ela vai conseguir.
...
Afinal, se uma atriz global é capacitada como bailarina profissional, por que não ela, pobre Flatulah?
Ela, no fundo, sabe que o DRT não atesta sua capacidade como Belly Dancer.
...
E que, no fim, a única pessoa quem ela vai enganar com um título qualquer é ela mesma".

Para a história completa, ir no Blah do Fallahi.

Em qualquer emprego decente que eu arranjar,
meu CRBio será exigido para trabalhar como
bióloga.
"Ter um DRT" significa ter um registro perante ao Ministério do Trabalho como artista/bailarina e uma filiação em um sindicato de Dança. Como qualquer outra profissão reconhecida pelo MT, o registro é sua permissão para exercer a profissão, como todos os "CRs" que conhecemos. Como não existe nenhum Conselho da Dança, não temos "CRD - Conselho Regional de Dança" como os médicos possuem CRM e sim, o DRT, emitido pelos Sindicatos.

Lá no site do Sindicato de Dança do Profissionais do RJ (SPDRJ) eles dizem que o papel dele como instituição é (resumido por mim): "representar e defender os seus interesses junto à sociedade, portanto, concretiza a união dos trabalhadores de uma categoria profissional. Nós somos uma categoria diferenciada, especial e precisamos estar sempre atentos ao cumprimento das leis e normas que conseguimos, após longos anos de luta, conquistar. Você adquire o poder de voz e voto em Assembléias para definir os novos rumos do nosso Sindicato. A sua entidade de classe discute e busca soluções para a situação do seu emprego, o desenvolvimento do setor, as perspectivas da profissão. Incentiva e cria cursos que visam o seu desenvolvimento profissional e crescimento pessoal. Sem luta não haverá conquistas e nada nos será concedido".

Logo, dependendo do Estado brasileiro que você mora e do sindicato que tem (caso ele tenha um), se você quer fazer parte desta luta pela classe ou requerer financiamento público para seus espetáculos, você obrigatoriamente precisa do DRT. Mas, se você não se encaixa em nenhum desses requisitos, o DRT não serve para nada, pois não conheço nenhuma academia de dança (tomara que exista) que exija de suas professoras, o DRT.

Se eu entendi, o DRT é uma licença para trabalhar como bailarina?
Sim.

Então, eu não preciso de DRT para dar aulas?
Não.

Conclusão da história: do jeito que trabalhamos com a dança no momento, o DRT é absolutamente inútil, apesar de culturalmente, isso representar o "profissionalismo" de alguém [não farei aqui a discussão do que é profissionalismo, pois o tema é longo]. Mas se você quer fazer parte do crescimento dessa classe artística perante a sociedade, sim, você precisa ter o DRT para "entrar na roda" de alguma maneira oficial.

Essa história foi discutida na live que fiz com a Samra Sanches na minha conta no IG. O que você acha dessa história toda? Qual sua experiência?

Bom trabalho!
Bauce kabira,
Hanna Aisha

Dicas:

- Lá no blog da Lu Arruda, ela fala sobre ética e profissionalismo e ela diz que ser profissional na dança engloba ao menos três fatores: Conduta ética, Nível técnico e Tempo de carreira e/ou shows realizados.
- O SPDRJ sugerem uma tabela de cachês mínimos, dê uma olhada.

domingo, 9 de março de 2014

Nacionalidade na Dança do Ventre

Post revisado e reescrito em 19/09/2020

Nessa semana que passou, algumas pessoas compartilharam esse texto, em que a autora diz que "não aguentar bellydancers brancas" (não no sentido racista de cor, mas de país) porque, resumindo, a Dança do Ventre é do Egito e bailarinas não egípcias não sabem o que dançam ou como devem se vestir, são estereotipadas. Isso causou bastante desconforto entre as profissionais não egípcias, tanto que escreveram um outro texto contestando bastante o original. Vale dar uma olhada!

Apesar de parecer um consenso de que a origem da Dança do Ventre é na África (O Egito fica no norte), ela alcançou o mundo inteiro e hoje, é basicamente impossível engolirmos esse movimento "possessivo", que tenta mantê-la como propriedade única do Egito.

"Não há nacionalidade para a arte". Tratando-se de danças étnicas, como a Dança do Ventre, essa frase pode não caber, dependendo do contexto. Mas, foi inevitável; temos muitas bailarinas não-egípcias que são conhecidas mundialmente porque elas têm talento e uma história de busca e determinação. Quem imaginou uma latina (no caso abaixo, argentina) fazendo sucesso no Egito?



Temos a Jillina, também americana, trabalhando muito pelo mundo:



Alguns documentários já relataram a dificuldade de se formar novas bailarinas egípcias por conta desse novo conservadorismo religioso. Então, como manter a tradição da Dança do Ventre no Egito, que é um importante movimentador de dinheiro no país? Uma das soluções encontradas foi importando bailarinas! A Nour, bailarina citada no podcast, é asiática (russa), casada com um sírio e morando no Cairo, há muitos anos. E eles percorrem o mundo dando show. Alguém tem dúvidas de que ela merece estar onde está?



Os brasileiros costumam considerar os europeus como um povo frio e introspectivo. E o sentimento, por que não podemos compartilhá-lo? Afinal, todos nós somos seres humanos! Amor, alegria, satisfação, tristeza, são universais! Se não fosse, por que uma holandesa como a Anusch, consegue dançar tão bonito?



A Dança do Ventre atravessou muitas águas e agora divide espaço com cangurus e surf na Austrália! Por que não?



Não poderíamos deixar de citar nosso orgulho brasileiro: Soraia Zaied, que arrasa lá no Egito!



Nós, não-egípcias, criamos, adaptamos, reinventamos a DV, tudo baseado na nossa cultura e história pessoal. Tem problema isso? Sim, pode ser perigoso, por conta da apropriação cultural (que merece um post só dele). Reconhecer as egípcias como a fonte primária dessa dança é o primeiro passo para diminuirmos esse problema. Além disso, precisamos dessas referências para nos colocar "de volta no chão" e nos fazer refletir sobre o que é Dança do Ventre e por que a escolhemos.

Tem mais gente falando sobre isso, dá uma olhada: Amar El Binnaz, Dança do Ventre Brasil, Dunya. Também sugiro esse post da Nadja el Balady.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 12 de janeiro de 2014

Por que Dança do Ventre?

Feliz 2014!

Particularmente, para mim, o Ano Novo não me representa renovação. Minha vida é renovada dentro dos capítulos que eu inicio e consigo fechar, por exemplo: escola, graduação, mestrado, doutorado, emprego... Mas, de qualquer maneira, desejo que esse ano seja mais enriquecedor e mais leve que 2013! E retomo o blog com a seguinte pergunta: Por que você resolveu fazer Dança do Ventre? 

Cada um dos praticantes dessa dança (que dizem ser milenar) tem seus próprios motivos: se encantou com alguma música, livro, pintura, vídeo, dança; a família é árabe... uns mais clichês, outros mais específicos. Não importa: não há quase ninguém no mundo que não se sensibilize com a música árabe pela primeira vez e não imagine um mundo exótico de sonhos (vamos discutir o orientalismo depois em outro post?).

Quem aprendeu DV pelos anos 90, vivenciou outro mundo de "regras", figurinos, música e movimentos. Algumas bailarinas ainda mantêm algo desse "momento", são conhecidas por "old school", como a Yasmin Nammu:



E é justamente esse momento old school que algumas bailarinas que, hoje têm por volta de 15-20 anos de dança, contam que se apaixonaram por ela, dessa forma que era dançada. Suave, sensual, etérea, quase mágica. Hoje, essas mesmas bailarinas, reclamam, dizendo que "falta essência" na dança das bailarinas mais novas, que o excesso de técnica e de "strass" tirou.



E quem está certo nessa história? Hum... ninguém a meu ver. É questão de gosto mesmo. Tem público que gosta de performances mais do que "dança com sentimento". E vice-versa. Eu acredito que toda forma de expressão artística (também não discutiremos isso aqui hoje) tem seu espaço, mas garantir a popularização e o "sucesso" de todas é tarefa realmente difícil.

A questão desse post é fazer você refletir no que você quer dançar. Onde você se sente mais confortável? Você já tentou experimentar esse "retorno à essência"? Já tentou se desamarrar do que é moda e procurou sentir em você o que te dá satisfação? Já percebeu o que em você mais agrada ao público?

Convido a todos vocês a fazerem essa reflexão, não importa se você é aluna, profissional, professora, produtora. Saber o que lhe faz bem e que seus objetivos, em cima desse bem-estar, estão sendo atingidos, é o que pode tornar o seu 2014 mais enriquecedor e mais leve, como eu desejo. Sem frustrações e excesso de cobrança.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 28 de setembro de 2013

Duas carreiras

Post a pedido de Lucielle le Fay

A edição no. 11 da Revista Shimmie trouxe como matéria de capa o tema de que é possível conciliar duas profissões (uma delas, no caso, é a DV) e eu posso dizer, da primeira fila: "Sim, é possível!".

Eu apresentando pôster em congresso,
ainda na graduação. Já fazia Dança do Ventre.
Como a Tahya Brasileye disse no artigo, quando começamos a fazer aulas de danças orientais, não imaginamos onde iremos chegar. Com exceção das meninas que começam muito cedo na DV, é comum passar pela cabeça de bailarinas profissionais se elas devem largar suas profissões e se dedicar exclusivamente à DV, pois, confessemos: viver de dança é tentador (mas nem tudo são flores). Neste post, para facilitar a discussão, vou considerar diferentes profissões, aquelas não relacionadas à dança (ou seja, estou considerando ateliês, maquiagem, bijus, acessórios, etc como relacionados à dança).

Uma das coisas que elas escreveram: "Na execução das profissões, sabemos que o sucesso vem com a dedicação, a prática e o tempo, e quando exercemos mais de uma profissão, a dedicação aumenta e o tempo fica mais disputado".

Eu diria que esse é o maior problema para conciliar duas profissões: dedicação. Porque não basta "ter um tempo sobrando". É preciso mais tempo em absoluto, para que a dedicação renda frutos de verdade e esse, particularmente, é o meu funil. Não tenho tempo suficiente para me dedicar como deveria às duas profissões e acabo escolhendo a minha primeira, que é de bióloga (atualmente, estou terminando meu doutorado em Bioquímica na UFRJ). Então, a dança, acaba ficando restrita ao tempo que me sobra e aos fins-de-semana.

Por muito tempo, me culpava por isso porque minha dança e minhas aulas (acho que mais a dança que as aulas) não eram do jeito que eu queria que fossem. "Preciso melhorar meu shimmie, meus braços, meus giros, minha expressão, tudo!". Daí para a frustração era um passo só. E sim, me senti frustrada, triste, desanimada durante a maior parte da minha carreira (que começou em 2008). Mesmo assim, nunca dei um tempo na dança porque eu sentiria muita falta e na verdade, nunca precisei parar por motivo de força maior.



As comparações eram inevitáveis: "Fulana tem o mesmo tempo que eu e dança muito mais!", "Fulana tem mais aluna!"... CLARO! Ela vive de dança! Demorei a entender isso, até eu ouvir de uma querida amiga bailarina: "Hanna, dentro do seu tempo disponível, você tem sim um trabalho muito bom como bailarina; você me acha muito boa, mas eu tenho obrigação de ser boa porque eu vivo de dança!"

Suspiro de alívio. Não é que era verdade? Isso diminuiu imensamente toda minha carga de culpa por não conseguir fazer tudo que eu queria fazer. Mas isso não significa relaxamento. Uma vez que eu escolhi ter a dança também como profissão, eu devo manter minhas obrigações em dia: estudar, treinar, dar boas aulas, fazer boas apresentações, cuidar do visual. Ou seja, a disciplina deve ser mantida.

Polímnia Garro, conhecida por nós, é arquiteta e atualmente, deu um tempo na dança para se dedicar ao que sempre foi sua escolha. Isso significa que ela parou e nunca mais vai voltar? Não, mas ela fez uma escolha que, com certeza, ela sabia que se sentiria mais plena nesse momento de sua vida:


Satisfação pessoal é outro importante fator que influencia a gente nessa escolha. Sou plenamente feliz trabalhando só com dança do ventre, "apesar de"? (tem gente que não aguenta os "apesar de"...) Se eu largar minha outra profissão, não vou sentir falta?

"Hanna, eu quero continuar fazendo as duas coisas, como faço?". Cai dentro! Ah sim, existe um preço a se pagar para manter suas profissões bem sucedidas! Os fins-de-semana e suas noites nunca serão iguais à de uma pessoa "comum" (até porque o de bailarina já é incomum). Lazer e boas noites de sono... muita coisa você abre mão, como a cervejinha, a televisão, o descanso mental mesmo porque você precisa assistir vídeos, ir pro workshop, treinar sua coreografia, ler blogs, etc.

Dedicação e disciplina são fundamentais, porém, se estamos mantendo as duas profissões, é porque a satisfação pessoal está sendo preenchida de alguma maneira. Se você está se aborrecendo demais em qualquer uma das suas profissões, podem estar acontecendo duas coisas: ou você está trabalhando nos lugares e/ou com pessoas erradas ou realmente, você precisa largar uma delas para ser mais feliz. Aí, é com você!

"Hanna, você já pensou em viver só de dança?" Claro que já, mas nunca de forma muito seria porque EU SEI que eu sentiria muita falta da Biologia na minha vida e eu não conseguiria colocá-la no patamar de hobby. E eu pensei de forma muito racional mesmo e percebi que existem muitos obstáculos na DV que eu, particularmente, não teria muita paciência de encarar. Logo, não foi muito difícil para mim.

Aqui, o vídeo da Lucielle le Fay, quem sugeriu este post e que está fazendo graduação em Biologia e já veio conversar comigo sobre isso:


Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 14 de abril de 2013

Idealização na DV

Povo, gostei muito do artigo da Juliana Camilo, psicóloga, que saiu na edição no. 14 da Revista Shimmie e resolvi postar para a gente refletir um pouquinho (os grifos são meus):

"Falamos muito sobre os benefícios da prática da dança do ventre: condicionamento físico, trabalho em equipe, autoestima, etc. No entanto, em alguns momentos, esta prática parece ocupar lugares perigosos no psiquismo das praticantes, desenvolvendo sofrimentos psicológicos que podem ser muito constrangedores, dolorosos e desorganizadores.
A psicanálise nos auxilia a pensar nestes sofrimentos, partindo de alguns conceitos básicos, como o desejo. Para Freud, o objeto de desejo nunca é real. Isso porque, nunca desejamos o objeto real, mas aquilo que esperávamos que fosse, o ideal. Na prática da dança do ventre, isso significa que para muitas, a busca da perfeição na dança, na coreografia e postura são, na realidade, reflexos do seu imaginário e da sua fantasia.
O que nos leva a esta linha de pensamento é o fato de que, na maioria do tempo, somos impulsionados por paixões, ou seja, idealizamos o "Outro" (a professora, a bailarina X ou Y, a dança em si), e passamos a percebê-la somente com características positivas. Deste modo, a idealização é uma forma de perceber e quem se admira de forma parcial, incompleta, irreal e (talvez) imatura. Forma perigosa de se conduzir, já que a pessoa apaixonada, prisioneira da idealização, supervaloriza o seu objeto de desejo, e se desvaloriza.
Quantas e quantas alunas e professoras não gastam mais do que podem em roupas, acessórios, concursos, festivais, workshops, CDs, DVDs, viagens, etc. Tudo para perseguir o seu ideal. Um dos grandes problemas neste percurso, depois de investir estes sacrifícios, é olhar para todo o caminho percorrido e se perguntar: "será que valeu a pena?"; "qual foi o sentido disso?": e sentir a tão dolorosa sensação de vazio.
Assim como numa relação amorosa, na medida em que conhecemos mais o "Outro", e a nós mesmos na sua companhia, descobrimos aspectos que não são tão perfeitos como esperávamos. Daí, o que se vê é uma série de alunas "pulando" de escola em escola, buscando algo que não se sabe bem o que é, como é e por que é. Então, o grande desafio é conseguirmos manter nosso amor (e não paixão) pelo outro em contato com suas contradições e falhas. Só podendo vivenciar sentimentos contraditórios pela mesma pessoa é que conseguiremos evoluir nossa capacidade de sentir. Portanto, quanto maior for a capacidade para tolerar as frustrações e aceitar que as outras alunas, outras professoras, outros estilos de dança, outras metodologias, são constituídos de elementos positivos e negativos, de aspectos bons e maus, mais madura a pessoa estará e, consequentemente, necessitará de menos idealizações".

Estou dividindo um momento muito particular meu na dança (talvez na vida): admitir e buscar por objetivos reais, concretos. Não falo aqui exatamente de sonhos, mas de objetivos mais breves e palpáveis e acredito que a idealização atrapalha, inclusive, esses planejamentos de curto prazo. Porque sonhar, a gente pode sonhar o que quiser. A questão é se você consegue se enxergar dando os primeiros passos. Enxergou, realizou os primeiros passos? Agora, você deve enxergar como se manter caminhando sem cair. Caiu? Agora, você deve enxergar como levantar. E assim vai...

É muito clichê o que vou dizer agora, mas direi porque é realidade: o tempo é o melhor remédio, sempre, para aqueles que batalham todos os dias por seus objetivos. Claro, que uma dose de "simancol" é necessária para algumas pessoas que não conseguem enxergar que aquele trabalho ou pessoa não lhes servem. Mas, no geral, ser afoito não é a melhor solução. E acredito que a confiança em si mesmo e no próprio potencial e princípios ajudam esses caminhos a ficarem claros mais rapidamente. Além da presença de pessoas que sabem nos orientar.

Considerando que você sabe o que quer da dança do ventre, ainda não chegou aonde você gostaria de estar? Então, faça a si mesma algumas perguntas antes:

- Eu estudo, treino, invisto o suficiente para atingir o objetivo que eu determinei?
- Sou aberta sinceramente a críticas?
- Me relaciono com as pessoas certas?
- Minha postura é considerada adequada ao meio?

Se sim, amiga, RELAXA. Seu momento vai chegar!

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 7 de abril de 2013

Encontre sua arte!

Olá, gente!

Recebi o vídeo abaixo para apreciação e fiquei abismada com tamanha criatividade (nem estou me referindo à qualidade da dança em si). Acho que foi um dos melhores que já vi na vida:


Daí, dias depois, eu leio o texto da Jacqueline Braga na edição no. 15 da Revista Shimmie e um trecho meu chamou a atenção (grifo meu): "Vivemos num mundo em que é mais fácil criticar do que aplaudir! Eu gosto de acreditar que aplausos trazem aplausos e, quanto mais aplaudimos o outro, mais seremos aplaudidos, porque cada pessoa tem seu brilho próprio, como uma estrela que não pode ser copiada, e que não vai tirar o lugar de nenhuma outra estrela".

Não me importo muito com a definição de Dança do Ventre: se é Raks Sharq, Bellydance, Dança Oriental... assim como o nome dos movimentos. Hoje, depois de considerar meu olhar mais maduro, me importa a expressão artística em si. Logo, vem a pergunta para vocês: isso é ou não é Dança do Ventre?


Não tenha medo de tentar fazer aquela aula que você tanto gostaria ou de colocar suas ideias em ação; sempre haverá alguém para criticar negativamente. Não estamos aqui discutindo bom gosto ou qualidade técnica mas sim, ousadia.

Dança é vida! Arte é vida! Encontre a sua!
Bauce kabira,
Hanna Aisha

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Estereótipo x Aprofundamento

No ano de 2012, refleti muito sobre meu papel como professora e bailarina e na verdade, ainda não cheguei em uma conclusão muito clara sobre que quero para mim na Dança do Ventre. É muito evidente para mim mesma que trabalho muito e busco aprimorar minha técnica no geral (expressão, figurino, etc estão incluídos) e que passo isso para quem tem aula comigo. Assim, como procuro saber muito sobre a cultura, acompanho o trabalho de várias bailarinas, enquanto outras são fontes minhas de estudo... mas, e daí? Quem realmente se importa se said é balady, se o ritmo é masmoudi ou se Dança Tribal não é Dança do Ventre?

Nós mesmas! Porque o povo, quer mesmo é ver isso aqui:



Daí, me veio a pergunta: para quem eu quero trabalhar e realmente ganhar dinheiro e ficar satisfeita emocionalmente? Pro povão ou pra bailarinada? Essa pergunta faz parte do seu autoconhecimento e dos seus objetivos dentro da dança que toda bailarina deve manter para permanecer no mercado.

Não sei. Talvez eu prefira o meio do caminho e por mais que em todos os meus shows, eu dê uma programação explicando as danças, sempre que existe uma abertura, eu falo sobre o assunto, porém não sei até onde o povo quer aprender sobre cultura e danças árabes. Daí minhas dúvidas até hoje.

A coisa mais estereotipada que fiz foi uma coreografia para a filha da minha amiga e acho que para criança, combina bem:


Mas, afinal, quem está ganhando mais dinheiro, não é mesmo? Porque para ganhar dinheiro com o povo você não precisa de um figurino da Simone Galassi nem fazer workshop com Gamal Seif. Mesmo.

Pra pensar.
Bauce kabira,
Hanna Aisha