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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Alexandria

Olá!

Dessa vez, iremos novamente ao Egito. Conheceremos um pouquinho sobre a ex-capital do Egito e sua segunda maior cidade em população e onde está seu maior porto: Alexandria.

Alexandria foi uma das cidades mais importantes do mundo e recebeu esse nome porque foi fundada pelo general grego Alexandre, o Grande. Por estar entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho, a cidade foi um ponto de encontro importantíssimo entre a Europa, a África e a Ásia.

É lá que se encontra uma das sete maravilhas do mundo antigo, o Farol de Alexandria; a maior biblioteca do mundo antigo, a Biblioteca de Alexandria; e uma das sete maravilhas do mundo medieval, as catacumbas de Kom el Shoqafa.

Após a morte de Alexandre, iniciou-se a dinastia do Ptolomeus, a qual Cleópatra (69-30 AC) foi a última da linhagem a governar o Egito.

Após alguns séculos de altos e baixos, Alexandria ressurgiu como grande metrópole à época das Cruzadas por conta do comércio com os aragoneses, genoveses e venezianos, tornando-se o centro da distribuição de especiarias nos séculos XIV e XV. Maomé Ali reconstruiu a cidade no século XIX, após seu declínio comercial no século 16. No século XIX, o exército britânico instaura o protetorado britânico sobre o Egito, que só acabará no meio do século 20.

Hoje, Alexandria é um importante centro industrial por causa do gás natural da cidade e dos poços de petróleo e é a principal estação de veraneio e atração turística, devido às suas praias públicas e privadas, além dos museus e sítios arqueológicos.

Uma das principais atrações turísticas que começa todos os anos na cidade é o "Cross Egypt Challenge", iniciado em 2011. É um rally cross-country internacional de motocicletas e scooters realizado nas trilhas e estradas mais difíceis do Egito.

Se você já faz parte do mundo do Folclore Árabe, com certeza, já ouviu falar sobre essa cidade e sobre as danças portuárias Mambouty e Meleah Laff. Nesse vídeo, eu e Eliza Fari representamos uma situação do porto de Alexandria, em que o marinheiro recém-chegado e bem feliz por retornar à sua terra natal, avista uma bela egípcia, onde juntos, passam a flertar um com o outro:


E aqui, um documentário super legal:


Fontes: Wikipedia

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Dança Fallahi

Olá, queridos leitores!
Estava devendo um post sobre Dança Fallahi!

Fallahim = "camponeses" em árabe. A maioria do povo baladi das cidades são fallahim. Eles estão localizados no Delta do rio Nilo, acima do Cairo.

A dança Fallahi tem variações regionais, mas a mais comum é a que se refere à colheita, pois foi difundida pela Trupe Reda. Nos shows folclóricos egípcios, eles costumam aparecer na parte cômica do show, pois eles são vistos como uma "família Buscapé". Uma analogia conosco, seriam os caipiras.


Dentro dessa dança, utiliza-se um vestido bem rodado até o pé com mangas compridas ou não de estampa lisa, listrada ou com motivos geométricos ou florais e com babados. Pode colocar flores na cabeça, véu, pompom.


O ritmo costuma ser o fallahi, que é um maksoum modificado, mais acelerado (ritmo árabe dos camponeses egípcios - dum kaka dum ka - pode ter variações) e binário e os gestos representando o cotidiano como arar a terra, pegar água, cuidar de animais, etc. O Jarro é apenas um elemento cênico, como poderiam ser as flores, o cesto, etc.


Se possível, ao escolher sua música, procure saber a letra, caso seja cantada. Use aquelas em que exaltam seu país ou falam de seu cotidiano, pois são contagiantes e representam a alegria de um povo. É preciso habilidade, equilíbrio e boa expressão facial, pois é uma dança teatral.

Fontes: Anotações pessoais de aulas com Maira Magno, Melinda James.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dança Meleah-laff

Afinal, que dança é essa?

Comentei sobre essa dança lá no post de Dança Balady porque ela é, de certa forma, uma dança balady. Existe esse mito, de que é uma dança surgida no início do século XX, em que as mulheres realizavam para atrair os marinheiros do porto. Se você for lá no post sobre Semsemeya, essa frase vai fazer mais sentido. Claramente, ocorreu uma má interpretação ao longo dos anos.

Foi uma dança que, durante muito tempo, foi "vendida" como um folclore típico do Egito. Hoje, o que se diz é que foi uma performance criada pelo bailarino e coreógrafo Mahmoud Reda, inspirada na mulher balady que é feminina, cômica e sensual:


O figurino dessa dança foi inspirado em um traje tradicional muito usado pelas mulheres no Egito, no início do século 20, nos grandes centros urbanos do Egito, como Cairo e Alexandria. O véu era preto, feito com tecido grosso, escuro e pesado, enrolado ao corpo, da cabeça aos pés, como sinal de respeito e dignidade. Um acompanhamento usual desse traje era o chador.

Cairo e Alexandria foram grandes cidades em termos de difusão cultural e temos 2 tipos de meleah, que representam essas cidades. No meleah do Cairo, o vestido é mais ousado e a dança é mais alegre, solta, extrovertida. Geralmente falam de amor ou cotidiano:


O Meleah do litoral é conhecido como Dança da Alexandria (iskandarani) e a bailarina utiliza vestidos mais curtos e músicas que falam muito do mar, da vida dos pescadores. Na década de 40, Alexandria era a principal cidade de veraneio do Egito. Os turistas eram atraídos pelas praias e pelos balneários elegantes. O meleah estava na moda e compunha o vestuário das mulheres, mas o clima quente obrigavam-nas a usar vestidos leves e o lenço deveria protegê-las de olhares maliciosos. Você pode identificar esse tipo de meleah ouvindo as palavras iskandarani, buró, meleah, galabia e a dança é mais discreta e "calma" do que a meleah do Cairo:


Música para Meleah-laff não é nada fácil, caso você ache que colocar qualquer música do Hakim será o suficiente. Por ser uma dança inventada, o ideal é você escolher músicas criadas para dança Meleah-Laff e não qualquer shaabi ou pop egípcio. Um ritmo que é encontrado comumente nas músicas para meleah é o ritmo malfuf acelerado (fallahi).

E aí, o que você acha agora: é um folclore ou não?

Fontes: Webartigos, Munira Magharib, Anotações pessoais de aulas com Luciana Midlej.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 31 de janeiro de 2015

Oásis Siwa

Siwa é um oásis que fica na parte oeste do Egito, a 67 quilômetros da borda com a Líbia e a 10 horas de ônibus a partir do Cairo e, até pouco tempo, ninguém entrava sem uma permissão especial. Levou mais de mil anos para que o oásis ficasse sob o controle do governo do Egito, o que ocorreu em 1819. Os siwans, são os únicos nativos berbéres que se mantiveram independentes após o declínio do Oráculo do Amun.
A cultura de azeitona e tâmara é a sobrevivência principal desse povoado há centenas de anos e a abundância de água atraiu muitos estrangeiros. Hoje, o turismo e o artesanato também contribuem para a economia local. Palmeiras de tâmaras e construções de lama são a principal paisagem desse oásis.

O povoado original de Siwa são bérberes cuja língua nativa não é o árabe. Bérberes são pessoas que moraram no norte da África antes da chegada dos árabes e do Islam. Suas tradições e estilo de vida são diferentes da maioria dos egípcios, mais parecidos com a cultura líbia. Eles falam Siwi, que está relacionado a línguas bérberes como as da Líbia, Algéria e Marrocos. Hoje, a língua possui influência do árabe e alguns falam inglês por conta do turismo.
Os siwans são divididos em sete tribos e cada grupo possui seu próprio shaikh, que media disputa de terras e assuntos legais, com punições que incluem de espancamento a banimento da tribo.

Da infância até o casamento, as meninas usam longos vestidos de tecidos duros com babados nas mangas e abaixo da cintura e bordados com lantejoulas. As mulheres casadas precisam pedir permissão para sair de casa e quando saem, usam o tarfotet, cobrindo desde a cabeça aos pés. Os homens usam galabeyas acima dos joelhos, pisando na areia, manejando os quadris pra frente e para trás. É uma dança típica de Siwa, incluindo variedades feitas em grupo para a colheita. Eles realizam movimentos pélvicos pegando suas mãos e pés, imitando posições sexuais.

Em Siwa, há uma longa história de relações homossexuais legalizadas até que o Rei Fouad os baniu em 1928. Porém, as relações se mantiveram secretas até 1950 e eram aceitas porque ajudava a reforçar a proteção das mulheres e mantinha a juventude isolada. Antes do casamento, as mulheres siwan não estão disponíveis, logo, historicamente os homens passaram a procurar-se, trocando para mulheres após o casamento. Trabalhadores chamados zagallah trabalhavam nos campos, coletando tâmaras e eram pagos com comida. Eles não podiam casar antes dos 40 e frequentemente não tinham dinheiro para casar, logo, eles ficavam juntos. Os zagallah ficavam fora do Shali, um antiga fortaleza onde a maioria das pessoas morava e tinham a tradição de beber vinho de tâmara e festejar até horas adentro. Agora, o álcool é ilegal no oásis.

Em 1937, o antropólogo Walter Cline escreveu a primeira etnografia detalhada dos Siwans em que ele observou: "Todos os homens e meninos normais Siwan praticar sodomia... entre si, os nativos não se envergonham disso; eles falam sobre isso abertamente como eles falam sobre o amor das mulheres, e muitos, senão a maioria de suas lutas, surgem da competição .... homens proeminentes emprestar seus filhos para o outro. A maioria dos meninos usados na sodomia têm entre doze e dezoito anos de idade".

Infelizmente, por conta da história sobre homossexualidade, muitos turistas vão até Siwa para praticar pedofilia.



Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 20 de julho de 2014

Estilo Egípcio de Dança do Ventre

Afinal, o que é esse estilo egípcio de Dança do Ventre que a maioria das bailarinas, aqui no Brasil, querem tanto "ter e beber da sua essência"?

Será isso?


Desculpa, me enganei! Dança do Ventre Egípcia é isso aqui embaixo?


Como, então, poderíamos definir esse estilo? Eu diria que existe uma predominância de movimentos pequenos e mais detalhados, com um pouco de influência do balé. Claro que é possível encontrar elementos ocidentais numa dança desse estilo, mas vou comentar um conjunto de características que predominam.

As bailarinas que assumem ter esse estilo costumam usar poucos deslocamentos (esse é um ponto a ser mais discutido) e um quadril mais marcado, presente. Aliás, o derbacke costuma aparecer bem, principalmente, em performances ao vivo. Vamos à Soraia Zaeid, que é brasileira e está há muitos anos dançando no Egito:


Outras características que costumam aparecer mais dentro desse estilo é a interpretação mais intensa da música (não só da letra) e um trabalho de braços mais emoldurado, ainda dinâmico.


Eu diria que as brasileiras, apesar de dizerem que estudam mais esse estilo do que outros, é uma mistura de todos eles, principalmente, o argentino e mais, recentemente, o do leste europeu. Por conta disso, tem bailarina que é contra essa história toda de definição de estilo por achar que devemos procurar o nosso estilo. Sim, devemos procurar nosso estilo, ou seja, nosso jeito particular de dançar, sempre! Mas ele sempre será inspirado por uma determinada "escola" e creio que a escolhemos por afinidade tanto de assistir outras bailarinas quanto por encontrar algum que cabe melhor no nosso corpo.

Eu, particularmente, gosto de definir estilos pois acho que torna o estudo da técnica de Dança do Ventre mais didática e te instiga a procurar saber mais sobre a cultura daquele determinado lugar. Veja essa live sobre o tema na minha conta no IG, com Natalia Trigo como convidada.

Olha que vídeo legal sobre o estilo:


Bons estudos, independente dos rótulos!
Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Mambouty – a dança dos pescadores e a Semsemeya

Eu vi alguns vídeos sobre semsemeya e como nunca aprendi "formalmente", não me senti à vontade para escrever um post sobre esse tema. Logo, pedi ajuda a uma bailarina que, até onde sei, sabe bastante sobre o assunto: Bianca Gama. Espero que gostem! [O texto e vídeos são de responsabilidade da autora]
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Pessoas como nós foram enfeitiçadas. Não podemos ignorar o chamado da sereia. A 
semsemeya enfeitiça todos aqueles que cantam e tocam e todos aqueles que dançam. Até a plateia que os assiste.
El Wazery, no documentário “The Siren”(El Mastaba Center for Egyptian Folk Music)

Tanbura
O Mambouty, conhecido como a dança dos pescadores, é um folclore egípcio originário da região no entorno do Canal de Suez – canal que liga o Mar Vermelho ao Mediterrâneo; mais especificamente às cidades de Ismaileya, Port Said, El Qantara e Suez, no baixo Egito. Sua música se caracteriza principalmente pela presença marcante de palmas e uma ou mais espécies de “liras antigas”, tal como as liras gregas, chamadas Semsemeya e Tanbura.
Tradicionalmente, a Semsemeya é uma pequena lira de cinco cordas que pode ser encontrada em inúmeros retratos de tumbas egípcias, ilustrando músicos da antiguidade que entretinham os faraós e outros dignitários da corte. É importante ressaltar que apesar do seu caráter remoto, a utilização deste instrumento ainda é muito comum na sociedade egípcia contemporânea.
Em contraste, a Tanbura é uma lira maior com seis cordas que era habitualmente usada nas cerimônias de cura Zaar. Pensa-se que este instrumento tenha sido trazido para o Egito durante o século 19, após a conquista de parte do território do Sudão. Quanto à procedência da Semsemeya, não se sabe exatamente qual seria a sua origem, mas se acredita que ela seja uma variante da Tanbura. Uma lenda egípcia conta que o primeiro destes instrumentos foi criado a partir da casca de uma tartaruga que nadou muito longe ao longo do Nilo e acabou se tornando o jantar para um músico com fome. Outra lenda afirma que a Semsemeya já existe há séculos no Golfo Pérsico e que a sua música teria a capacidade de acalmar as águas do Mar Vermelho...
Semsemeya
Atualmente, para acompanhar o canto há versões modernas e até mesmo variantes destes instrumentos, que possuem de 12 a 14 cordas metálicas, com saída eletroacústica, podendo chegar a ter até 25 cordas, que são afinadas para atender aos diferentes maqams/escalas da música oriental, além daqueles mais utilizados como o Rast e Bayati. Nos dias de hoje, também podemos encontrar a Semsemeya em músicas da Jordânia, Iêmen, na península do Sinai (inclusive em canções beduínas) e pelos arredores do Mar Vermelho.
Confira algumas imagens do Canal de Suez, os relatos dos músicos, a distribuição destes instrumentos pelo Egito e um pouco de dança nos diferentes estilos de música compostos com a Tanbura, a Semsemeya e outros instrumentos aqui:

Parte 1 do documentário “The Siren”:


Parte 2 do documentário “The Siren”:


 A palavra Semsemeya, assim como Simsimiyya, Bambouti, Bambouteya, Bambutiyya e Mambouty, também é utilizada como sinônimo do gênero musical desta região (que inclui a música e a dança). Também é encontrada a distinção no uso das palavras; Semsemeya se referindo ao instrumento e à música, assim como Bambouteya se referindo unicamente à dança e aos passos de dança. A etimologia da palavra Mambouty aproxima-se da expressão inglesa “Men Boat”, fazendo uma clara alusão aos trabalhadores do Canal.
Ao longo dos tempos, o Canal de Suez tem sido uma passagem de importância crucial entre a África e a Ásia. Há muito tempo, peregrinos muçulmanos já viajavam através de Suez a caminho para Meca. Desta forma, é natural compreender que esta região tenha sido afetada por diferentes influências culturais. A conclusão do Canal de Suez, em 1869, foi um evento estrategica, politica e economicamente muito importante para o Egito, e isso também afetou o desenvolvimento da música popular do distrito. 
Durante a sua construção, os trabalhadores provenientes de todas as partes do Egito trouxeram com eles as suas próprias tradições musicais, tal como fizeram os engenheiros ocidentais e todo o pessoal administrativo com suas famílias. Port Said foi dividida em duas partes, uma ocidental e outra egípcia. Os egípcios se reuniam semanalmente em bailes denominados “dammas” para tocar a sua música e cantar. Nestas ocasiões, se utilizavam a tabla, colheres, palmas e às vezes um pandeiro para acompanhar as canções. A Semsemeya só foi incorporada à música local depois. De acordo com algumas fontes, o instrumento chegou ao canal apenas em 1938, e posteriormente se adaptou à tradição musical do local, por intervenção de um músico chamado Zakaria Ibrahim, criador da proeminente banda El Tanbura.

El Tanbura band:


A música Semsemeya ganhou uma importância política peculiar por volta de 1950 quando as canções passaram a falar sobre o movimento de libertação contra a ocupação britânica do Canal de Suez. Várias de suas músicas versavam sobre o crescente movimento de nacionalização do canal, assim como o espírito de luta de Suez. Uma das personalidades mais conhecidas na formação da música Semsemeya é Mohamed Mahmoud Ghazali, conhecido como capitão Ghazali, que foi um líder do movimento de resistência, o qual formou uma banda que era levada para a linha de frente nas batalhas, para tocar as suas músicas e encorajar os combatentes.
A dança Mambouty é uma parte essencial do repertório das trupes de folclore do Canal. Essencialmente, é uma dança masculina alegre e vigorosa que se caracteriza por passos rápidos, saltos bem altos, passos do tipo “charleston” (ao que tudo indica, que foram absorvidos dos marinheiros ingleses), sapateado, palmas (“kaff”) e alusões ao cotidiano rotineiro do mar como “avistar, puxar e jogar a corda, remar”, motivo principal para ser chamada também de dança dos pescadores. Também podemos encontrar a utilização de um par de colheres de metal e bastão nesta dança.
Os vídeos abaixo representam o estilo de dança Mambouty, realizado pelo bailarino e professor egípcio Mohamed El Hosseny, ex-integrante da Trupe Reda, atualmente radicado na Finlândia, porém nativo de Suez e especialista neste tipo de folclore:


Os “Man Boat” eram pescadores, guardas-marinha, comerciantes barqueiros e também trabalhadores do porto, que, como mencionado anteriormente, ao se reunirem nos dammas utilizavam palmas, colheres, assim como panelas e daffs para acompanhar e dançar as canções que eram tocadas naquela região. Esta dança não possui um traje específico e a roupa utilizada no palco reflete a origem da classe trabalhadora deste folclore. Deste modo, é comum vermos apresentações com roupas que fazem alusão à Marinha, ao mar e roupas no estilo “Popeye”.
Ressalte-se que a participação feminina neste folclore suscita muitas dúvidas quanto a sua inserção. Até o momento, não está claro pelas minhas pesquisas se mulheres costumavam mesmo dançar originalmente nos dammas ou se a inserção de mulheres na dança Mambouty se deu pela adaptação para o palco e a teatralização deste folclore; visto que existe a possibilidade de mulheres dançaram vestidas de homens ou utilizando a roupa típica no estilo “Baharey” (relativo ao mar, relativo também a esta região), que é o vestido curto utilizado em apresentações de Melea-Laff.




Fato é que uma performance mista de homens e mulheres pode ser realizada com homens dançando os passos masculinos do Mambouty e mulheres trajadas com o vestido Baharey, utilizando ora alguns passos de Mambouty, assim como o próprio repertório da dança oriental. Confira aqui uma coreografia das professoras do Oriental Studio de Dança:


É muito importante ressaltar que a Semsemeya ou Mambouty ainda é uma tradição viva no Egito. Casamentos são organizados em Suez com bandas de Semsemeya para entreter os convidados e as músicas atuais refletem os temas contemporâneos do Egito. Como exemplo, no início de 2011, a banda El Tanbura participou da revolução egípcia, fazendo campanha para a reforma social, política e cultural no Egito e tocando para os manifestantes na Praça Tahrir, no Cairo.
Finalmente, gostaria de ressalvar que este artigo é fruto de pesquisas combinadas de algumas fontes, e não representam uma verdade absoluta e inequívoca. Novas fontes de referências podem alterar parte do texto acima, à medida que outras informações vão sendo adicionadas e comparadas entre si. 

Referências básicas:
Bailarino e professor egípcio Mohamed El Hosseny, especialista neste tipo de folclore

Bianca Gama
biancaegama@hotmail.com

Embora Bianca sentisse desde criança uma forte atração pelo sons do oriente, foi somente em 2000 que ela seguiu seu impulso para adentrar no mundo da dança do ventre. Foi então na primeira aula, realizada na data de seu aniversário, que ela foi completamente conquistada por uma professora iraquiana, Sandra Chitayat. Desse momento em diante seguiram-se muitas aulas, ensaios, coreografias e apresentações. No ano de 2005, Bianca deu início ao ensino dessa modalidade de dança, ministrando aulas nas quais desenvolveu um método próprio de desenvolvimento corporal, relaxamento e conscientização rítmica. Sua técnica e expressão foram aprimoradas com renomadas professoras brasileiras, como Lulu, Carlla Sillveira, Clara Sussekind, Melinda James e Luciana Midlej, assim como de professores egípcios como Raqia Hassan e Gamal Seif. Já viajou para países como a Turquia e Egito para ampliar os seus conhecimentos. Atualmente, Bianca é professora do quadro do Oriental Studio de Dança, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

DVDs de Dança - parte 5

Habibas,

O filme é realmente uma delícia, apesar da carreira meteórica (e tão rapidamente aceita pelos egípcios) da Lola! A gente se identifica em todas as partes do crescimento dela, inclusive com suas frustrações e lições como "não se sentir uma bailarina só porque você se parece com uma"! A Ismahan, professora da Lola, foi minha personagem preferida, me deu vontade de ter aulas com ela, mesmo sendo fictícia. Ela é linda, sensual e cheia de sentimento, apesar de reprimida e triste.

Aqui tem uma sinopse do filme e aqui uma resenha da Celia. Como ela mesma escreveu, "Um dos pontos altos, como comentam os críticos, é o tom de comédia que o filme dá, abrindo espaço, sem tocar na ferida, para abordar os preconceitos de "mão-dupla" que existem entre o Ocidente e o Oriente, e os mal-entendidos que acontecem pelo "choque de culturas" que Lola perpassa".

Para ser assistido com pipoca!


Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 20 de julho de 2013

Gatos & Bellydancers

Post a pedido de Nitya Montenegro

Desde que eu adotei 2 gatinhas (essas aí na foto ao lado, Hob e Nur), não só descobri que o mundo ama gatos, sendo mais comum que eu imaginava, como BAILARINAS de Dança do Ventre comumente terem gatos. Eu arriscaria a dizer que gira em torno de 70% das mesmas. Coisa de maluco, eu não tinha a menor ideia. Daí resolvi procurar saber se existe uma relação entre gatos e bailarinas orientais.

Gatos (Felis silvestris catus) eram conhecidos no Antigo Egito como "mau" e a origem desse nome não é clara, mas alguns acreditam que exista referência onomatopoiética com o som que eles emitem (meow). Baseado em comparações de DNA de espécies vivas, parece que eles foram domesticados há 10.000 anos atrás no Oriente Médio porque eles caçavam ratos (protegendo seus estoques de comida) e cobras. Eles se tornaram um símbolo de graciosidade e equilíbrio. O deus Mafdet simbolizava a justiça e a deusa Bastet simbolizava proteção, fertilidade e a maternidade e eram representados por um leão e um gato, respectivamente. Gatos podiam ser mumificados e dados como oferenda à Bastet. Uma inscrição no Vale dos Reis, no Antigo Egito diz:

"You are the Great Cat, the avenger of the gods, and the judge of words, and the president of the sovereign chiefs and the governor of the holy Circle; you are indeed the Great Cat."

Os gatos são vistos de forma diferente por cada cultura, podendo ser associados à má ou boa sorte.

E de onde vem o mito das sete vidas dos gatos? 

Esta lenda surgiu em decorrência da habilidade que esses felinos possuem para escapar de situações que envolvam risco à sua vida. Outro fator também responsável por essa crença é que, ao caírem de grandes altitudes, os gatos quase sempre atingem o solo apoiados sobre as quatro patas. Isso ocorre em função de possuírem um apurado senso de equilíbrio, permitindo-lhes girar rapidamente usando a cauda como contrapeso. Quando abandonados em áreas remotas, distantes da sociedade humana, filhotes de gatos podem converter-se ao meio de vida selvagem, passando a caçar pequenos animais para sobreviver. Isso faz com que eles sejam frequentemente vistos como animais resistentes, dotados de várias "vidas". Acredita-se que esta lenda esteja ligada à Idade Média, quando se imaginava que as bruxas se associavam aos gatos, principalmente aos pretos. Em 1584, no livro Beware the Cat (Cuidado com o gato), do escritor inglês William Baldwin dizia que "é permitido às bruxas possuírem o corpo do seu gato por nove vezes". Outro inglês, John Heywood, reuniu, em 1546, uma coletânea de provérbios, dos quais um dizia que "a mulher, assim como o gato, tem nove vidas". Um outro provérbio inglês diz: "O gato tem 9 vidas, com 3 ele brinca, 3 ele perde e com 3 ele fica". Já os árabes e turcos nada tinham contra os gatos (Maomé vivia cercado deles) e seus provérbios falam em sete vidas. É provável que tenham passado essa versão para espanhóis e portugueses na ocupação da Península Ibérica. A partir de Portugal, o mito das sete vidas felinas logo chegou ao Brasil, onde é muito popular.

E as bailarinas de Dança do Ventre, por que gostam tanto de gatos?

Não sei, continuo a não enxergar um relação direta. Se eu tivesse de arriscar, eu diria que a independência e mistério sejam importantes atrativos, além de serem animais esbeltos e carinhosos. Perguntei à Rafaela Alves, dona da Sofia, por que ela tem gato: "Na casa da minha avó, durante toda minha infância e adolescência, convivi com gatos e cachorros. Confesso que gostava mais dos cães, até que um gato muito especial da minha avó resolveu que eu era sua dona. Ele foi me conquistando aos poucos, começou a vir todas as vezes em que o chamava, todas as vezes em que eu chegava em casa ele estava me esperando na varanda e pulava no meu colo, aí não resisti. Me encantei por esse animal tão fascinante, que consegue unir inteligência, doçura, perspicácia e elegância. Com dois anos, meu gatinho morreu e fiquei sentindo muita falta. Então, quando fui morar sozinha, resolvi arrumar um gato. Aí, Deus me deu a Sophia de presente. Ela foi encontrada pelo meu sogro abandonada pequenininha em uma fazenda. Eu cuidei dela e já estamos juntas há 4 anos. Com a convivência diária, minha paixão pelos gatos só aumenta, pois além de espertos, independentes e brincalhões, eles mostram doçura e lealdade a quem sabe amá-los. Aquele ronronar derrete o coração de qualquer pessoa! E acho que os bichanos conseguem transmitir todo seu amor com um simples olhar, com um toque. E, pensando  o motivo de muitas bailarinas possuírem um gato, vejo muitas semelhanças entre nós e os bichanos, pois ao dançar, temos que demonstrar elegância de movimentos. Às vezes, precisamos ser mais sérias e introspectivas e outras vezes, brincalhonas, sem nunca deixar de passar ao público, com nossos gestos e nosso olhar o amor pela dança".

E você, o que tem a nos dizer sobre seus peludinhos?


Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 2 de março de 2013

Dança Ghawazee

Post revisto e reescrito em 22/03/2015

Ghawazee = bailarinas. Ghazia = bailarina. A pronúncia correta em árabe de "gh" não é um "gu" (como em guerra) e sim um som gutural que mistura o "g" e o "r". Vai parecer um "r" bem forte, fechado e "entalado".

Já vimos que as ghawazee podem participar bastante do cotidiano dos egípcios, sendo contratadas para dançar em festas no geral, principalmente casamentos. Mas quem são elas?

As ghawazee tocam diversos instrumentos além de dançarem, pois vivem de shows e outras atividades. A dança é caracterizada por ter movimentos grandes, soltos, cadenciados e marcados dos quadris, aliado à ginga do corpo, sem ponta alta. Batidas fortes e pé no chão (pode haver a presença de guizos indianos) devem estar presentes e o uso do cabelo é bem-vindo. Os trajes mais antigos compreendem saias sobrepostas e moedas pois era o local onde guardavam seu dinheiro e jóias. A música sempre tem mizmar e rebab tocando, com letras repetitivas e os ritmos comuns são maqsoum (variação somboti), laff, fallahi e said (com um andamento diferente, geralmente, com apenas um mizmar tocando).

Um pouco de história: Descendentes de ciganos de diferentes castas oriundas da Índia, foram banidas por Mohamed Ali para o Alto Egito (sul) em 1834 (mesmo após terem se estabelecido há tempos no Egito) por não usarem véu, mesmo sendo muçulmanos e "usarem o corpo" para ganhar dinheiro. Lá, incorporaram elementos sulistas, como bastão (o que, provavelmente, originou o Raks Assaya) e o pandeiro, e a roupa com corpete. As ghawazee do norte usam a galabya com lenço de quadril. Em 1866, elas voltam para o Cairo, sob a condição de pagarem impostos.

Quer mais história? No site Gilded Serpent, tem uma série de artigos sobre Ghawazee e o primeiro é este.

Podemos identificar dois tipos mais comuns e estudados de dança ghawazee, já que a tradição tem se perdido dentro do próprio Egito devido à sua marginalização social: sombouti e maazin. É importante entender que a dança ghawazee não tem refinamento técnico, mas ao pensar palco, lembre-se que a performance passa a ganhar o caráter de show, logo, um pouco de refinamento cai bem.




Nos anos 70, Aisha Ali foi a primeira bailarina norte-americana a ir estudar no Egito e foi ela quem levou as danças folclóricas, inclusive ghawazee no estilo Maazin, para conhecimento das bailarinas profissionais da época. Ela ainda dá aulas e tem um série de vídeos à venda:


Como mencionado, o somboti também é um ritmo e as ghawazee dessa região possuem um estilo mais "rude" de dança e inspirado nas tribos beduínas próximas. Já, as ghawazee maazin tem um estilo mais delicado, adaptado à ocidentalização para shows, que foi criado pela família Maazin, que trabalha até hoje:


Aqui no Brasil, a Aysha Almeé diz que seu ghawazee é sombouti:


A dança das ghawazee é a base da Dança do Ventre contemporânea e do ATS. Por quê? Isso vem do contexto histórico em que Napoleão invade o Egito e toda sua tripulação fica chocada com as ghawazee. Nunca ouviu falar de que é por conta dele que a danse du ventre chega na Europa e ganha o mundo? Não sei é verdade, ainda não me deparei com nenhum registro escrito (alguém sabe?), mas tem sentido.


Toda base das ghawazee são utilizadas pela Dança do Ventre no início do século 20, quando as nightclubs surgem no Cairo. Várias tentaram seguir o caminho do estrelato sendo bailarinas de Dança do Ventre, autodenominando-se, inicialmente, como awaleen (isso dá pra ser outro post).

Fontes: Aulas com Melinda James, Luciana Midlej e Samra Sanches, Me Khellav.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 17 de junho de 2012

DVDs de Dança do Ventre - parte 2

"The Bellydancers of Cairo" é um DVD produzido em 2005 pela bailarina estadunidense Natasha Senkovich e ela foi ao Cairo para se aprimorar e descobrir diferentes opiniões sobre a Dança do Ventre. Ela realiza entrevistas com diversas bailarinas, perguntando principalmente sobre a situação de uma bailarina profissional no Cairo. Farei um resumo sobre os principais comentários e desde já recomendo fortemente esse DVD. Não sei se existe alguma cópia que possua legenda em português...

As entrevistadas foram Samasen, Lucy, Dina, Khayyreya Mazin, Rabab, Eman Zaki, Nagwa Sultan, Aida Nour, Doaa Hegazy, Zahra Zuhair, Katia, Marwa, Soraya Zaeid e Diana. Ainda entrevista Gigi De Manais, etinóloga de dança e dois homens, parentes seus.

A Dança do Ventre ainda é muito popular e é utilizada em casamentos para entretenimento e abençoar com fertilidade. Porém ainda existe muito preconceito e as roupas são um motivo, que mudou por conta da influência ocidental e de Hollywood, já que as ghawazee eram mais cobertas. A atriz Maud Allan, atuando como Salomé, também foi uma grande influência. Eman Zaki é uma atual estilista e disse que a Badia Masabni exigia de suas bailarinas treinos diários e que respeitava-se mais as bailarinas da Golden Era porque elas não mostravam tanto o corpo como hoje. E o Corão não permite que a mulher "decente" dance e elas nunca casam com alguém de família "decente", não se aceita [Observação minha: o que entendo por não mostrar tanto o corpo era a barriga, porque as pernocas, babies, apareciam e muito!]. Nagwa Fouad mudou o show de DV, com um tom a Las Vegas e foi a primeira bailarina a produzir suas músicas e, para ela, atuar dava mais dinheiro.

Para ser uma bailarina de sucesso no Cairo, segundo:

Samasen: é preciso um ano para se fazer nome, senão você não ganha respeito. Acha que a DV vai voltar a ser melhor porque está sendo sustentada pelos outros países e ela está feliz com isso [Viva nóis!]. Nenhuma estrangeira vira estrela no Cairo (!).

Aida Nour: não adianta ter habilidade física apenas, mas entender árabe, sentir a música, amar dançar e amar ser bailarina.

Nagwa Sultan: deve-se amar a música árabe e saber se mexer no oriental way. É preciso amor, talento e inteligência. Ela diz que o Egito está ficando cada vez mais conservador e as bailarinas aparecem cada vez menos nos casamentos.

Katia: é preciso criar novos movimentos, ter roupas bonitas e boa orquestra (o que é difícil). A economia está ruim e a influência da religião está maior, assim como a nova geração quer ser mais europeia. Os casamentos não têm DV e sim DJ para dançar. [Observação minha: em uma das vezes que dancei em SP, nessas casas com árabe, escutei isso de alguém com relação ao dabke. Para a nova geração, dabke é coisa de velho. E aí?]

Lucy ainda dança, tem um restaurante e diz que dança com sentimento e faz as pessoas olharem para seu lado feminino e não o sensual. Ela não gosta do cinema com DV porque ela acha que eles colocam a DV de maneira ruim. Samasem concorda e diz que esses filmes passam todo dia na TV e por isso o povo tem uma visão errada [Achei esse comentário particularmente interessante].

Além disso...
Dizem que para ser famosa é necessário dinheiro para investir e ter um produtor. E se você não é famosa, os empresários vão te usar por razões políticas. Todo manager quer saber se você quer se prostituir, não importa o nível. Hani Sabet, que é produtor, diz que prostituição e DV sempre andavam juntas e acredita estar diminuindo hoje em dia [Comentário interessante para as bailarinas mais puritanas].

Nos cabarés atuais...
É bem diferente: elas não têm troca de roupa e ganham dinheiro fácil. Muitas vão para fazer dinheiro rápido, mas não querem ficar ali para sempre.

No geral, elas demonstraram nas entrevistas muita confiança em si e em sua qualidade como bailarina. Mas ainda fica a dúvida se eles preferem fama e dinheiro ou segurança?

Ainda rola um extra com performances de várias entrevistadas assim como o comentário da diretora Natasha e do cameraman. Não encontrei no YouTube algum trailer sobre o DVD, mas achei essa parte em que ela filma a Soraia dançando e que está no DVD:


Bauce kabira,
Hanna Aisha

sábado, 21 de janeiro de 2012

Marsah Matruh

Vamos falar rapidamente sobre uma cidade sempre citada nos estudos de Hagalla: Marsah Matruh.

É uma das principais cidades turísticas do Egito, conhecida por suas areias macias e brancas, além de suas águas calmas e transparentes. É a última cidade do Egito antes da Líbia. Possui um clima típico do Mediterrâneo, com invernos frios e verões quentes e secos. Lá, estão ruínas do faraó Ramsés II e de um dos palácios da Cleópatra. Atualmente, a cidade produz cevada, lã, ovelha, melancia e azeitona.

A cidade ainda possui beduínos vivendo e a Dança Hagalla supostamente veio dessa região. Mahmoud Reda foi o responsável por levar aos palcos e ao conhecimento de todos, mais uma dança folclórica egípcia. Como todo folclore, os movimentos são sempre simples e repetitivos e para que a dança fosse mais cênica, a introdução do balé e de outros movimentos criaram a Dança Hagalla que vemos sendo executada em quase 100% dos vídeos no youtube.

E como procurar dançar da forma mais tradicional possível? Danças folclóricas são sempre polêmicas justamente porque Reda, nossa principal referência em folclore, nunca representou essas danças em sua forma pura e sim modificada. Para realizar um folclore "mais real", apenas com pesquisa de campo para que você veja com seus próprios olhos. E mesmo assim, não é garantia de nada pois esses grupos étnicos costumam ser isolados e não tão abertos quanto a gente pensa. Se fosse fácil, encontraríamos alguns vídeos gravados em campo com muito mais facilidade, não?

Mas quem sabe alguém resolve dar um pulinho em Marsah Martruh e conta para gente depois?



Bauce kabira,
Hanna Aisha

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Dança Hagalla

Aprendi Dança Hagalla recentemente num workshop com a bailarina argentina Yesica Carmona, aqui no Rio e pedi para ela me escrever um texto sobre isso. Fiz a tradução, que segue abaixo (os vídeos são por minha conta):

“Faz um tempo que estudo sobre a Dança Hagalla, sua origem e seu significado. No caminho, tive várias dúvidas referentes à dança e à música que devia utilizar e graças a elas, pude chegar a algumas conclusões.

Quando alguém se refere à Hagalla, não está somente se referindo à dança, porém também à música, à bailarina, a um movimento e a todo um contexto social. Hagalla vem do árabe “hagl” que significa “saltar”. É uma dança de celebração que acontece em diferentes ocasiões cotidianas nas colônias de beduínos de Marsa Matruh, que está localizado no noroeste do Egito e nos arredores da Líbia. Também está relacionada com as danças Kaf (aplausos). Comumente se utiliza a dança em casamentos, noivados ou colheitas nessas áreas. A bailarina ou “hagaleira” é a figura principal. Ela dança mostrando toda sua graça, riqueza e beleza para uma fila ou um semi-círculo de homens e familiares que participam da festa, acompanhando a bailarina com cantos e aplausos.

Excelente coreografia representando a Dança Hagalla, por Aris Medrei (DF):


Costuma estar coberta ou semi-coberta e, às vezes, utiliza um lenço ou vara para dançar. Pode ser uma familiar da noiva, já que é usual que outras mulheres da família tornem-se o centro dela ou pode ser uma bailarina profissional. Nesse caso, ela dança ao redor do homem eleito, tirando suas joias e braceletes em troca de novos braceletes dados por ele.

Não é uma dança em que a mulher tem como ambição se casar, até porque isto não acontece na vida atual pois os noivados já estão arranjados desde cedo, porém é uma representação. Na Líbia, por exemplo, essa dança representa uma celebração ao início da vida adulta de uma jovem que dança cobrindo seu rosto com um chador. Trata-se de um ritual social e regional, um folclore, como tantos outros, que não nos pertence, a não ser que tenhamos viajado ou vivenciado alguma experiência mais próxima. Por isso, é difícil falar de alguma música ou dança específica, mas é possível compreender sua essência, sua simplicidade dos movimentos e suas características para diferenciá-la de outro tipo folclórico.

A maioria das representações da Dança Hagalla são baseadas ou inspiradas na versão teatral da Troupe Reda, dirigida pelo mestre egípcio Mahmoud Reda. Em um artigo muito interesante escrito pela sua esposa e famosa bailarina Farida Fahmy, em um estudo de campo dos estilos folclóricos do Egito, ela conta que em 1965 teve a sorte de acompanhar seu esposo à província de Marsa Matruh e ter sido testemunha de uma evento de dança regional. Segundo Farida, este evento inspirou Mahmoud Reda em realizar e encenar a Haggala em 1966, utilizando um movimento tradicional de quadril, que ela aprendeu copiando e logo foi incorporado ao vocabulário da companhia Reda como Hagalla; este movimento de quadril pode ser combinado e seguido com os demais passos básicos da dança egípcia. O próprio Reda reconhece que sua versão está um pouco longe da versão tradicional e que ele introduziu em sua representação movimentos originais misturados com outros.

Hagalla por Mahmoud Reda:


Algo semelhante acontece com o vestuário; um vestido típico de mangas grandes, que pode ser usado com um grande “cachecol” ao redor dos quadris ou com uma “sobre-saia” ao estilo libanês. A faixa com grandes canutilhos e franjas é uma moda mais atual.

Mais uma linda coreografia:


Com respeito à música, geralmente se usa o ritmo laff ou malfuf, por sua estrutura de dois tempos com um corte, que se assemelha ao ritmo 2/4 utilizado nas músicas e celebrações regionais".

Aqui, minhas alunas da Cia Zahra Sharq, dançando Hagalla:


Artículo escrito por Yesica Carmona
Tradução livre do espanhol por Hanna Aisha

Bauce kabira,
Hanna Aisha

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Dança Baladi

Post revisto e reescrito em 19/04/18

Há mais de 50 anos, houve um grande êxodo rural de fallahim para a cidade do Cairo, no Egito. Em árabe, baladi/balady significa, literalmente, "minha terra". Dentro das cidades, pode significar "caipira" e refere-se a esses fallahim e à sua cultura, envolvendo comida, comportamento, roupa, música, dança, etc.

É uma dança popular de cárater solo, por mulheres e homens dentro de casa. Não é uma dança folclórica, que costuma se limitar a determinado grupo étnico. É a dança do dia-a-dia no Egito. E ela foi uma das danças que a dança do ventre se inspirou.

A roupa que melhor representa uma dança baladi é a galabia, com lenço ou faixa (mais moderno) na cabeça e no quadril. Mas a roupa de Dança do Ventre pode ser utilizada, assim como qualquer roupa do corpo, no caso do shaabi ou em um baladi moderno. A escolha das roupas sempre depende do contexto que você estará e da música: show, festa da colônia árabe, teatro, restaurante. Os snujs podem complementar a dança, mas não é obrigatório.

A improvisação vocal (maual) ou instrumental (taksim) está quase sempre presente na dança baladi. O maual é a introdução vocal que o árabe faz; descende de um canto religioso, segundo alguns estudiosos. São momentos em que o cantor é dominado por seus sentimentos, geralmente relatando histórias de amor ou desilusões. Costuma aparecer no início das músicas, mas pode vir no meio também:


Na dança baladi, os instrumentos mais presentes são a nay, alaúde, kanoon e o acordeon. O acordeon tem origem na China e não se sabe como chegou ao Egito e se tornou seu instrumento mais importante. Ele é o instrumento mais utilizado nas músicas balady, como no inicio, na forma de taksim, onde a percussão entrará depois. Particularmente, é meu instrumento favorito. Porém, nas músicas mais modernas, o saxofone e o teclado também podem aparecer em seu lugar.

A bailarina brasileira Maira Magno (SE) considera 3 tipos de baladi: Alexandria (Meleah-laff), Sul do Egito (Said e Ghawazee) e Norte do Egito (Taqsim Balady e Shaabi). Mas há quem considere o Fallahi como dança Baladi também.

As Ghawazee usam a nay e o rabab com a estrutura do baladi, incorporando o acordeon dos turcos, em torno de 1700. Elas, atualmente, se concentram mais no sul do Egito, como em Luxor. A bailarina egípcia Fifi Abdo costuma representar a personagem "bint-el-balady" ou a Maalena, que o bailarino egípcio Mahmoud Reda levou aos palcos com a dança meleah laff:


A bailarina egípcia Souhair Zaki é do norte do Egito e é uma grande representante da dança baladi (da forma mais conhecida aqui no Brasil, o taqsim balady). Ela tem uma dança mais doce, mais introspectiva:


Caso você queira coreografar um taqsim balady, a dança deve parecer uma improvisação, porque ela é improvisada culturalmente! As egípcias usam tanto as mãos quanto o quadril, com pouco braço e tronco. Oitos, camelos e redondos são muito usados e costumam ser pequenos, quando feitos por egípcias. Aqui, nesse vídeo, eu danço uma progressão balady ou taqsim balady (não coreografado):


Quando o baladi é cantado, dependendo da letra, pode ser chamado de Shaabi, que é uma palavra árabe para "folclore" no Marrocos, porém no Egito, é uma dança urbana das classes D e E. São músicas que falam sobre o cotidiano dessas classes, às vezes, sobre temáticas pejorativas. Para tentar representar um shaabi mais "autêntico", não se deve estar preocupado em seguir a música, apenas dançar, não se preocupando em ser complexo, permitir-se. Existem muitos cantores no Egito; entre os mais famosos está Saad el Soghayer. E sim, é a Dina quem está nesse clip dele:


Os baladys mais modernos (alguns chamam de new baladi ou balady moderno), como os do Armen Kusikian, permitem uma leitura mais moderna da dança, refletindo inclusive nos figurinos. A ucraniana Marta Korzun é ótima nesse estilo:


Fontes: Anotações pessoais de aulas com professores variados (Khaled Seif, Jade el Jabel, Luciana Midlej, Luciana Nogueira, Maira Magno, Marta Korzun, Melinda James, Nour, Orit Maftsir, Raqia Hassan); Blog Yallah!, Greenstone Bellydance, Livro "Folclore Árabe" de Luciana Midlej e Melinda James.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

domingo, 12 de julho de 2009

Dança Zar

Texto revisado e reescrito em 16/09/2018

A dança Zar, quando vai pro palco, entra naquela categoria de Folclore/Danças ritualísticas, assim como a Tamboura. É uma dança que representa uma cerimônia de cura psicológica e espiritual egípcia, que também é praticada em outros lugares do leste e norte da África.

O ritual Zar não é sancionado pelo Islã (por ser ligado à "magia") e costuma ser praticado em casa para as mulheres, enquanto os homens atuam apenas como músicos ou ajudantes nos sacrifícios. O ritmo ayoub é usado para promover o transe desta dança, também presente em outros rituais afrorreligiosos, como o candomblé.

O local é defumado primeiro (bohour), o espírito (djinn) "pede licença" ao líder espiritual, que dará início à cerimônia, propriamente dita, que pode durar algumas horas. O líder escolhe a música e o ritmo, de acordo com o desejo do djinn. Através do ritmo, lentamente, elas movimentam a cabeça, jogando os cabelos, até entrarem em transe e caírem no chão em frenesi, para assim, se libertarem dos espíritos ruins. É considerado uma dança de cura através da conciliação dos espíritos em seu corpo.


Existe todo um aparato para a realização deste ritual, como a roupa branca e o perfume da mulher que entrará em transe, até sacrifício de animais (desde galinhas até camelos) que serão consumidos pelos participantes. Logo, entende-se que o Zar, como ritual, é algo bem diferente daquele praticado para o palco, pois carrega simbologia e religiosidade fortíssimas, que não devem ser menosprezadas. Esse documnetário é ótimo e fala dessa prática no Irã:


Então, caso queira representar essa faceta do folclore árabe, perceba como utilizar os passos e o corpo, marcando o ritmo ayoub, sem intenção ritualística. Aqui, um vídeo que eu gostei muito da Bella Saffe (BA):


Fontes: Dança do Ventre Brasil, livro "Folclore Árabe - vol 1", de Luciana Midlej e Melinda James.

Bauce kabira,
Hanna Aisha

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Dança com o Jarro

Texto revisado e reescrito em 02/09/2018


Antes de falarmos sobre a dança do Jarro, precisamos saber que o jarro é apenas mais um elemento cênico da cultura árabe, assim como o bastão, o lenço, o cesto... Existem, por exemplo, danças marroquinas que utilizam o jarro, além das danças egípcias fallahi e ghawazee. Porém, nesse artigo, vamos falar do jarro no contexto egípcio da dança fallahi (que é o que estamos mais familiarizados).

Nenhuma mulher, fica à beira do rio Nilo dançando e cantando ao buscar a água, não da maneira que costumamos ver por aí nos palcos, ao contrário de um dabke libanês típico, que ocorre normalmente em suas comemorações. A dança fallahi com o jarro é uma representação de uma parte da cultura egípcia, ligada ao rio Nilo. Não é folclore, mas a representação de uma parte da cultura mais rural. Essa história começou com um bailarino chamado Mahmoud Reda, que começou a levar para os palcos parte da cultura árabe, representando assim, muito do seu cotidiano:


Ao se representar a Dança Fallahi com o Jarro, pode-se fazer uma ligação ao elemento água, com a bailarina representando e interpretando a rotina das camponesas, que caminhavam de sua casa até o rio em busca de água, onde descansavam, refrescavam-se, pegavam um pouco de água em seus jarros e retornavam. Todos os movimentos da dança estão ligados a este fato que deve ser lembrado sempre que for dançar. É um momento de alegria e felicidade, sempre de forma muito alegre e solta.


Dentro dessa dança, utiliza-se um vestido bem largo e, geralmente, colorido e o ritmo costuma ser o fallahi, que é um maksoum modificado, mais acelerado (ritmo árabe dos camponeses egípcios - dum kaka dum ka - pode ter variações) e binário e os gestos representando banho, brincadeiras e sede, aliados ao charme, aos passos simples, saltitantes e alegres e à felicidade de estar desfrutando de um rio fértil.

Prefiro os jarros de cerâmica, apesar de serem mais pesados, e com alça para melhor segurá-lo, mas é possível utilizar de plástico e sem alça. O figurino é sempre um vestido bem rodado até o pé com mangas compridas ou não de estampa lisa, listrada ou com motivos geométricos ou florais. Procure sempre pensar no que as egípcias camponesas costumam usar no cotidiano.

Desconheço Dança com o Jarro dançada por homem, já que eram as mulheres as encarregadas de buscar água e cuidar do dia-a-dia da casa. Mas, acompanhá-las na dança fallahi, ok...


Se possível, ao escolher sua música pro jarro, procure saber a letra, caso seja cantada. Use aquelas em que exaltam seu país ou falam de seu cotidiano, pois são contagiantes e representam a alegria de um povo. É preciso habilidade, equilíbrio e boa expressão facial, pois é uma dança teatral.

Eu sou suspeita ao falar de jarro pois uma vez que passei a dançá-la, me apaixonei e tenho muito carinho por essa dança. Espero que vocês também se apaixonem por mais essa faceta desse povo tão rico! Aqui, é o meu vídeo, em que tirei terceiro lugar como amadora no Mercado Persa 2006... acho que representei nele mais ou menos o que quis dizer nesse texto. Hoje, minha dança está um pouco mudada, mas a essência é a mesma:


Observação: a música acima, que é exaustivamente usada para dança com jarro, também costuma ser usada para ghawazee. Por quê? Porque alguns egípcios a consideram ghawazee, outros fallahi... às vezes fica difícil, né?!

Importante relembrar que a Dança com Jarro nada mais é que uma dança fallahi, portanto, os passos básicos são do fallahi.


Fontes: Anotações pessoais de aula com Maira Magno, Melinda James.

Bauce kabira,
Hanna Aisha